top of page

Duvidar de Messi é um erro

Na estreia da Argentina na Copa, a espera por Lionel Messi se torna rito de fé, bar e futebol


Torcedores argentinos acompanham Messi em Kansas City, na estreia contra a Argélia pela Copa do Mundo | Crédito da foto: FIFA
Torcedores argentinos acompanham Messi em Kansas City, na estreia contra a Argélia pela Copa do Mundo | Crédito da foto: FIFA

Por Lucas Mendes | Agência Abre Aspas


Os segundos de 16 de junho passavam como uma torneira pingando na cozinha durante a madrugada. Eu sentia cada giro do ponteiro como quem acompanha uma vela queimando devagar diante de um altar improvisado. Às 22 horas, pelo grupo J da Copa do Mundo, a Argentina estrearia. E, com ela, voltaria ao campo o Messias de um povo que já tinha feito de Maradona seu próprio D10S.


Não sei se Lionel Messi é Deus, heresia que deixo para os teólogos, os argentinos e os narradores decidirem. Sei apenas que poucas frases saíram tantas vezes da minha boca quanto “meu Deus”, sempre que ele recebia a bola, levantava a cabeça e fazia o futebol parecer uma ciência secreta ensinada apenas a ele.


A ansiedade tinha motivo. Embora pareça divino quando joga, Messi não é eterno. Eu sabia disso, ou fingia saber, porque aceitar o fim de certos jogadores é quase uma forma de luto antecipado. Antes de a bola rolar, eu tentava convencer a mim mesmo de que aquela poderia ser só mais uma partida. Não era. Com Messi, quase nunca é.


Depois de uma peregrinação pelas horas daquela terça-feira, o jogo começou no Arrowhead Stadium, em Kansas City. O estádio podia até carregar aquela estética grandiosa e cafona dos palcos americanos, mas nada disso importava diante dos devotos vestidos de azul e branco. Em volta do campo, a arquibancada parecia uma paróquia em dia de festa.


Não sei até que ponto aqueles torcedores pensavam como eu. Talvez alguns se perguntassem se ele ainda conseguiria jogar como antes, se o corpo de 38 anos suportaria outro palco do tamanho da Copa, se a última dança já tinha passado. Eu também duvidei. E é justamente por isso que esta crônica existe: porque duvidar de Messi, dentro de um campo de futebol, continua sendo uma forma de pecado.


Aos 4 minutos, ele marcou. Impedido. O lance foi anulado, e eu interpretei aquilo como um teste de fé. Falhei quase imediatamente. Achei que aquela chance perdida talvez fosse a única. Olhei para o copo, para a televisão, para o outro fiel ao meu lado, e tive a sensação de que o milagre havia passado raspando pela trave da história.


Mas Messi não costuma avisar quando vai contrariar a lógica. Aos 16 minutos, participou três vezes do mesmo lance. Recuou para armar, apareceu no meio para tabelar e chegou ao ataque para cortar para a esquerda, a perna mais iluminada que o futebol já viu, antes de mandar a bola no ângulo. A jogada inteira parecia feita para lembrar aos incrédulos que onipresença, no futebol, é estar onde a Argentina precisa antes mesmo de a Argentina saber que precisa.


No bar, nossa pequena paróquia, eu e outro fiel comemoramos com a devoção possível depois de uma cerveja e meia. O narrador gritou em tom de coral. Eu, por dentro, pedi perdão por ter desconfiado. Há gols que não servem apenas para abrir o placar. Alguns reorganizam a fé de quem assiste.


O tempo seguiu, e Messi continuou construindo o jogo como um carpinteiro paciente. Aos 14 minutos do segundo tempo, o goleiro adversário, talvez cego pela luz que vinha em sua direção, deu o rebote no pé errado, ou no pé certo, dependendo da religião de quem vê. Messi tirou o peso da bola com o pé direito, o mesmo pé que já ousaram chamar de comum, e fez o segundo. Argentina 2 a 0. Messi 2 a 0. A dúvida começava a pedir desculpas.


A graça atingia o bar, o estádio e qualquer pessoa que ainda tentasse assistir com frieza. A arquibancada balançava os braços e repetia seu nome, “Messi, Messi, Messi”, como se chamasse por alguém que já estava ali e, mesmo assim, precisava ser invocado.

Dois gols e uma atuação de gala já pareciam suficientes para fortalecer qualquer crença. Mas ele ainda não tinha terminado.

Aos 30 minutos da etapa final, veio o terceiro. Daqueles que já vimos tantas vezes e que, justamente por isso, continuam absurdos. Corte para a esquerda, chute no canto, goleiro vencido, história atualizada. Um hat-trick em estreia de Copa, aos 38 anos, jogando como se o tempo tivesse aceitado negociar com ele. Naquele instante, Messi parecia dizer que, no futebol, ele ainda era o caminho, a verdade e a vida.


Já nem lembro como estávamos no bar. As cervejas, o narrador, os torcedores, meu amigo, eu. Tudo parecia suspenso. Messi havia nos arrebatado para esse céu breve que só existe durante uma partida, quando o resto do mundo deixa de ter importância e a vida cabe inteira no trajeto de uma bola até a rede.


Poucos minutos depois, Lionel Scaloni decidiu substituí-lo. Normalmente, uma partida dura 90 minutos. Aquela, para mim, terminou quando Messi saiu aplaudido pela lateral do campo. O que precisava ser visto já tinha acontecido. O restante era apenas protocolo para a súmula.


Enquanto eu também aplaudia, lembrei de Nelson Rodrigues, outro devoto do jogo, quando dizia que “o tempo é uma convenção que não existe nem para o craque, nem para a mulher bonita”. Talvez seja isso. O relógio até insiste em passar, o corpo até cobra sua conta, a Copa até avança para outros jogos. Mas há jogadores que, por alguns minutos, fazem o tempo perder a autoridade. Messi é um deles.

Por isso, toda vez que alguém perguntar se ainda vale a pena acreditar, a resposta continuará simples: duvidar de Messi é um erro.



Comentários


  • Instagram
  • TikTok

Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

©2025 - Agência Abre Aspas - Todos os Direitos Reservados

bottom of page