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De Cianorte ao topo do mundo, Luana Rodrigues encontra no futsal um caminho de volta para casa

Campeã da primeira Copa do Mundo feminina de futsal pela Seleção Brasileira, atleta do Stein Cascavel transformou incertezas, lesões e ausência de apoio em permanência no esporte


Luana Rodrigues celebra o título mundial com a Seleção Brasileira de futsal feminino | Crédito da foto: FIFA
Luana Rodrigues celebra o título mundial com a Seleção Brasileira de futsal feminino | Crédito da foto: FIFA

Por Mateus Dias | Agência Abre Aspas


Quando Luana Rodrigues pensa na Copa do Mundo que acabou de conquistar, a primeira imagem não é apenas a taça. É o futuro. “Lá na frente a gente vai olhar para trás e nosso nome vai estar lá, entre as primeiras campeãs do mundo”. A frase, dita por ela, ajuda a medir o tamanho da conquista. Luana não entrou apenas para uma lista de campeãs. Entrou para a primeira página de uma história que o futsal feminino esperou tempo demais para escrever.


A menina criada em Cianorte, no noroeste do Paraná, não cresceu cercada por referências do futsal feminino. Brincava descalça nos campinhos do bairro, jogava bola com os meninos e aproveitava a rua como quem ainda não sabia que aquela diversão poderia se transformar em profissão. “Eu fui uma criança que aproveitei bem a minha infância”, lembra.


Em casa, morava com a avó e a mãe. O essencial não faltava, mas o esporte ainda parecia distante de qualquer projeto de futuro. Enquanto alguns meninos se espelhavam em Ronaldinho, Ronaldo, Rivaldo ou Kaká, e enquanto nomes como Marta, Formiga e Cristiane começavam a abrir espaço para meninas no futebol, Luana ainda não via esse caminho como possibilidade concreta. Muitas dessas referências chegaram a ela de modo indireto, em conversas de amigos que jogavam FIFA no PlayStation.


A mudança começou na escola, quando o professor de educação física Vanderley a apresentou ao futsal. Depois vieram as escolinhas do Café Futsal e da Rainha da Paz, espaços em que conheceu Cleverson Santana e Lazara Calixto. Eles passaram a enxergar futuro onde a própria Luana ainda via dúvida.


A FAMÍLIA ENTRE O MEDO E O ORGULHO


Naquela época, a insistência deles era quase a única certeza que a jogadora tinha. A família não rejeitava exatamente o futsal, mas também não conseguia compreender o que aquele esporte poderia oferecer. O pai era distante. A avó, mesmo amorosa, temia que os treinos tirassem Luana de responsabilidades da casa e não trouxessem retorno.

“Ela dizia: ‘você não vai fazer isso porque você tem que ajudar em casa, você tem que fortalecer a gente aqui e isso não vai te dar retorno nenhum’”, recorda.

Aos 15 anos, Luana entrou na base do Cianorte. Aos 16, quando a base foi extinta, subiu para o time adulto. O que poderia parecer uma ascensão simples veio junto com insegurança. “Eu estava ali, mas não estava. Eu não sabia se era isso que eu queria mesmo”, admite. Sem apoio familiar consolidado, a permanência no esporte dependeu muito das pessoas que insistiram em seu talento. “Se não fosse pelo Cleverson, pela Lazara, pelo pessoal ali, eu acho que teria acabado ali a carreira de jogadora”.


O apoio da família se tornou parte da força de Luana na carreira | Crédito da foto: Cianorte Futsal Feminino
O apoio da família se tornou parte da força de Luana na carreira | Crédito da foto: Cianorte Futsal Feminino

A relação da família com o futsal mudou aos poucos. A bolsa de faculdade em Educação Física, o primeiro dinheiro recebido pelo esporte, a possibilidade de ajudar em casa, as viagens de avião e a imagem da neta com uniforme da Seleção foram reorganizando o olhar de quem antes tinha medo. “A partir dessas coisas que o esporte foi me dando, acho que foi caindo a ficha delas”, diz Luana.


Hoje, aquela avó que questionava treinos também sente orgulho. Talvez não dimensione tudo o que a neta conquistou, mas compreende o suficiente para apoiar. Para Luana, isso vale muito. “O fato de ela me apoiar e sentir orgulho é importante demais para mim”.

A família ainda mora no noroeste do Paraná. A distância pesa, principalmente porque a mãe visitou Cascavel poucas vezes desde que Luana se mudou. Quando se encontram, porém, o tempo ganha outro ritmo. Nas férias, a jogadora tenta guardar o celular, deixar o futsal um pouco de lado e viver a casa. “O dinheiro a gente recupera, mas prefiro aproveitar, porque é pouco tempo. Pelo tanto que a gente fica longe, é difícil”.


Entre as conquistas fora da quadra, uma tem peso de infância: reformar a casa da avó. O sonho antigo, guardado desde menina, começou a sair do papel graças ao esporte. “Desde menorzinha eu pensava que talvez o esporte poderia me ajudar a realizar esse meu sonho pessoal. E agora a gente está conseguindo. Me sinto muito realizada de poder ajudar elas”.


