O discurso coach e o aprisionamento da autoestima do trabalhador
- Lucas Lobo

- há 2 dias
- 4 min de leitura
Enquanto influenciadores mirins mentem sobre prosperidade, 29% dos brasileiros com idade entre 15 a 64 anos são considerados analfabetos funcionais

Emparelhamento do público em contradição com a importância das escolas e universidades é mais um dos perigos do discurso meritocrático e utilitário | Crédito da foto: reprodução
Por Lucas Lobo | Agência Abre Aspas
Tão profundamente grave quanto as inescrupulosas mentiras batidas sobre prosperidade e dignidade através de um esforço burocrático, são as novas formas de ilusão do grande esforço enquanto esforço mínimo. Vejam, há uma contradição: enquanto a crescente do discurso coach brada sentimentalismos como realidades desbravadas - estes como, por exemplo, o “esforço” já citado, o mérito, a hiperprodutividade e diversas das suas variantes -, a mesma retórica promete a megalomania como meio de alcançar o mínimo. Veladamente, odeiam o trabalho. Quem não odeia? Contudo, quem admite? Pior ainda, quem teria coragem de admitir seu desprezo pela estrutura responsável pela moeção das individualidades? Aproximando, quem teria coragem de admitir seu desprezo quando os mentirosos bem articulados compreenderam seus medos e transformaram em positividade?
Vamos aos pormenores explícitos: o discurso de outrora remodelou-se. A fraude do mérito encontrou uma lógica ‘gamificada’, cauterizada pelos algoritmos de modo que caiba perfeitamente na realidade trágica do trabalhador desamparado. Discursos diminutos - propositadamente - levam um corpo forçosamente esvaziado por rotinas exaustivas ao seu mais asqueroso vazio: o fim da autoestima, a falta do que lutar. Em suma, retira do desamparado sua única possível arma, seu último resquício de autonomia, o pensamento crítico.
Quarenta por cento é o número aproximado de trabalhadores brasileiros na informalidade, segundo dados de 2025 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O terreno é fértil. Se notoriamente é vista a crescente de influenciadores cujo conteúdo é baseado em ideais de ascensão social através de métodos não convencionais, não distante estariam as consequências das reformas neoliberais do governo Temer, dobradas por Paulo Guedes, no governo Bolsonaro, e sustentadas por Haddad, no governo Lula. A reforma trabalhista e o novo ensino médio estão intimamente ligados com a guinada coach e a permissão pela proliferação de ideias nocivas que demonizam direitos (legais e humanos). A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) virou piada, auxílios são hostilizados e, dentre todos o mais implícito, as universidades são desvalorizadas.
O ANTI-ACADEMICISMO
As cotas, embora contestadas, ampliaram o acesso e a vontade pelo acesso às universidades. O número de trabalhadores com ensino superior completo vem crescendo, contudo, ao entrarem em contato com a realidade do mercado de trabalho, se deparam com empregos de baixa prospecção e distante das suas áreas de formação.
Um levantamento de 2022, realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), aponta que, no segundo trimestre daquele ano, quase 80% dos trabalhadores brasileiros com ensino superior foram parar em cargos que exigiam, no máximo, ensino médio completo. Ainda no mesmo estudo, estima-se que mais de 1 milhão de trabalhadores formados atuavam como lojistas no mesmo período.
Ao mesmo tempo em que somos suprimidos com o desgaste produzido pela estrutura de trabalho, vivemos em constante desesperança em relação ao poder de compra e outros impactos cotidianos relacionados ao estado econômico.
Cenários de tragédia historicamente tornam-se campos de disputa ideológica, disputa simbólica pelo poder narrativo. “Apelo à frustração social: uma das características mais típicas do fascismo histórico foi o apelo a uma classe média frustrada, uma classe que sofria com uma crise econômica ou sentimentos de humilhação política e que se sentia amedrontada pela pressão dos grupos sociais mais baixos”, diz Umberto Eco, em seu livro Fascismo Eterno. Se o campo torna-se prolífero para ocupação de ideias (não necessariamente novas), uma população neutralizada pelas frustrações sociais pode facilmente ser cooptada por respostas simplórias para seus problemas. Em nossa atual conjuntura, isso manifesta-se através da amarração de tudo que já fora aqui citado: reformas neoliberais, marginalização do trabalho, falta de perspectiva com o futuro e a falência do sistema educacional. O principal alvo? A própria educação. O culto da ação pela ação. “Sendo a ação bela em si mesma, deve ser tomada antes, ou sem, qualquer reflexão prévia. Pensar é uma forma de emasculação”, completa Eco.
LUXO QUE SE NEGA
“Uma sociedade justa pressupõe o respeito dos direitos humanos e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável" - Antônio Cândido, Direito a literatura.
Aprender vira luxo, não somente pelas discrepâncias sociais, mas pela transformação do normativo. O discurso coach empurra que estudar é inútil - visão utilitarista, perspectiva que primeiro coloca o aprendizado como meio de lucrar, antes da construção de uma autoestima libertadora.
Não se enganem, os filhos de todos os seus ídolos milionários frequentam as melhores escolas e universidades, são ensinados a erudição, conhecem a grande literatura. À eles, o direito de existir não é negado. Existir aqui entendido como conhecer. O ódio contra as faculdades é a grande mentira inescrupulosa que assola nossa verdade nacional.
A escola é um espaço de formação ética. O conhecimento é um direito intrínseco da humanidade. O anti-academicismo visa negar estes fatos, mantendo o trabalhador à margem do entendimento de suas próprias capacidades de organização; mantendo à margem do entendimento de que sua realidade não está entregue aos dizeres que negam sua autonomia.




Lucas, o seu texto apresenta uma reflexão muito bem construída sobre os modos pelos quais o discurso coach atua na produção de sentidos sobre trabalho, mérito, educação e autoestima. Você desenvolve um olhar crítico consistente e demonstra boa capacidade de articular questões sociais, políticas e educacionais em torno de um tema atual e necessário. O seu artigo também se destaca pela força argumentativa e pelo posicionamento autoral, conduzindo o leitor por uma discussão densa e pertinente. Há, no texto, um gesto de escrita comprometido com a leitura das contradições que atravessam a realidade do trabalhador e com a defesa da educação como direito. Parabéns!
o dito “academicismo” vira estética na mão da elite e afasta a classe trabalhadora da sua autoconsciência