top of page

Cuidado além da escovação: os desafios da saúde bucal em crianças com deficiência

Em crianças com necessidades especiais, os cuidados com a saúde bucal exigem atenção, preparo e acompanhamento contínuo


Consultas odontológicas podem ser mais desafiadoras para crianças atípicas pela sensibilidade e adaptação. “O primeiro passo é uma boa recepção e uma conversa com os responsáveis da criança’’, destaca o dentista Adriano Tomio Hoshi | Crédito da foto: Arquivo Pessoal
Consultas odontológicas podem ser mais desafiadoras para crianças atípicas pela sensibilidade e adaptação. “O primeiro passo é uma boa recepção e uma conversa com os responsáveis da criança’’, destaca o dentista Adriano Tomio Hoshi | Crédito da foto: Arquivo Pessoal

A saúde bucal na infância exige atenção da família e, quando se trata de crianças com necessidades especiais, o acompanhamento precisa ser individualizado. Muitas famílias enfrentam dificuldades no dia a dia e, na hora da escovação, elas ficam ainda mais presentes: uma rotina comum para muitos pode se transformar em um desafio. O medo, a resistência ao toque ou até a falta de informação dos pais podem comprometer a higiene oral. Entender esses obstáculos é necessário para garantir qualidade de vida.


O dentista Adriano Tomio Hoshi, formado pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), em Cascavel, relata situações presentes em sua prática profissional. Entre elas, destaca a falta de conhecimento dos pais sobre a saúde bucal infantil e a importância do acompanhamento nos primeiros anos de vida. Ensinar a forma correta de escovação é uma etapa importante para evitar problemas no desenvolvimento da criança.


Muitas crianças não gostam de escovar os dentes e acabam resistindo a esse momento, seja por preguiça, incômodo ou medo. Isso já é uma dificuldade no cotidiano dos pais e, quando se trata de uma criança com necessidades especiais, pode exigir ainda mais atenção. Algumas têm maior sensibilidade, não gostam do toque ou não compreendem exatamente o que está acontecendo. Por isso, a escovação precisa de paciência, presença dos responsáveis e adaptação para se tornar um hábito aos poucos.


QUANDO A CRIANÇA SE TORNA PACIENTE


No consultório odontológico, o conforto e a acessibilidade fazem diferença. Para isso, há rampas, elevadores e salas equipadas com macas para pacientes cadeirantes, além de espaços com colchões nas cadeiras, que tornam o atendimento mais adequado.

Adriano Hoshi, que está há mais de 20 anos na área, explica que, quando a criança não tem autonomia para realizar a higiene bucal sozinha, a participação da família passa a fazer parte do tratamento. Segundo ele, os responsáveis precisam ser orientados pelo dentista para saber como auxiliar na escovação, quais práticas devem manter em casa e com que frequência a criança deve retornar ao consultório.

“Quando o paciente tem algum grau de dependência, o cuidado não termina na consulta. A família precisa participar, aprender a forma correta de higienizar, entender quais recursos podem ajudar e manter o acompanhamento regular. Em alguns casos, é necessário adaptar a escova, orientar o uso de abridores bucais ou indicar produtos mais adequados para aquela criança. Tudo depende da avaliação individual”, destaca o dentista.

Também é preciso considerar as reações emocionais. Uma delas é o medo, principalmente, diante de um ambiente novo, de uma pessoa desconhecida e de interações às quais a criança não está acostumada. Para reduzir o estresse, Hoshi realiza procedimentos mais simples até que o paciente conheça melhor os instrumentos, fazendo com que a insegurança diminua aos poucos. O dentista explica que essa aproximação começa com uma avaliação inicial. “O primeiro passo é uma boa recepção e uma conversa com os responsáveis pela criança”.

“Algumas das principais estratégias para manter as crianças calmas na hora do atendimento são explicar o que será feito, mostrar os equipamentos, elogiar, sorrir, usar técnicas de distração, como cantar uma música, contar uma história, conversar com o paciente e orientar técnicas de respiração”, comenta Adriano Hoshi.

O próximo passo, segundo o profissional, é apresentar o consultório odontológico: cadeira, refletor, sugador e espelho. Na primeira consulta, também ocorre a explicação sobre como escovar os dentes, deixando a criança mais segura. A partir da segunda visita, inicia-se a intervenção necessária. Os problemas bucais mais comuns em crianças com necessidades especiais são cárie dentária, doença periodontal, má oclusão e respiração pela boca.

A experiência também aparece no relato de Patrícia Mendonça, mãe de Eduarda, de 2 anos. Ela conta que a filha não tem medo de ir ao dentista, porque o ambiente foi pensado para acolher a criança desde a chegada ao consultório.

