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Dos treinos no asfalto da madrugada para multicampeão e mentor

Além das técnicas de luta e da liderança da seleção paranaense de Sanda, conheça Wagner Ortiz, referência de luta no oeste do estado


Em meio a ossos e quebrados e mais de cinquenta lutas, mestre inspira seus alunos dentro e fora dos tatames | Crédito da foto: Eduardo Tomé
Em meio a ossos e quebrados e mais de cinquenta lutas, mestre inspira seus alunos dentro e fora dos tatames | Crédito da foto: Eduardo Tomé

Por Eduardo Tomé | Agência Abre Aspas


Antes do primeiro grito de comando e do primeiro soco desferido, existe um ritual. Com os aromas de três bastões de incenso e a saudação para os grandes mestres: Kwan Kun, grão mestre das artes marciais; Lee Koon Hung, grão-mestre do estilo; e Chan Heung o fundador. 


"Na reverência com o incenso, eu faço um pensamento. Peço que a harmonia da aula flua", conta o mestre de artes marciais Wagner Ortiz, enquanto orienta seus alunos para reverenciar os mestres ainda vivos, Li Siu Hung, mestre Cezar Augusto Laurenti e a mestra Karina Miyazato. 


Todos são posicionados para onde nasce o sol, que, “segundo a tradição chinesa”, emana a sabedoria.


QUATRO DA MANHÃ


A jornada de Wagner com as artes marciais não iniciou em tatames acolchoados ou academias climatizadas. Começou aos 12 anos de idade motivado pela animação de Bruce, um mestre que veio de São Paulo. "Ele não tinha escola, trabalhava em uma empresa durante o dia. Então, ele juntou a molecada da rua e perguntou: 'quem quer aprender Kung Fu?'".


O despertador tocava às 4h e o grupo se reunia na neblina e no asfalto frio, onde treinava até às 6h, momento que o mestre partia para o emprego. Foram dois anos de treino ao amanhecer, até que o professor precisou voltar para São Paulo, deixando a Wagner  um legado: a persistência.


Mas a saída do professor não encerrou  a jornada de Wagner. Anos mais tarde, encontrou por acaso uma academia de Kung Fu, e a identificação foi imediata. Dois meses depois, conheceu a vertente de luta do Kung Fu, o Sanda. Foi no boxe chinês que encontrou seu propósito e sua vocação.


MULTICAMPEÃO


O caminho para se tornar referência no Sanda não foi nada fácil. Wagner passou por diferentes categorias, do iniciante, usando caneleiras e capacetes com grades, até chegar ao profissional. “Sem colete, sem nada, sem camisa, inclusive, só calção mesmo, era professor contra professor, e ali o ‘chicote estalava’”.


No início, Wagner participou de campeonatos com lutas casadas, em que os oponentes eram escolhidos com base no peso e na experiência. O vencedor levava um prêmio em dinheiro. “Era pouca coisa na época, dependia de onde ia lutar, então não pagava o suficiente para cobrir os gastos”.


Com mais de cinquenta lutas e apenas uma derrota na carreira, segundo ele, Wagner não é do tipo que faz alarde sobre suas conquistas, mas nos conta algumas de suas lutas que mais o marcaram.Wagner descreve sua única derrota na carreira. Segundo ele, foi prejudicado pela  arbitragem, como uma “guerra”. Seu oponente, um lutador de Muay Thai, teve as costelas quebradas no primeiro golpe de Wagner. "Ouvi o estalo da costela quebrando, o oponente bateu no córner e agachou com a mão no peito. Eu fui para cima mas vi que ele não tinha mais reação e parei". 


O que era para ser uma vitória por nocaute se transformou em uma reviravolta quando o juiz não abriu a contagem e deu ao adversário uma nova oportunidade. No segundo round, a trama mudou de lado: Wagner recebeu um chute no rosto que descreve como um “nocaute em pé”. “Eu estava desmaiado, mas não caí. Não enxergava nada, só ouvia o som da luta e sentia a pressão. Aguentei até a visão voltar”. A luta continuou até o quinto round e, após o sino final, os juízes anunciaram o vencedor. Para a surpresa dos presentes, a vitória foi dada ao oponente por pontos.


