Urbanismo e gastronomia: como o mundo digital pode influenciar nas experiências e nos encontros fora das telas
- Heloyse Anjos

- há 17 horas
- 5 min de leitura
Evento viral nas redes sociais conquista o público em cidades menores e vira fonte de renda para empreendedores gastronômicos

Por Heloyse Cristina | Agência Abre Aspas
O movimento começa muito antes de os ponteiros do relógio marcarem 16 horas, horário da abertura oficial das portas do evento. Seja sob o sol quente ou sob o céu nublado, típico da “Capital do Oeste”, a calçada em frente ao Empório do Doce, no Bairro Periolo, em Cascavel (PR), ganha contornos de um novo fenômeno social da atualidade.
Aos poucos, moradores de diferentes idades e bairros se organizam em uma fila, que ocupa a calçada da confeitaria, aguardando com paciência a liberação para o início das vendas no Festival de Tortas. A expectativa de garantir sua fatia de torta é quase palpável: celulares nas mãos registrando cada minuto de espera, trocas de conversa para decidir qual sabor escolher e a vontade de garantir os mais disputados antes que o estoque se esgote.
Quando as vendas finalmente são liberadas, a cena é impressionante. As tortas, cuidadosamente expostas, começam a ser fatiadas e embaladas, passando rapidamente de mão em mão, em um fluxo tão grande que, em pouco tempo, as mesas se esvaziam por completo.
Essa situação chama atenção tanto pela alta procura comercial quanto pelo comportamento do público interessado no evento. O festival realizado pelo Empório deixou de ser apenas um ponto de venda, tornou-se também um local para momentos coletivos, um evento que mobiliza a cidade e reúne as pessoas em uma experiência compartilhada.
A CONSTRUÇÃO DA IDEIA: DO DIGITAL AO LOCAL
A proposta do evento surgiu a partir da observação de tendências adaptadas à realidade local. Segundo o chef André Guimarães, do Empório do Doce, a ideia veio de um vídeo nas redes sociais, que usava a quantidade limitada de tortas, com número reduzido de fatias, e a exclusividade como forma de atrair o público, estratégia que é novidade em Cascavel. “A ideia do festival no Empório surgiu por meio da internet. Eu estava precisando trazer algo novo para cá e, com isso, vi que o festival estourou e pensei: será? Aí resolvi fazer e deu certo”, explica o chef.
A decisão de implementar o projeto não foi apenas um teste de criatividade culinária, mas uma estratégia para fortalecer o posicionamento da marca. Até então, a confeitaria já era referência, com amplo reconhecimento regional. “Nós somos uma loja de bairro, e o movimento dos meus clientes não é só daqui de Cascavel, mas também da região. Eu queria trazer visibilidade e vi que o festival poderia proporcionar isso; logo pensei: se eu conseguir viralizar igual o pessoal vem conseguindo, vou alcançar bastante gente”, completou André.
REDES SOCIAIS E O EFEITO VIRAL
A confirmação do evento veio de forma positiva no ambiente digital, antes de a primeira torta ser fatiada. André relata que o primeiro vídeo de divulgação funcionou: “Quando publiquei o vídeo, a repercussão foi imediata. Muitas pessoas comentaram, surpresas com a vinda para Cascavel, o que gerou bastante engajamento, incluindo mais de mil compartilhamentos”.
O engajamento nas plataformas digitais também teve efeito direto nos resultados do evento, surpreendendo até os organizadores. No dia da estreia, a quantidade de tortas prevista para durar horas esgotou-se em menos de uma hora. “Vendemos tudo em 36 minutos. Por isso, decidimos realizar outro festival com mais que o dobro da meta”, afirma.
O sucesso também se refletiu nas redes sociais. A página da confeitaria, que tinha cerca de 5 mil seguidores, ganhou mais de 10 mil após o primeiro festival, impulsionada pela repercussão do evento.
OPÇÕES DE SABORES E O SENSO DE URGÊNCIA
A escolha dos sabores é um ponto central do evento. Ao longo das edições, foram oferecidas cerca de 17 opções, combinando receitas tradicionais e criações autorais. Entre os destaques estão o maracujá trufado, a torta de pudim e a torta de morango do amor. “É uma estratégia para despertar o desejo do público. A ideia é trazer novos sabores para incentivar quem já provou a voltar e também atrair quem ainda não experimentou”.
Além da variedade, a limitação de fatias influencia o comportamento do público. Com quantidades definidas, o festival cria senso de urgência e valoriza o produto. “A gente trabalha com a ideia de que pode acabar, então as pessoas procuram chegar mais cedo para garantir”, disse André sobre o efeito no consumidor. Muito mais que uma estratégia de marketing, o “princípio da escassez”, desenvolvido por Robert Cialdini, é um mecanismo psicológico. Nele, nosso cérebro interpreta a limitação como um sinal de valor, aguçando um sentido de necessidade por esse objeto.
IMPACTO ECONÔMICO E EXPANSÃO MULTIPLICADORA
Para o público, o festival representa algo inovador. Evelyn Pereira, de 20 anos, inspirada pelo conteúdo que consumiu no Instagram e TikTok, atravessou a cidade para conferir de perto o que os vídeos prometiam. “O que me motivou a vir ao festival foi a curiosidade e também a vontade de provar a torta de pudim”.

O sucesso do festival de tortas realizado pelo Empório não ficou restrito apenas ao bairro Periolo, em Cascavel. O fluxo intenso de visitantes de outras cidades acaba gerando um impacto positivo em toda a vizinhança.
Segundo o chef André, o festival atraiu clientes de cidades como Foz do Iguaçu, Toledo e São Miguel do Oeste. Ele também destaca que, em um dia de chuva, uma loja vizinha aumentou as vendas de guarda-chuvas para o público que aguardava.
Além disso, a realização do festival serviu como um catalisador para outros confeiteiros da região, provando que o modelo de “festival segmentado” funciona. André comenta ter gostado muito de que outros profissionais e empreendedores também inovaram em seus formatos. “Tem gente que me bloqueia e acha que eu vou ficar bravo porque a pessoa faz; eu não, eu quero ajudar mesmo, porque, se um vende, todo mundo vende”.
GASTRONOMIA COMO FERRAMENTA DE URBANIDADE
O caso de Cascavel mostra como um evento local pode transformar, ainda que de forma temporária, espaços pouco frequentados no cotidiano. Em cidades de médio e pequeno porte, iniciativas como festivais gastronômicos alteram a dinâmica desses locais e ampliam o movimento. Assim, uma calçada ou uma loja de bairro passam a funcionar, por algum tempo, como pontos de encontro.
Nesse contexto, a gastronomia deixa de ser apenas consumo e passa a reunir pessoas em torno de uma experiência comum. O festival atrai tanto quem já conhece o espaço quanto novos públicos, criando oportunidades de interação. Mesmo com a praticidade dos aplicativos de entrega, o evento mostra que ainda há interesse por experiências presenciais.
Ao final de cada edição, o impacto não se resume aos produtos vendidos. O evento reforça a presença do público nos espaços da cidade e valoriza iniciativas locais. O Festival de Tortas de Cascavel mostra como ações simples podem gerar movimento, atrair pessoas e fortalecer o comércio e a convivência urbana, mostrando as conexões que somos capazes de criar em torno de uma mesa ou, neste caso, de uma generosa fatia de torta.

Muiito bom!