QUANDO A DÚVIDA COMEÇOU A PERDER ESPAÇO


Durante anos, Luana treinou sem ter certeza de onde poderia chegar. Faltavam referências, visibilidade e a sensação de que o futsal feminino poderia sustentar uma carreira. Essa percepção começou a mudar em 2016, na final do Campeonato Paranaense. O gol do título, marcado quando faltavam 16 segundos para o fim, deu a ela uma resposta que vinha sendo procurada havia tempo.

A partir de 2017, a dúvida cedeu lugar à decisão. “Eu vi que era isso que eu queria mesmo. Com apoio ou sem apoio, eu ia correr atrás dos meus sonhos”. Depois do primeiro título estadual, vieram outras conquistas no cenário nacional e continental. A carreira passou a apontar para cima, até o corpo cobrar sua parte.


QUANDO O CORPO NÃO ACOMPANHOU A VONTADE


Em 2023, pouco depois de chegar ao Stein Cascavel, Luana sofreu um dos momentos mais difíceis da carreira. Recém-contratada por um clube com estrutura maior e trabalho técnico diferente, descobriu lesões de menisco nos dois joelhos e precisou passar por cirurgia. O período colocou à prova não apenas a atleta, mas a mulher que tentava confirmar seu lugar no novo clube.


O retorno ganhou uma cena de desabafo na final da Supercopa, torneio classificatório para a Libertadores. No Ginásio da Neva, o Stein perdia por 3 a 0, buscou a virada e o quarto gol saiu dos pés de Luana. Depois do lance, ela caiu na quadra. O choro não era de dor. Era alívio. “Eu só caio ali, desabo. Depois a Lívia já vem me abraçando, a Camila também. Eu só agradeço a Deus. Juntou tudo o que eu tinha passado”.


A recuperação seguiu com infiltrações, jogos no sacrifício e a reconstrução da confiança. Aos poucos, Luana voltou a se sentir inteira. A resposta viria em 2025, quando seu nome apareceu na convocação para a primeira Copa do Mundo feminina de futsal organizada pela FIFA.

A PRIMEIRA ESTRELA


Mesmo vivendo bom momento, Luana não se colocava como nome certo na lista. Ela sabia que concorria com atletas de muita história na Seleção, como Amandinha, Camila e Tampa. Entre as companheiras do Stein, chegou a montar uma possível convocação sem incluir o próprio nome. “Eu não botei meu nome na minha lista”, confessa.


Quando a convocação saiu, ela estava em Telêmaco Borba, antes de uma partida do Campeonato Paranaense. O time acompanhou tudo junto. A comemoração veio em grupo, como se a conquista também pertencesse ao caminho coletivo que a havia levado até ali. “Todo mundo do time viu comigo. A Bianca chorou. A gente fez uma festa ali. Foi legal demais ver meu nome”.


Depois vieram as viagens para a Tailândia e as Filipinas, países que ela nunca imaginou conhecer por causa do futsal. Vieram também os ginásios com brasileiros, bandeiras, batuque e a sensação de que aquela Seleção carregava um sonho antigo de muitas mulheres que não tiveram a mesma oportunidade. “A conversa era: ‘estamos aqui e vamos buscar essa primeira estrela’. Muitas lá atrás queriam viver esse momento, e a gente estava tendo esse privilégio”.


O título confirmou a Seleção Brasileira como primeira campeã da Copa do Mundo feminina de futsal da FIFA. Para Luana, ainda é difícil organizar o que sentiu. “Quem diria que eu estaria lá, a primeira estrela. Aconteceu, é nosso. É uma loucura de sentimentos”.


A VIDA QUE O ESPORTE CONSTRUIU


Fora das quadras, Luana ainda aprende a se enxergar para além da atleta. Quando perguntam quem ela é longe do futsal, hesita. “Eu não vejo uma pessoa além disso”. Ao mesmo tempo, a vida tem outros centros. Há cinco anos, divide a caminhada com a companheira Daiane. As duas preferem uma relação discreta, longe da exposição constante das redes.


Formada em Educação Física pela Unipar, Luana sabe que o esporte lhe deu mais do que títulos. Deu estudo, viagens, sustento, possibilidade de ajudar a família e acesso a lugares que a menina de Cianorte não imaginava ocupar. “O esporte me deu tudo. Viajei de avião, conheci lugares, consegui ajudar minha família, fazer uma graduação. Se não fosse o esporte, será que eu conseguiria viver essas coisas?”


A resposta talvez esteja na própria trajetória. A menina que quase não tinha referências femininas no futsal agora se tornou referência para outras meninas. A atleta que quase parou aos 16 anos hoje carrega no currículo a primeira estrela mundial da modalidade. A filha e neta que um dia precisou provar que o esporte poderia ser futuro agora ajuda a reconstruir a casa da família.

Luana ainda fala sobre tudo isso como quem está tentando entender o tamanho do que viveu. “É uma chavinha que não caiu totalmente, mas eu fico muito feliz”. Talvez demore mesmo. Há conquistas que só cabem por inteiro quando o tempo passa. Por enquanto, ela segue jogando, ajudando em casa e abrindo caminho para que outras meninas não precisem descobrir o futsal tão sozinhas quanto ela descobriu.



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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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