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A saga diária para abastecer as geladeiras do Hemocentro de Cascavel

Inspirados por histórias de superação nos corredores do HU e da Uopeccan, voluntários enfrentam o relógio e as agulhas da aférese para garantir que o leito de dor de um desconhecido seja o início de um recomeço


Conectado à máquina de aférese no Hemocentro de Cascavel, João Freitas com apenas 18 anos, estende o braço em um gesto que pode beneficiar até 30 pacientes | Créditos da foto: Hemocentro Cascavel via Instagram  
Conectado à máquina de aférese no Hemocentro de Cascavel, João Freitas com apenas 18 anos, estende o braço em um gesto que pode beneficiar até 30 pacientes | Créditos da foto: Hemocentro Cascavel via Instagram  

Por Kamilly Felipe | Agência Abre Aspas


Neste dia 14 de junho, celebra-se o Dia Mundial do Doador de Sangue, uma data instituída pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para conscientizar a população sobre a necessidade constante de manter os estoques abastecidos e, acima de tudo, para homenagear aqueles que estendem o braço em prol de um desconhecido. Em Cascavel, sede de uma importante Regional de Saúde, o apelo ganha contornos de extrema urgência. O sangue coletado no município não atende apenas às demandas locais, mas serve como o pilar de sustentação para tratamentos de alta complexidade em toda a região, abastecendo diariamente instituições como o Hospital Universitário (HU) e o Hospital do Câncer Uopeccan. Por trás de cada bolsa de sangue armazenada nos refrigeradores do hemocentro, existe uma rede técnica precisa e, fundamentalmente, histórias humanas moldadas pela empatia e pelo amor ao próximo.


HEMOCENTRO DE CASCAVEL


O Hemocentro Regional de Cascavel funciona como o núcleo vital dessa engrenagem de salvamento. Responsável por triar, coletar, processar e distribuir sangue e hemocomponentes para mais de duas dezenas de municípios da região Oeste, a instituição enfrenta o desafio diário de equilibrar a oferta voluntária com uma demanda que nunca cessa.


Com uma equipe multidisciplinar formada por médicos, enfermeiros, assistentes sociais e técnicos de laboratório, o espaço busca oferecer um atendimento acolhedor e humanizado para que o ato de doar não seja visto apenas como um procedimento clínico, mas como uma experiência de cidadania e afeto. Manter as geladeiras da instituição com níveis seguros é um trabalho de formiguinha, que depende diretamente da mobilização e da fidelização da comunidade cascavelense.


Para muitas pessoas, o primeiro contato com a doação de sangue não surge de campanhas publicitárias, mas sim de uma necessidade urgente que bate à porta de casa. Foi exatamente assim que começou a trajetória de João Freitas, doador de plaquetas e de medula óssea. Seu vínculo com o hemocentro começou cedo, quando ele tinha apenas 16 anos, motivado pela batalha que seu pai travava contra o câncer.


"Meu principal incentivo para começar a doar sangue foi o meu pai. Ele fazia tratamento contra o câncer e, durante esse período, eu entendi o quanto as doações são importantes. Sempre que uma pessoa precisa de sangue, o hemocentro incentiva que familiares e amigos também doem para ajudar a repor os estoques. Então, no início, eu doava especificamente no nome dele, tentando compensar as bolsas que ele utilizava durante o tratamento”.


Essa vivência diária nos corredores hospitalares desmistificou para o jovem a ideia comum de que o sangue só é necessário em cenários de acidentes graves ou traumas de trânsito. O tratamento oncológico mostrou a ele uma realidade muito mais silenciosa e contínua.


"Meu pai precisava muito de suplementação, principalmente de plaquetas. Foi aí que eu comecei a entender que a doação não é importante apenas em casos de acidente, como muitas pessoas imaginam. Existem vários tratamentos que dependem de sangue, sangue fenotipado e plaquetas para continuar acontecendo”.

TRANSPLANTE NA ADOLESCÊNCIA E A AFÉRESE


A relação de João com a saúde do pai foi profunda, ao ponto de ele se tornar doador de medula óssea ainda na adolescência. Essa experiência marcante acabou abrindo caminhos para que ele compreendesse processos mais complexos de doação de componentes sanguíneos.


