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Saúde da mulher no esporte: entre a orientação especializada e a adaptação improvisada

Mesmo com avanços na ciência do esporte, a incorporação de tecnologias adaptáveis ainda não acompanha a realidade das atletas, ampliando a distância entre orientação especializada e prática cotidiana


Defasagem científica é mais um dos problemas fundamentais que enfrentam as mulheres nos esportes | Crédito da foto: Stein Cascavel Futsal/Flickr
Defasagem científica é mais um dos problemas fundamentais que enfrentam as mulheres nos esportes | Crédito da foto: Stein Cascavel Futsal/Flickr

Por Giovanna Kava | Agência Abre Aspas


A ciência do esporte tem avançado na compreensão do corpo feminino, mas esse avanço ainda não se traduz de maneira uniforme na rotina das atletas. Entre o conhecimento produzido por especialistas e aquilo que se aplica no dia a dia, persiste um intervalo que, em muitos casos, é preenchido por adaptações individuais. Esse cenário configura um desafio científico e estrutural, que envolve desde a produção de dados até a forma como eles chegam às equipes esportivas.


Um exemplo recente de evolução tecnológica vem do futebol europeu. O departamento médico do FC Barcelona, clube espanhol, acompanhou, ao longo de quatro temporadas, 33 atletas profissionais, analisou mais de 850 ciclos menstruais e relacionou esses dados à ocorrência de lesões. Os resultados indicaram que a incidência de lesões não varia de modo relevante ao longo do ciclo menstrual, embora a gravidade apresente diferenças.


Quando ocorrem durante a menstruação, as lesões tendem a afastar as atletas por mais tempo. Em média, o período de recuperação nesses casos é mais de três vezes superior ao observado em outras fases do ciclo. Estudos da área também indicam que, nesse período, atletas mulheres apresentam maior predisposição a lesões como a do ligamento cruzado anterior (LCA), uma das mais graves no esporte, muitas vezes associada a fatores hormonais e biomecânicos. Embora não haja relação causal comprovada, os dados indicam que o corpo pode responder de maneira distinta em certos momentos fisiológicos.


Apesar desses avanços, esse tipo de evidência ainda é limitado. A produção científica sobre o tema, sobretudo em esportes de alto rendimento, ainda é considerada insuficiente para orientar plenamente a prática esportiva. Com isso, muitas decisões continuam sendo tomadas com base em modelos generalizados.


Segundo a médica do esporte Yhasmin Redondo, a principal lacuna está na falta de dados sistematizados. “A gente ainda precisa mapear melhor essas atletas. Falta dado, falta acompanhamento mais longo, falta estudo aplicado à realidade”, explica.


Além disso, há um fator histórico que incide sobre esse cenário. Durante décadas, o esporte foi estruturado com base no corpo masculino, o que ainda afeta de forma direta a organização de treinos e protocolos. “Por muito tempo, o homem foi o parâmetro. Agora a gente está correndo atrás para entender a mulher dentro do esporte”, afirma a médica.

A vivência das atletas e a lacuna na prática


Essa defasagem científica afeta o cotidiano das atletas. “Na fase pré-menstrual e durante a menstruação, sinto mais fadiga. Isso impacta diretamente o meu desempenho”, relata Flávia Alonso, atleta de futsal e estudante de fisioterapia.


A fala da atleta indica uma realidade recorrente: as sensações físicas são identificadas, mas nem sempre incorporadas de forma estruturada ao planejamento esportivo. Na prática, aquilo que o corpo sinaliza nem sempre se converte em estratégia de treino.


Ao aprofundar o tema em sua formação acadêmica, Flávia desenvolveu o seu trabalho de conclusão de curso (TCC) sobre lesões osteomusculares, que afetam músculos, ossos e articulações, em atletas de alto rendimento. A pesquisa investiga a relação entre essas lesões e o ciclo menstrual, além de estratégias de prevenção. Durante o levantamento, ela encontrou dificuldade para localizar estudos específicos, sobretudo no futsal. “É um tema que a gente sabe que influencia, mas, quando vai procurar material, ainda tem muito pouco”, afirma.


