Cascavel: escolinhas de futebol buscam formar mais do que atletas
- Alexandre Amorim

- há 2 dias
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Treinadores associam o trabalho em campo à disciplina, à convivência e ao compromisso com a escola

Por Alexandre Amorim de Souza | Agência Abre Aspas
No campo, o treino começa antes de a bola rolar. Cones são alinhados, coletes separados e os alunos chegam aos poucos, entre corridas, brincadeiras e orientações. Em Cascavel, escolinhas de futebol, como a do Grêmio São Cristóvão, tentam ensinar mais do que passe e finalização: trabalham disciplina, convivência e compromisso com a escola.
Nas escolinhas, o trabalho vai além do treino técnico. Professores cobram pontualidade, acompanham o comportamento dos alunos, conversam com as famílias e tentam fazer do futebol um espaço de disciplina e respeito. “Desenvolvemos um projeto em que o atleta bom é o aluno bom na escola. Busco acompanhar notas e presença e, quando há algum desequilíbrio, chamamos o aluno para entender o que podemos fazer para melhorar”, destaca o professor José Carlos Pinto, treinador do Grêmio São Cristóvão.
De acordo com dados levantados pela Revista Quero entre 2018 e 2019, com base em informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), apenas 1,4% dos jogadores de 18 anos ou mais declararam cursar alguma faculdade. Dos 3.329 atletas ouvidos, apenas 20 estavam inscritos com ensino superior completo.
O cenário, porém, é diferente quando se observa o ensino médio. Dos atletas contratados, 83,3% declararam ter concluído a educação básica. Tendo em vista que a maioria dos alunos que passa por escolinhas e bases de formação não chega ao futebol profissional, os dados reforçam a importância da escolarização.
O TRABALHO ANTES DO APITO
O trabalho dos treinadores começa antes da chegada dos alunos. É preciso separar materiais, organizar o treino, definir os exercícios e pensar em como cada grupo será conduzido. Depois da atividade, ainda há conversa com pais, orientação aos alunos e arrumação do campo. “Os treinos iniciam antes mesmo de estarmos dentro do gramado. Precisamos preparar os materiais, o planejamento diário e organizar os exercícios. Depois do primeiro apito, começam as orientações, a atenção e o cuidado. Ao final, ainda conversamos com pais e alunos e organizamos tudo novamente”, explica José Carlos Pinto.
Essa dinâmica mostra uma dimensão pouco visível do futebol de base. Mais do que ensinar fundamentos técnicos, os professores atuam como formadores. Ariel Cenci, ex-atleta e estudante do curso de Educação Física no Centro FAG, comenta sua experiência como aluno e o impacto em seu crescimento. “As escolinhas de futebol foram minha fonte principal de formação, do que tive sobre cidadania, interação, respeito e trabalho em equipe. A escolinha de futebol me ajudou muito, porque, como participei disso a minha vida toda, acho que o esporte traz um pouco de proximidade para a pessoa, por ser algo de que você gosta”.
Ariel também destacou que a prática vai além do futebol e contribui para aprendizados sobre convivência, respeito e trabalho em equipe. “Eu acho que você entende muito mais coisa do que o futebol. Eu entendo que tenho que jogar, que tenho que brincar, mas também entendo que tenho que passar a bola para o meu amigo, por exemplo. Para eu ganhar um jogo, preciso do meu time e preciso respeitar o meu professor”.
José Carlos também relata que a escolinha recebe alunos com perfis diferentes, inclusive crianças autistas e com acompanhamentos relacionados ao Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e ao Transtorno Opositivo Desafiador (TOD). Segundo ele, isso exige adaptação dos exercícios, paciência e atenção ao ritmo de cada aluno.
Além da técnica, valores são parte essencial do processo. Tatiana Aparecida, neuropsicopedagoga e mãe de um ex-aluno com passagens por diversas escolinhas em Cascavel, afirma que o desenvolvimento do filho ocorreu de maneira muito importante nos treinos. “Meu filho era uma criança bem rebelde, muito briguenta, não aceitava perder, ficava agressivo, irritado. Com as aulas na escolinha, ele passou a compreender que às vezes ganhava e às vezes perdia. Aprendeu a cumprir regras... O esporte foi fundamental no desenvolvimento das características dele”.
O sonho de virar jogador profissional ainda move parte dos alunos, mas a realidade do futebol brasileiro está longe dos contratos milionários que costumam ganhar mais visibilidade. Levantamentos sobre o mercado mostram que a profissionalização atinge poucos e que grande parte dos jogadores recebe salários baixos. De acordo com um relatório da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), publicado em 2016, 23.238 atletas profissionais recebiam R$ 1.000,00 mensais em seus clubes. Esse número representa 82,40% dos jogadores cadastrados no sistema da federação.
Nesse cenário, as escolinhas assumem um papel ainda mais importante. Ao priorizarem a educação, os treinadores ajudam a equilibrar expectativa e realidade. “É fundamental que eles entendam que o futebol não pode ficar acima dos estudos. A educação é base para qualquer caminho que eles escolham”, reforça José.
DENTRO DOS TREINAMENTOS
Nos grupos mais novos, o treino passa por coordenação, condução de bola e exercícios de noção corporal. Entre os mais velhos, entram orientações mais complexas, como posicionamento, leitura de jogo e intensidade física.
José resume a metodologia em três etapas: observar, avaliar e corrigir. Primeiro, a equipe acompanha como cada aluno responde ao treino. Depois, identifica o que precisa ser ajustado. Só então define mudanças na atividade. Ariel, por sua vez, diz se sentir feliz com o desenvolvimento da interação das crianças. Afirma que várias chegam aos treinos menos pelo interesse de praticar o esporte e mais para se divertir, comemorar e, por consequência, entender regras e melhorar a convivência.
Os exercícios incluem aquecimento, treinos de velocidade, jogos em espaço reduzido e simulações de situações reais de jogo, práticas que contribuem tanto para o desenvolvimento físico quanto cognitivo. Além disso, há uma preocupação com hábitos fora de campo, como alimentação, sono e saúde física. O esporte, nesse sentido, faz parte de uma rotina equilibrada.
Enquanto profissional, Tatiana Aparecida diz: “Acredito que o esporte, como um todo, é de grande importância para o desenvolvimento emocional e físico da criança. Além de ensinar regras, comportamento... toda essa questão neurológica, ele também é muito bom para a saúde, coordenação motora, lateralidade, trabalho em grupo...”.
Ariel, como futuro atuante na área esportiva, comentou sobre o desinteresse que muitas crianças têm, na atualidade, em praticar esportes: “Às vezes, a gente tem que ir além de formar essa criança, ensinar ela. A gente tem que colocar nela o motivo de estar ali. Tem que mostrar para ela que é legal praticar uma atividade física, que é legal jogar futebol, que é legal praticar outro esporte. Eu vejo que isso vai ser cada vez mais comum: as crianças não estarem ali porque querem, mas porque os pais sentem que elas precisam estar ali”.
Para muitos jovens, o treino também representa pertencimento. É nesse ambiente que surgem amizades, experiências compartilhadas e a construção de identidade. “Saber que estou ali por um objetivo e ver, no olhar das crianças, que elas querem estar ali é a parte mais gratificante”, completa José.
No fim do treino, a bola para, mas a conversa continua. Pais se aproximam, alunos escutam as últimas orientações e o campo vai esvaziando devagar. Para quem acompanha a rotina dessas escolinhas, o resultado não se mede só em drible ou finalização. Está também no comportamento que cada criança leva para fora do gramado.




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