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Copa, que saudade

Uma competição que, a cada quatro anos, desperta o melhor e o pior da sociedade


Três países, uma bola e a taça mais bonita do planeta / Crédito da foto: FIFA
Três países, uma bola e a taça mais bonita do planeta / Crédito da foto: FIFA

Por André Felipe | Agência Abre Aspas


Esperamos quatro anos por esse momento. Desta vez, para ser mais exato, três anos e meio, já que o Catar deslocou o calendário e encurtou a distância até a próxima Copa.

Mesmo assim, a sensação é a mesma: quando o torneio se aproxima, o tempo parece ficar mais lento e o futebol volta a ocupar um lugar difícil de explicar.

A Copa do Mundo é feita de contradições. É negócio, vitrine, televisão, publicidade, disputa política e interesse econômico. Ao mesmo tempo, é também memória, infância, mesa cheia, camisa amarela no varal, bandeira na janela e gente que passa o ano reclamando de tudo, mas para diante de uma bola rolando. Talvez por isso seja tão difícil separar o espetáculo da emoção. A engrenagem é calculada, mas o arrepio, muitas vezes, escapa do controle.


Há algo de absurdo nessa simplicidade. Uma bola, 22 jogadores, duas traves e milhões de pessoas tentando caber dentro do mesmo minuto. Foi assim com o argentino de Rosário que carregou durante anos a cobrança de uma redenção. Foi assim com o menino de Minas que prometeu uma Copa ao pai e virou um dos maiores nomes da história. Foi assim com o ídolo que perdeu a cabeça no último jogo da carreira. E foi assim, agora, com histórias improváveis de jogadores que saem de lugares pouco lembrados para ocupar, por uma tarde, o centro do mundo.


A Copa transforma biografias em memória coletiva. O chute que entra deixa de pertencer ao jogador. Passa a morar na casa de quem assistiu, no bar que explodiu em grito, na rua que parou, no abraço em desconhecido, na criança que descobre, naquele instante, que o futebol pode ser exagero, drama, acaso e beleza ao mesmo tempo.


O cenário está longe de ser perfeito. As decisões da entidade que organiza a competição, os interesses comerciais, os países-sede e as contradições políticas que cercam o torneio precisam ser discutidos. Nenhuma festa deveria apagar os problemas que existem antes do apito inicial. Ainda assim, quando o hino toca e a câmera percorre os rostos dos jogadores, alguma coisa acontece. Por alguns minutos, o mundo parece suspender a própria dureza.


Talvez essa seja justamente a força e a armadilha da Copa. Ela emociona enquanto vende. Aproxima enquanto lucra. Reúne povos enquanto transforma paixão em produto. Quem ama futebol sabe disso. Sabe que há propaganda demais, dinheiro demais e poder demais circulando ao redor da bola. Mas também sabe que há algo ali que nenhuma planilha consegue medir: a alegria coletiva de acreditar, nem que seja por noventa minutos, que uma partida pode mudar o humor de um país.


No Brasil, essa relação ganha outro peso. A vida é dura para muita gente. O salário chega e desaparece. As compras são parceladas, as contas se acumulam, o sono vem acompanhado de preocupação e o dia seguinte quase sempre cobra mais do que entrega. Ainda assim, esse mesmo brasileiro guarda um pouco de energia para a Copa. Separa dinheiro para a camisa, combina o churrasco, pinta a rua, ajeita a televisão, marca o jogo na agenda e vive o futebol como quem encontra, no meio do cansaço, uma fresta de pertencimento.


Alguns não entendem. Outros criticam. Há quem diga que é exagero, fuga ou alienação. Talvez seja um pouco de tudo. Mas, quando o juiz apita, o suíço milionário à esquerda reclama da falta, o colombiano à direita bebe e grita, o inglês atrás discute a arbitragem e o brasileiro, que nem conhece aquelas pessoas, entende todos eles sem precisar traduzir nada. A Copa cria esse idioma provisório, confuso e poderoso, em que a diferença continua existindo, mas encontra um lugar comum na bola.


Por isso, mesmo com todas as tentativas de transformar o torneio em produto, a Copa ainda guarda algo de democrático. Não porque seja pura ou justa, mas porque, durante um mês, atravessa fronteiras, classes sociais, línguas e histórias. O preço do ingresso pode excluir muita gente do estádio, mas a narrativa do jogo escapa pelas telas, pelos rádios, pelos bares, pelas calçadas e pelas conversas de quem acompanha como pode.


Depois, como tudo, ela acaba. As férias terminam, o trabalho volta, o despertador toca cedo e o mundo retorna ao seu tamanho habitual. Um mês parece muito quando começa, mas passa rápido demais quando cada jogo carrega a chance de uma história.

Nesse intervalo, vimos sonhos nascerem e desabarem, gênios confirmarem sua grandeza, desconhecidos ganharem nome, favoritos caírem, torcedores chorarem e estádios inteiros entenderem que alegria e frustração podem dividir o mesmo lugar.

No fim, a Copa é isso: excesso e falta ao mesmo tempo. Parece grande demais para caber em uma lembrança e curta demais para matar a saudade. Talvez seja por isso que, mesmo antes de acabar, a gente já começa a contar os dias para a próxima. Porque há paixões que não se explicam. A gente apenas espera, sofre, grita, comemora e, quando percebe, já está com saudade.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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