top of page

O jogo não acaba no apito

Aos 10 anos, Francisco Lisboa lida com o jogo, a culpa, as reações ao redor e o peso que continua depois da partida, em casa, na memória e no silêncio 


Suporte emocional após derrotas é parte essencial na formação de atletas nas categorias de base | Crédito da foto: Ana Lisboa
Suporte emocional após derrotas é parte essencial na formação de atletas nas categorias de base | Crédito da foto: Ana Lisboa

Por Leticia Patricia | Agência Abre Aspas


Após o apito final da partida, Francisco Lisboa continuou ali. O lance decisivo ficou em sua mente e nas reações de quem assistiu. Mesmo tão jovem, aos 10 anos, ele já está acostumado a conviver com uma rotina intensa. Joga futsal e futebol de campo, participa de competições e vive um ambiente em que o resultado, mesmo nas categorias iniciais, costuma ocupar lugar central.


O placar estava apertado. Ele respirou fundo, correu e bateu. A bola não entrou. Naquele instante, enquanto o time adversário comemorava, o mundo de Francisco pareceu parar no erro. “Eu fiquei muito triste e me senti culpado”, conta, como se ainda estivesse buscando uma explicação para o chute que saiu errado. “Fiquei pensando no que eu podia ter feito diferente. Mas o que mais doeu foi a reação das pessoas depois”.

MENTE QUE NÃO DESCANSA


Essa sensação de “replay infinito” não é apenas uma percepção individual. Estudos sobre psicologia do esporte indicam que a ansiedade pré-competitiva é um dos fatores associados ao desempenho de atletas em competições. Nas categorias de base, essa pressão pode ser maior, considerando a idade e a formação emocional desses atletas. Na prática, isso ajuda a entender por que meninos como Francisco podem carregar, sozinhos, a responsabilidade por um resultado coletivo.


Patrick Amorim, técnico que trabalha com formação na escolinha Camisa 10, vê esse padrão se repetir quase diariamente. “Para a maioria, quando o jogo termina, a vida segue, mas, para o atleta, não”, observa Patrick. “Principalmente quando ele se sente responsável pelo resultado. O problema fica e pesa na mente do jogador”.


O impacto disso aparece no treino seguinte. Patrick nota que atletas chegam para treinar ainda “presos” ao erro do fim de semana. O erro, que deveria ser apenas uma etapa do aprendizado, acaba se transformando em um muro de insegurança. O menino que antes arriscava o drible agora prefere o passe curto, o toque rápido, o jogo “travado”.


Apoio que vem da arquibancada também faz parte da formação de quem está dentro de quadra | Crédito da foto: Ana Lisboa
Apoio que vem da arquibancada também faz parte da formação de quem está dentro de quadra | Crédito da foto: Ana Lisboa

O QUE A ARQUIBANCADA NÃO VÊ


A pressão não nasce apenas dentro do campo ou da quadra. Muitas vezes, ela atravessa o ginásio e chega às arquibancadas. Ana Lisboa, irmã de Francisco e estudante de Educação Física, percebe o que escapa aos olhos do torcedor comum. Ela nota o silêncio que se instala e o modo como o irmão se retrai após uma falha.

“É um misto de orgulho, medo e nervosismo”, diz Ana. “Dá para ver que o erro continua na cabeça dele. Ele fica mais quieto, não quer muita conversa”. Ela aponta que, às vezes, a arquibancada esquece que ali, correndo atrás da bola, está uma criança em formação, e não um profissional pronto para lidar com o julgamento público.


"NÃO" SEM EXPLICAÇÃO


Se o erro dentro das quatro linhas já é difícil de processar, o que acontece fora delas pode ser ainda mais marcante. Ana Lisboa recorda um episódio que ilustra a falta de tato recorrente no esporte de base. Francisco participou de um teste para uma escolinha, um momento carregado de expectativa. Ele estava determinado, como sempre, e deu o máximo de si em cada lance.