"Comecei a doar com 16 anos, acompanhado de um responsável, como é permitido. Nessa época eu já tinha passado por uma experiência muito marcante: fiz um transplante de medula com o meu pai. A forma como foi feita essa doação era parecida com uma aférese de plaquetas. O sangue saía por um braço, passava por uma máquina que filtrava as células-tronco e depois o restante voltava para o meu corpo pelo outro braço. Foi uma experiência muito intensa e especial para mim”.


Aquela imersão precoce no universo da saúde despertou no jovem um senso de responsabilidade que ultrapassava os cuidados com o próprio pai. Ao entender o funcionamento da máquina de aférese, ele percebeu que poderia oferecer algo ainda mais escasso para o sistema de saúde: as plaquetas.


"Depois disso, eu fiquei com muita vontade de começar a doar plaquetas também. A doação de plaquetas é mais difícil de conseguir e muito necessária. Quando ela não é feita diretamente por aférese, são necessárias várias bolsas de sangue para conseguir a quantidade necessária de plaquetas para um paciente. Então, quando completei 18 anos, comecei a doar”.


COMPLEXIDADE DO PROCESSO E RECOMPENSA INVISÍVEL


A doação de plaquetas difere significativamente da doação de sangue total, tanto pelo tempo exigido quanto pelo desgaste físico do voluntário. Trata-se de um compromisso que exige paciência e desprendimento por parte de quem se candidata a ajudar.

"A doação de plaquetas é um pouco diferente da doação de sangue comum. Ela demora mais, cerca de uma hora, porque o sangue passa por uma máquina que separa as plaquetas e alguns outros componentes que podem ser utilizados, enquanto o restante retorna para o corpo. É uma doação um pouco mais cansativa, mas extremamente gratificante”.


Hoje, a motivação de João se transformou em um pacto coletivo com a sociedade. O foco que antes era direcionado a um único membro da família agora abraça qualquer paciente anônimo que dependa desse recurso para sobreviver.

"Hoje, o que mais me motiva é justamente a sensação de poder ajudar. Pode parecer simples, mas saber que você pode impactar positivamente a vida de alguém é algo muito forte. Uma única bolsa de plaquetas pode ajudar até 30 pessoas. Então, para mim, isso não tem preço. Atualmente eu não faço mais doações direcionadas para uma pessoa específica, como fazia com meu pai. Hoje eu doo para quem precisar. E essa vontade de continuar ajudando só cresceu com o tempo”.


CRITÉRIO TÉCNICOS PARA GARANTIR SEGURANÇA


Se por um lado a solidariedade é o combustível que move os voluntários, por outro, a ciência estabelece critérios rigorosos para que o processo seja seguro. O acadêmico de enfermagem Gabriel Alan ressalta que o ato de doar carrega uma responsabilidade técnica imensa, sendo muitas vezes o divisor de águas entre a vida e a morte de um paciente nas unidades hospitalares.


"Você pode estar salvando uma ou várias vidas com um gesto, talvez, tão simples para quem esta doando, mas de uma importância tão grande para quem esta em uma cama de hospital, muitas vezes a continuidade da vida do paciente dependendo, apenas, de uma doação de sangue. Um gesto tão simples mas tão significativo e importante na vida de alguém que o recebe”.


Para garantir que esse gesto traga apenas benefícios, existem barreiras sanitárias e biológicas bem definidas na triagem dos hemocentros. O acadêmico detalha os parâmetros e exigências essenciais para quem deseja ingressar nesse grupo de salvamento.


"Ter entre 16 - precisa de autorização do responsável, caso o menor de idade demonstre interesse - a 69 anos de idade; pesar pelo menos 50 kg - pois é coletado 450ml de sangue, além de amostras para exame, o que pode gerar uma retirada significativa de sangue e subsequentes sintomatologias não desejáveis; ter tido uma boa noite de sono; ser uma pessoa saudável, sem grandes complicações ou alterações de saúde”.


