Quando voar deixa de ser sonho: paramotor ganha visibilidade no oeste do Paraná
- Luiza Bosi

- há 17 horas
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Em Cascavel, praticantes relatam desafios, descobertas e a sensação de liberdade proporcionada pelo voo

Por Luiza Bosi | Agência Abre Aspas
Michele Sbardelotto tinha medo de altura, mas bastou ver uma mulher pilotando para transformar a curiosidade em decisão. Em Cascavel, no oeste do Paraná, ela entrou para um grupo de praticantes de paramotor, modalidade de aviação leve que mistura preparação técnica, leitura do clima e a sensação de liberdade no ar.
De acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), o paramotor é uma aeronave composta por um paraquedas tipo parapente e um conjunto de motor, hélice e tanque de combustível que fica atrelado às costas do piloto. O todo permite a decolagem em áreas abertas, como campos e terrenos planos, sem a necessidade de rampas ou pistas estruturadas.
Além da estrutura básica, a modalidade envolve equipamentos de segurança, como capacete, rádio de comunicação e, conforme o tipo de voo, paraquedas de emergência. A checagem pré-voo inclui a verificação do equipamento, da direção e intensidade do vento e das condições climáticas no momento da decolagem.
Por depender diretamente de fatores naturais, o planejamento é indispensável. Com equipamentos cada vez mais leves, compactos e tecnológicos, o esporte tem ganhado visibilidade, mas ainda exige treinamento adequado, conhecimento técnico e atenção constante às condições climáticas.
Em Cascavel, no oeste do Paraná, a prática desperta interesse de novos adeptos. Entre eles está Michele Sbardelotto, gestora de uma clínica dermatológica, que encontrou no voo uma experiência que vai além do lazer.
O primeiro contato com o paramotor aconteceu por influência do marido, que já praticava o esporte.
A curiosidade cresceu com o tempo, mas um episódio específico a motivou a dar o próximo passo. “Quando eu conheci meu esposo, ele já voava de paramotor. Mas foi em um encontro que eu vi uma mulher pilotando e pensei: se ela pode, eu também posso. Foi ali que eu decidi que queria aprender”, relembra.
Antes de iniciar o processo de aprendizagem, Michele realizou alguns voos duplos, experiência comum para quem está começando. Apesar da expectativa, o medo apareceu logo no início. “Eu tenho muito medo de altura, então no primeiro voo eu fiquei com muito medo. Mas, ao mesmo tempo, foi uma adrenalina tão grande e uma sensação tão boa de estar lá em cima, que foi maravilhoso”, conta.
O aprendizado no paramotor envolve etapas práticas e teóricas. Entre os primeiros desafios está o domínio da chamada “vela”, como é conhecido o parapente, além do controle do equipamento em solo antes mesmo da decolagem. “As maiores dificuldades no início são o domínio da vela e depois o treino com o motor, por causa do peso. Você se cansa bastante, então exige preparo físico e prática”, explica Michele.
FORMAÇÃO E TÉCNICA
Para além da experiência individual, o paramotor exige preparo técnico e acompanhamento profissional. Instrutores da área destacam que o processo de aprendizagem não se resume a aprender a voar, mas envolve compreender o comportamento do vento, avaliar condições climáticas e desenvolver controle emocional.
O instrutor de voo Roberto Malta explica que o primeiro contato com o esporte geralmente acontece de forma gradual.
“Hoje a gente vê um público bem diversificado. Tem desde pessoas que buscam uma experiência diferente, como um voo duplo, até aquelas que realmente querem aprender e se dedicar. Muitos são profissionais de outras áreas, gente que vê no paramotor uma forma de lazer e também de aliviar o estresse do dia a dia. E tem também quem acaba se apaixonando e transforma isso em profissão”, afirma Malta.
O tempo de formação pode variar de acordo com a frequência dos treinos e o desempenho do aluno, mas, em média, é possível aprender os fundamentos em poucas semanas.