O problema não foi a reprovação em si. O “não” faz parte da carreira de qualquer atleta, mas a forma como ele foi entregue fez diferença. “Não houve explicação nem orientação, só a negativa, dita de forma direta, sem espaço para diálogo”, relata Ana. Para uma criança de 10 anos, a ausência de um feedback construtivo transforma a avaliação em uma sentença de incapacidade. “Não foi só não passar. Foi o jeito. Foi desrespeitoso”.


Esse tipo de abordagem expõe uma ferida aberta no futebol juvenil: a tendência de tratar crianças como mercadorias descartáveis. Quando a formação humana é deixada de lado, o ambiente se torna mais vulnerável a situações graves. Em 2024, um caso extremo chocou a base do Athletic Club, em São João del-Rei (MG), onde pais denunciaram agressões físicas dentro de alojamentos. Relatos indicaram que atletas do sub-17 teriam atacado jogadores do sub-15 com facas de serrinha. Para Ana, esses episódios mostram o risco de negligenciar o cuidado e a segurança em espaços que deveriam ser de acolhimento e desenvolvimento.

PRESSÃO


A rede de apoio, composta por família, técnicos e amigos, deveria servir como amortecedor desses impactos. No entanto, nem sempre é o que acontece. “Muitas vezes, quem tinha que apoiar era quem mais pressionava. Cobram resultado, mas esquecem que ele ainda é uma criança”, observa Ana.


Essa inversão de papéis cria um ambiente em que o jovem atleta sente que seu valor está condicionado ao placar. Dentro da casa de Francisco, a luta diária é para desconstruir essa ideia. A família tenta mostrar que o caminho não precisa ser perfeito para ser válido. “A gente tenta mostrar que um jogo não define nada, que ele pode errar e continuar”, explica Ana.


Essa vivência foi tão marcante que mudou os planos de Ana. Hoje, como estudante de Educação Física, ela decidiu direcionar sua atuação para o acompanhamento emocional de jovens atletas. Para ela, o desempenho não depende só do físico ou da técnica, mas de um conjunto em que a mente tem papel decisivo. “Se a cabeça não estiver bem, não sustenta”, afirma.


RECOMEÇAR


A lição que fica, para Francisco e para quem o assiste da arquibancada, é que o apito final é apenas um marcador de tempo, não de destino. Entre um erro e um acerto, o que realmente importa é o apoio. “Eu posso tentar de novo”.

Enquanto o técnico lida com o atleta em quadra, Ana Lisboa lida com o irmão no pós-jogo. Ela observa que a transição do “atleta” para a “criança” nem sempre é imediata. “Dá para ver que o erro continua na cabeça dele mesmo depois de chegar em casa”, diz ela. A tentativa da família de mostrar que “um jogo não define nada” é um exercício constante de paciência e acolhimento.


Ana recorda que, muitas vezes, o ambiente esportivo esquece que o suporte emocional é parte essencial na formação de atletas de base. O caso do desrespeito no teste da escolinha e as notícias de violência em alojamentos de clubes, como o Athletic Club, servem como alerta para os riscos que cercam o sonho desses jovens. A família de Francisco tenta ser o filtro que impede que a “grosseria” do mundo esportivo mude seu olhar.


A superação de Francisco não acontece em um grande jogo, mas no silêncio do treino de um dia qualquer. Não é apenas um chute: é um gesto de coragem de quem entende, aos poucos, que o caminho não precisa ser perfeito, mas contínuo. O objetivo não é apenas acertar a rede, mas conseguir tirar o lance da mente e deixá-lo ali, na quadra. “Dessa vez, o lance não fica na memória. Fica no treino”. O jogo de Francisco não acabou no apito, mas ele aprendeu que sempre haverá um novo apito inicial para tentar outra vez.





4 comentários


Arrasou lê!👏

Curtir

analuizapoiares
há 4 dias

foi uma honra!📰❤️

Curtir

👏👏👏

Curtir

maitebravocosta
há 4 dias

🙂‍↕️exatamente🙌

Curtir
  • Instagram
  • TikTok

Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

©2025 - Agência Abre Aspas - Todos os Direitos Reservados

bottom of page