ORIENTAÇÕES PARA DOAÇÃO


Muitos cidadãos deixam de doar sangue por falta de informação ou por acreditarem em mitos antigos, como a necessidade de longos períodos de jejum absoluto. Gabriel Alan esclarece que as diretrizes para o procedimento são descomplicadas e priorizam o bem-estar e a integridade física do voluntário no momento da coleta.


"Fazer uma alimentação mais leve, sem nada muito gorduroso no dia anterior ao exame, mas sem nada muito específico; dormir bem e beber água normalmente, não sendo necessário o jejum alimentar e hídrico antes da doação”.


Outro ponto crucial destacado pelo futuro profissional da saúde é a constante busca por tipos sanguíneos específicos, com especial atenção para os portadores de sangue O- (negativo), considerados fundamentais em situações de emergência médica, quando o fator tempo impede testes prévios.


"O tipo O- é o mais procurado, por ser conhecido como ‘universal’. O sangue O- não possui os antígenos A, B e D (fator Rh) na superfície das hemácias. Por isso, em situações de emergência, suas hemácias podem ser transfundidas para indivíduos de qualquer grupo sanguíneo do sistema ABO e tanto para receptores Rh positivos quanto Rh negativos”.


A SAÚDE DO DOADOR


A qualidade do sangue coletado está diretamente ligada ao estilo de vida que o doador mantém no seu cotidiano. Gabriel Alan reforça que hábitos saudáveis não apenas qualificam o voluntário para a doação, mas também garantem o bom funcionamento de todo o seu organismo, gerando um ciclo positivo de saúde.


"A atividade física melhora a circulação sanguínea porque aumenta a eficiência do sistema cardiovascular, fortalece o coração e favorece o retorno venoso. Além disso, auxilia no controle da pressão arterial, melhora a oxigenação dos tecidos e reduz o risco de doenças cardiovasculares. A prática regular de exercícios também contribui para a prevenção ou retardamento do aparecimento de várias outras doenças físicas e psicológicas. Sendo crucial na vida de qualquer indivíduo que pensa em uma velhice com senescência”.


Apesar da existência de pessoas saudáveis e dispostas a ajudar, o Hemocentro de Cascavel enfrenta dificuldades diárias para manter o fluxo de bolsas estável devido às inaptidões temporárias que surgem na triagem clínica. João Freitas, que acompanha de perto essa dinâmica local, revela como essa oscilação afeta os estoques na prática.

"Ao longo desses anos, também aprendi o quanto é difícil manter os estoques de plaqueta. Existe um grupo de doadores da aférese do hemocentro, e frequentemente recebemos mensagens perguntando quem pode doar. Mesmo tendo bastante gente cadastrada, existem muitas restrições temporárias: uso de medicamentos, antibióticos, tatuagens, piercings, cirurgias e vários outros fatores podem impedir a doação por um período. Por isso, sempre precisamos de mais doadores”.


O DESAFIO REGIONAL DE CASCAVEL


A posição geográfica e a infraestrutura hospitalar de Cascavel colocam o município e seu hemocentro em uma situação de alta responsabilidade. Sendo o polo de uma grande Regional de Saúde, a cidade centraliza atendimentos de alta complexidade de dezenas de municípios vizinhos, o que gera um consumo diário massivo de hemocomponentes.


"Aqui em Cascavel, como somos uma regional de saúde, há uma demanda muito grande. Muito sangue e muitas plaquetas são utilizados diariamente, tanto no HU quanto no Uopeccan, especialmente em tratamentos oncológicos”.


Diante desse cenário desafiador, a celebração do Dia Mundial do Doador de Sangue deixa de ser apenas uma data protocolar no calendário e passa a ser um chamado urgente para a ação comunitária. A sobrevivência e a recuperação de centenas de pacientes internados na cidade dependem diretamente da conscientização e da disposição da sociedade em procurar o Hemocentro de Cascavel e doar um pouco de si.


"Então acho que fica também o meu incentivo para as pessoas: se puderem, doem. Seja sangue, sangue fenotipado ou plaquetas. É um gesto relativamente simples, mas que pode salvar vidas e transformar completamente a história de alguém. Para mim, essa é uma das sensações mais gratificantes que existem”.



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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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