Outra luta memorável foi com um oponente do Paraná Vale Tudo (PRVT). Wagner conta que era um especialista em Boxe, Jiu-Jitsu, Muay Thai e lutador de MMA com uma envergadura consideravelmente maior que a sua.


Após muito treino, chegou o dia da luta. Máquina de fumaça, narração, música. Estava tudo pronto para o espetáculo. “No soco, em uma luta direta, teria problemas”, diz Wagner ao descrever o que pensou no início do confronto. E assim, com menos de um minuto de luta, veio o nocaute. Wagner acertou um chute no braço do adversário, quebrando-o em três partes.


Em Campo Mourão, Wagner foi escalado como o "azarão" da noite para enfrentar um adversário que descreve carinhosamente como "monstrinho" pela força bruta. A luta foi uma guerra de três rounds, disputada palmo a palmo, que terminou com a vitória de Wagner.


A derrota não foi bem aceita pela equipe local, já que Wagner era considerado o azarão. Ele passou dois anos sem receber convites. No terceiro ano, a organização decidiu promover uma revanche na luta principal da noite. Wagner voltou. Venceu de forma mais dominante do que na primeira vez e saiu de lá com dois prêmios: a taça de “Melhor Luta da Noite” e o título de “Lutador Destaque”. Wagner conta, entre risos, que não houve mais convite.


POR TRÁS DAS LUTAS


Um dos pilares da vida de Wagner também surgiu no tatame. Foi ali que encontrou sua companheira, que o acompanhou nos momentos difíceis e na transição de academia. Priscila Domit Zaniolo, esposa de Wagner e sua aluna por muitos anos, conta um pouco sobre a história dos dois. Ela diz que treinavam juntos até um momento de afastamento por problemas pessoais do atleta. O filho de Wagner passou a treiná-la e, mais tarde, como um destino entrelaçado, ela e Wagner se encontraram novamente quando ele reassumiu os treinos. “A gente ficou um tempo sem se ver, quando ele voltou a me dar aula, nós começamos a namorar e casamos”. Desde então, estão juntos há seis anos.


Há cinco anos, Wagner resolveu se desvincular da antiga instituição e abrir sua própria academia, a Master Kung Fu Sanda. Priscila lembra desse período com uma palavra curta e expressiva: “punk”. “Foi um momento tenso. Não é fácil encarar a abertura de um empreendimento, especialmente algo que exige tanta dedicação e que carrega o nome e a reputação de alguém”. Ela finaliza contando o quanto se emociona ao ver a evolução do marido. “É extremamente gratificante ver o respeito que os alunos têm por ele. Ver o Wagner como mestre, acompanhando cada evolução, faz todo o esforço valer a pena”.


LEGADO EM CONSTRUÇÃO


Um dos legados marcados por Wagner é Susana Alves, aluna que treina há três anos com ele. Nascida em Tapejara, no interior paranaense, Susana mudou-se para Cascavel e procurou uma academia apenas para manter sua rotina de treinos de Muay Thai e Kickboxing. Ao entrar na academia de Wagner, percebeu que era ali que pertencia.A maior lição que Susana aprendeu com o mentor, contudo, não foi desferir uma queda perfeita ou manter a guarda alta, mas acreditar em si mesma. Com problemas de autoestima, ela afirma que o mestre a incentiva a depositar confiança em si nos momentos de luta. Para Susana, Wagner preencheu um vazio de autoconfiança, tornando-se um porto seguro dentro e fora dos tatames.

 

Hoje, já multicampeão e técnico do time paranaense de Sanda, Wagner encerra o dia, quando as luzes se apagam, com mais três incensos acesos, agradecendo por mais uma aula bem-sucedida. Depois, relembra as sete virtudes penduradas na academia junto aos mestres, ao lado do sol nascente.

 

Fé, força de vontade, disciplina, humildade, honra, paciência e sabedoria. Cada virtude é ensinada por ele, pois, para Wagner, Kung Fu e Sanda vão além da luta e da autodefesa; são formas de moldar pessoas e caráter. “A arte marcial é disciplina. Esse respeito deve haver lá fora, na escola, para o professor, para o pai e para a mãe. Praticando essas virtudes, despertamos o dragão interior”, afirma.



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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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