“É super tranquilo, porque o consultório é todo decorado. Tem TV no teto, bichinhos nas cadeiras, prateleiras com bichinhos, e a dentista usa roupa de personagem. Então, assim, o procedimento dela é todo feito como se fosse uma brincadeira, alguma coisa nesse sentido. A Eduarda não tem medo, acaba brincando bastante. A dentista dá lanterninha para ela abrir a boquinha, pede para colocar a linguinha para fora, mostra bichinhos que têm dentinhos e vai explicando. Ela também abre a própria boca para a Eduarda ver os dentes dela”, relata.

A edição mais recente da Pesquisa Nacional de Saúde Bucal (SB Brasil), conduzida pelo Ministério da Saúde em 2023, indicou que 53,17% das crianças chegam aos 5 anos de idade livres de cáries. O número representa um avanço em relação ao levantamento de 2010, quando 46,6% das crianças nessa faixa etária tinham todos os dentes sem lesões de cárie no país.

Embora o índice atual ainda esteja distante do ideal, o aumento de 6,5 pontos percentuais indica avanço e pode estar relacionado à ampliação de políticas públicas de saúde bucal, como a fluoretação das águas, ações de educação nas escolas e fortalecimento da rede primária. Problemas como a cárie na infância podem ser evitados, desde que haja orientação aos cuidadores e às próprias crianças sobre a importância da higiene oral.

Adriano Hoshi também reforça a importância do acompanhamento desde os primeiros anos de vida. “A visita ao cirurgião-dentista deve começar antes de o bebê completar o primeiro ano de vida, com a erupção dos primeiros dentinhos”.


AUXÍLIO A PACIENTES COM DEFICIÊNCIA


Em casos de crianças com mobilidade reduzida, há procedimentos específicos para o atendimento na maca. Em alguns momentos, pacientes que utilizam cadeira de rodas precisam de auxílio para subir à cadeira odontológica, contando com a ajuda da família e dos profissionais, que, após a consulta, os colocam de volta na cadeira com segurança.

Segundo o Conselho Federal de Odontologia (CFO), mais de 18 milhões de pessoas com deficiência no Brasil ainda enfrentam a falta de um olhar inclusivo para viver em uma sociedade adaptada. De acordo com dados do último Censo Demográfico, em 2022, esse número representa cerca de 8,9% da população brasileira. Entre as deficiências identificadas, a pesquisa considera quatro tipos: visual, auditiva, motora ou mental/intelectual.


Nesse cenário, alguns grupos podem ter maior suscetibilidade ao desenvolvimento de doenças bucais, a depender do tipo de patologia sistêmica, alteração salivar, dieta cariogênica, alteração muscular e dificuldade de higienização.

A cirurgiã-dentista Adriana Zink é mais uma profissional que contribui para orientar cuidadores sobre a manutenção diária da higiene bucal, auxiliando com recomendações específicas para manter a boca saudável. Segundo ela, podem ser utilizadas adaptações em escovas, abridores de boca para algumas condições e outras medidas definidas conforme a necessidade de cada pessoa.


Nesses casos, um atendimento adaptado ajuda a criança a se sentir mais confortável durante o processo. Com técnicas específicas e orientações voltadas para cada necessidade, os cuidadores também conseguem manter a rotina de higiene bucal em casa.


“Os pacientes com transtorno do espectro autista, por exemplo, podem ter alterações sensoriais que dificultam a realização da higiene bucal. Assim que a dificuldade é identificada, o profissional individualiza a técnica de escovação para aquela pessoa. Algumas estratégias facilitam muito, e esse paciente precisa, em sua maioria, de pistas visuais que ajudem a organizar a realização da tarefa”, explica Adriana Zink.

Os pais são acompanhados e a atividade vai evoluindo até chegar a uma escovação adequada. A recomendação da cirurgiã-dentista é: “iniciar precocemente a visita ao consultório para que todo o processo de dessensibilização aconteça antes de os problemas odontológicos estarem instalados. Trabalhar com prevenção é o melhor caminho”.

CUIDADOS ANTES E DEPOIS DA CONSULTA


Também existem medidas necessárias antes e depois da consulta. Se a criança estiver com febre ou gripe, por exemplo, o horário é remarcado. O dentista Adriano Hoshi menciona que a atuação exige preparo, mas que ama o que faz. Ele também destaca que os profissionais que atendem crianças com necessidades especiais precisam considerar dois pontos: o primeiro é o acolhimento, com atenção à realidade da família; o segundo é o conhecimento sobre o controle de comportamento, que envolve as técnicas mencionadas. Por isso, o profissional e sua equipe devem estar capacitados.


Somada a essa realidade, a população com deficiência ainda enfrenta outra dificuldade: dos 328 mil cirurgiões-dentistas inscritos em todo o país, apenas 718 possuem especialização em odontologia para pacientes com necessidades especiais. Ou seja, nem a rede pública nem a particular contam com especialistas suficientes para atender essa parcela da população com a qualidade necessária. Essa situação também configura um problema de saúde pública. Os tradicionais Centros de Especialidades Odontológicas (CEOs) do Sistema Único de Saúde (SUS) não dispõem de todos os especialistas necessários à saúde bucal da população.