Sem uma base científica consolidada, a aplicação prática tende a seguir modelos generalizados. Nesse quadro, o que deveria funcionar como orientação estruturada muitas vezes se transforma em adaptação individual, baseada na experiência e na percepção da própria atleta. Flávia observa que o rendimento varia ao longo do mês, tanto em termos físicos quanto na percepção de esforço. Segundo ela, há períodos de maior cansaço e outros de melhor disposição.


No alto rendimento, esses ajustes nem sempre ocorrem de forma sistemática. “Eu treino nas condições em que estou”, afirma. Em situações específicas, há diálogo com a comissão técnica para possíveis adaptações.



Nutrição, ciclo menstrual e desempenho


Essa realidade também é observada na nutrição esportiva. Bruna Cecchele, nutricionista da área, explica que o desempenho feminino não segue uma linha constante, em razão das oscilações hormonais ao longo do ciclo menstrual. “Há fases em que a mulher apresenta melhor desempenho e outras em que a performance cai. Isso é fisiológico”, afirma.


Segundo ela, o principal desafio está em transformar esse conhecimento em estratégia. Em esportes coletivos, nos quais cada atleta está em uma fase distinta do ciclo, a individualização se torna mais complexa, embora continue necessária.


Além das variações hormonais, a nutrição ocupa lugar central na saúde e no desempenho. Bruna aponta que as mulheres apresentam maior risco de deficiência de ferro em razão da perda sanguínea durante o ciclo menstrual. “Isso pode gerar cansaço, queda de rendimento e prejuízo à recuperação”, diz.


Outro ponto importante é a ingestão energética. Muitas atletas consomem menos calorias do que o necessário, seja por falta de orientação, seja pela pressão estética ainda presente no ambiente esportivo. Esse déficit pode levar a alterações hormonais, elevar o risco de lesões e comprometer o rendimento a longo prazo.


Mesmo em cenários de alto rendimento, o acompanhamento especializado ainda não ocorre de maneira homogênea. Flávia explica que, além do suporte oferecido, a atleta também precisa desenvolver autonomia em relação ao próprio corpo. “A nutrição a gente faz por conta própria”, afirma, ao se referir a decisões individuais que complementam o trabalho profissional.


Segundo Yhasmin, a fragmentação desse acompanhamento pode gerar riscos. “Quando não existe um acompanhamento integrado, aumentam as chances de erro, seja na alimentação, no uso de suplemento ou até de medicamentos”, explica.


Entre esses riscos está o uso inadequado de medicamentos. “Muitos atletas não sabem que alguns remédios comuns podem ser considerados doping”, alerta.


Para a médica, o cuidado com a atleta deve ser multidisciplinar. “O médico do esporte não trabalha sozinho, é um médico de equipe”, afirma. Esse modelo, porém, ainda não está presente de maneira uniforme. De acordo com Bruna, “ainda existe uma lacuna em relação a ter a base ou o suporte para essas atletas”.


Mudanças no cenário internacional e reflexos no Brasil


Enquanto isso, o cenário internacional começa a apresentar mudanças práticas. No Brasil, esse movimento também dá sinais de avanço. Às vésperas da Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2023, a seleção brasileira lançou novos uniformes com tecnologia pensada para oferecer mais conforto às atletas durante o ciclo menstrual.


No futebol inglês, a seleção feminina, conhecida como Lionesses, passou a usar shorts escuros após atletas relatarem desconforto durante o período menstrual. A mudança representa um avanço ao levar em conta a experiência das jogadoras.


Outro exemplo é o West Ham United, equipe inglesa que lançou um uniforme adaptado ao ciclo menstrual em parceria com a marca Modibodi, especializada em vestuário absorvente e reutilizável. O modelo inclui peças com tecnologias desenvolvidas para oferecer mais segurança durante as partidas.



2 comentários


Reportagem incrível!!!

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Muito bom!


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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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