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- Juan Karlo Pagno

- há 4 dias
- 4 min de leitura
Quando descansar não significa parar

Por Juan Pagno | Agência Abre Aspas
De manhã, o cansaço chega antes. Um cansaço de gente que já está cansada antes de bater o ponto, como se o corpo tivesse aprendido o caminho sozinho. Acordo no mesmo horário, uniforme no mesmo lugar, bolsa nas costas, chave no bolso, porta fechada sem olhar duas vezes. No ônibus, passo o cartão e fico de pé, porque quase nunca tem lugar para sentar. Do meu lado, um homem também se segura na barra. Cabelo ralo, óculos grossos, o celular preso na mão. Fala com a filha ao telefone, diz para ela ter um bom dia e que vai estar em casa logo.
Chego ao trabalho. Luvas colocadas, óculos de proteção no rosto, olhos pesados ainda tentando se acostumar com a luz do sol. Pego, ajusto, empurro. Outro. Igual. Mais um. O movimento se repete sem erro. As mãos vão antes, o resto só acompanha. Às vezes, olho para o lado e vejo todo mundo no mesmo ritmo. As vozes se misturam com o som da esteira. Um fala do filho, outro do lugar que queria conhecer, um diz no que gastaria se ganhasse na Mega-Sena, alguém ri alto de alguma coisa que eu não escuto direito.
A mais velha, dona Ozira, de 78 anos, me puxa para conversar. Ela pergunta quando vou arrumar uma namorada. Digo que não estou interessado nisso. Mentira. Na verdade, não sei direito o motivo. Poderia dizer que estou cansado demais para isso, mas a Camila, do escritório, vive cansada e tem namorado. Dona Ozira ri, diz que ainda dá tempo. Pego, ajusto, empurro. Outro. Igual. Mais um. A voz dela some no barulho do trabalho.
No almoço, sento com os outros sem pensar muito. A comida já está no prato antes de eu perceber o que peguei, e mastigo sem prestar atenção ao gosto. Alguém fala sobre o trabalho enquanto outro responde entre garfadas. Olho para o celular algumas vezes, mas nada fixa. Sinto como se o tempo andasse mais devagar, como se fosse só um intervalo que não para de acontecer. Termino sem lembrar quando comecei. Levanto junto com os outros.
Depois de um tempo, o braço começa a pesar. O movimento continua igual, só um pouco mais lento. Pego, ajusto, empurro. O som das vozes é intercalado por momentos de silêncio, cada um preso no próprio mundo. Troco o peso de um pé para o outro, mas não resolve. Outro. Igual. Mais um. Reciclagem de plásticos, papéis, latas. A mão segura mais forte sem necessidade. O ombro sobe e desce em um intervalo que eu já não acompanho. Um saco mais pesado bate com mais força que os outros e, depois, tudo volta ao normal. Pego, ajusto, empurro. Outro. Igual. Mais um.
A tarde cai. Do lado de fora, as sombras começam a se formar com a chegada da noite. Do lado de dentro, a esteira desacelera e o volume diminui. O sinal bate, alguém tira as luvas, outro ajeita os óculos no rosto, sem pressa agora. Tiro as luvas também e respiro fundo. Guardo tudo, bato o ponto e saio com os outros. Dona Ozira me deseja um bom descanso e pergunta o que vou fazer no fim de semana. Dou de ombros enquanto ajeito a mochila.
“Descansar”.
Já com o celular na mão, deslizo o dedo pela tela enquanto caminho. Sigo andando sem tirar os olhos. Chego ao ponto quase sem perceber. O ônibus vem alguns minutos depois. Subo, mostro o cartão e passo pela catraca. Fico de pé. Quase nunca tem lugar. Seguro na barra enquanto o ônibus arranca. O celular continua na mão, a tela mudando sozinha entre um movimento e outro.
Pela janela, a cidade passa sem se fixar. Luzes em lojas, gente entrando e saindo, alguém atravessando a rua. As imagens não chegam a completar forma antes de sumirem. Dentro do ônibus, vozes baixas se misturam ao motor. Duas mulheres conversam sobre o trabalho. O mesmo homem de antes, agora suado e sujo, fala ao celular. Diz para a filha que já está chegando. Ele repete a frase, uma vez mais alto, depois volta ao mesmo tom e termina com uma risada. Eu sorrio também. O vidro vibra com o movimento e tudo parece um pouco fora de lugar, mas segue.
Desço no meu ponto e faço o caminho de sempre. A chave já está na mão antes de eu chegar à porta. Entro, tiro os sapatos e deixo a mochila no mesmo lugar. A casa está silenciosa. Vou até a cozinha, abro a geladeira, olho sem procurar nada específico. Fecho. Pego o celular de novo e ligo a TV. Sento no sofá ainda de uniforme, cansado demais para pensar em tirar.
“Descansar”.
A palavra fica.
Fico olhando para a tela.
Não levanto.
O celular acende sozinho com notificações que não abro. A TV continua passando alguma coisa sem que eu acompanhe. O corpo afunda um pouco mais no sofá, mas não muda de posição. O som da casa preenche tudo sem se fixar em nada. Fico olhando. Não levanto.
Outro. Igual. Mais um.




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