ACESSO AINDA É BARREIRA


A falta de especialistas também interfere no acompanhamento odontológico de crianças com deficiência. Mesmo quando a família entende a importância da prevenção, nem sempre encontra atendimento preparado, profissionais especializados ou estrutura adequada para manter as consultas com regularidade.


Essa dificuldade também aparece na rotina de quem depende da rede pública. Silvana Dias, mãe de Matheus, de 7 anos, utiliza o sistema público de saúde do município de Cascavel e conta que a ida ao dentista exige preparo antes mesmo da consulta. Em casa, ela precisa conversar, explicar o que vai acontecer e tentar deixar o filho mais tranquilo para um ambiente que pode causar medo.

“Não é só chegar lá e sentar na cadeira. A gente já vai preparando antes, falando que vai ao dentista, explicando que ele vai olhar a boquinha, que não precisa ter medo. Mesmo assim, tem dia que ele chora, trava, não quer abrir a boca. Quando a gente consegue um profissional que tem paciência e entende o tempo dele, muda tudo. A gente também fica mais segura”, relata.


A falta de profissionais preparados também é apontada por Gabriela Gonçalves, mãe de Maria Clara, de 4 anos, que acompanha de perto a rotina odontológica da filha. Para ela, encontrar atendimento para uma criança atípica ainda é uma preocupação.


“O mais difícil é achar alguém que saiba atender. Às vezes a gente marca, chega lá e percebe que a pessoa não está preparada para lidar com uma criança atípica. Não é só mandar abrir a boca. Minha filha precisa de tempo, precisa que expliquem antes, que mostrem o que vão fazer. Quando isso não acontece, ela fica nervosa, a consulta não anda e a gente volta para casa sem resolver”, conta.


A rotina de Miriane de Oliveira Pires, mãe de Vitória Thalissa Oliveira Pires, de 7 anos, também mostra como o cuidado odontológico de uma criança atípica começa muito antes da cadeira do dentista. Vitória é autista nível 2 de suporte e, segundo a mãe, qualquer mudança no dia pode deixá-la nervosa. Por isso, quando há consulta, Miriane tenta conduzir tudo como parte da rotina.


“Ela toma calmante todos os dias. Então, no dia da consulta, eu tento agir como se fosse um dia normal, porque tudo o que é diferente deixa ela nervosa. A gente vai levando assim, para ela não perceber tanto e não ficar mais agitada”, conta.


Em casa, o desafio maior está na escovação. Miriane relata que a filha tem resistência ao toque e nem sempre permite que a mãe faça a higiene bucal. “A dificuldade maior é escovar os dentes dela. Ela não gosta que encoste. Tem dia que deixa eu escovar, mas tem dia que eu não consigo. Ela tem muita força, muita mesmo”, diz.


A primeira tentativa de atendimento odontológico pela rede pública também foi difícil.

Miriane procurou o posto de saúde, onde havia dentista, mas Vitória não permitiu a aproximação do profissional. “Ela não deixou o doutor encostar nela. Ficou muito nervosa, se jogou no chão. Eu expliquei que ela era autista, grau 2, e aí ele encaminhou para a Unioeste, porque lá tem profissional especializado para atender crianças com necessidades especiais, não só autistas, mas crianças com outras necessidades também”, relata.


Quando chegou ao atendimento especializado, a saúde bucal de Vitória já estava comprometida. A menina teve cárie, perdeu um dente e quase perdeu outro. Para Miriane, a diferença esteve na forma de aproximação do profissional. “Lá, o doutor usa jaleco com bichinhos, canta música, conta histórias. Ele vai acalmando a criança para conseguir trabalhar. Isso ajuda muito, porque ela precisa desse tempo”, afirma.


Para Adriano Hoshi, o trabalho precisa começar pela escuta da família e pela adaptação da conduta à realidade de cada paciente. Já Adriana Zink reforça que a ida ao consultório deve acontecer cedo, antes que os problemas bucais estejam instalados. Esse acompanhamento ajuda a transformar a consulta em parte de uma rotina preventiva, em vez de uma procura apenas quando há dor, cárie ou uma dificuldade maior.


A saúde bucal não se resume à cadeira do dentista. Ela começa em casa, na escovação diária, passa pela orientação aos responsáveis e depende de uma rede capaz de acolher crianças que precisam de mais tempo, preparo e adaptação. Para essas famílias, o acesso à odontologia também passa por informação, continuidade e profissionais preparados para atender diferentes necessidades.

Comentários


  • Instagram
  • TikTok

Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

©2025 - Agência Abre Aspas - Todos os Direitos Reservados

bottom of page