Segundo Malta, o tempo de formação pode variar de acordo com a frequência dos treinos e o desempenho do aluno. “Em algumas semanas já é possível aprender os fundamentos e realizar os primeiros voos solo com segurança.
Claro que o aperfeiçoamento é contínuo, porque o piloto está sempre lidando com condições diferentes de clima e ambiente. Então, o aprendizado nunca para”, afirma.
A segurança é um dos pontos mais discutidos quando se fala em esportes aéreos. Embora o paramotor possa ser praticado com segurança quando há treinamento, manutenção e análise do clima, a atividade exige disciplina e responsabilidade.
“A segurança no paramotor está diretamente ligada ao respeito às condições climáticas e à preparação do piloto. É fundamental não voar com vento forte, chuva ou instabilidade. Além disso, a manutenção do equipamento, o uso correto dos itens de segurança e o treinamento adequado fazem toda a diferença. Quando essas orientações são seguidas, o esporte se torna bastante seguro”, ressalta Malta.
Entre os principais desafios no ensino está justamente o equilíbrio entre técnica e emocional.
“O maior desafio é justamente trabalhar o controle emocional. O medo faz parte, principalmente no início, e é até importante, porque ele ajuda a manter o respeito pela atividade. Temos que ensinar a pessoa a lidar com esse medo, sem deixar que paralise. Quando se consegue equilibrar a parte técnica com o emocional, a evolução acontece de forma natural”, explica Malta.
ALÉM DA ADRENALINA
Apesar das exigências técnicas, o que mantém os praticantes no esporte vai além da habilidade. A experiência sensorial e emocional é apontada por Michele como um dos fatores que explicam sua permanência na modalidade.
“O que me faz continuar é essa sensação de liberdade, os voos em lugares diferentes, o pôr do sol, o amanhecer. São paisagens e momentos que só quem voa consegue entender”, afirma Michele.
Segundo ela, o voo também proporciona uma mudança de perspectiva sobre a própria vida. “Voar representa liberdade, conexão comigo mesma e com Deus. A gente consegue ver o mundo de uma forma diferente”, diz.
PRESENÇA FEMININA
Na percepção de Michele, embora o interesse de mulheres esteja aumentando, a presença feminina ainda é baixa no paramotor.
“Somos poucas mulheres. Das cerca de 60 que já tiveram experiência, talvez umas 10 estejam voando hoje. Então, quando aparecemos, chama atenção”, relata. Apesar disso, ela destaca que o ambiente costuma ser receptivo. “Os homens ajudam muito, dão dicas, acompanham. É um espaço onde, mesmo sendo poucas, a gente se sente apoiada”.
A visibilidade nas redes sociais também tem contribuído para mudar esse cenário. Michele conta que frequentemente recebe mensagens de mulheres interessadas em iniciar no esporte.
“Muitas meninas dizem que começaram a treinar por causa dos meus vídeos. Saber que estou inspirando outras mulheres é muito gratificante”, afirma.
VOE ALTO
Depois de enfrentar o medo inicial e descobrir a sensação de liberdade, Michele vê o paramotor como uma prática que vai além do esporte. Para ela, a modalidade representa uma forma de escapar da rotina, explorar novos horizontes e vivenciar experiências únicas.
De acordo com o Rank Brasil, nos últimos anos, o paramotor tem ganhado visibilidade, impulsionado principalmente pelas redes sociais. Vídeos de voos ao pôr do sol, travessias sobre áreas naturais e registros feitos durante o amanhecer despertam a curiosidade de quem nunca teve contato com o esporte.
Em Cascavel, a presença da modalidade mostra que o céu deixou de ser apenas um limite distante e passou a ser um espaço possível para quem está disposto a aprender, respeitar os riscos e seguir orientação técnica.
Para Michele, essa experiência vai além da técnica ou da adrenalina. É também sobre propósito, superação e escolha.
É assim que ela resume o que encontrou nas alturas: “Sonhe alto, voe alto”.

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