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O copo do café está vazio

Entre a dor de quem fica e as lembranças que voltam à mesa, Edina encontra no café a presença de Valdeci


"A dor do luto não diminui; aprendemos a conviver com ela", diz Edina, que perdeu o esposo em fevereiro de 2022 | Crédito da foto: Jéssica Carvalho
"A dor do luto não diminui; aprendemos a conviver com ela", diz Edina, que perdeu o esposo em fevereiro de 2022 | Crédito da foto: Jéssica Carvalho

Por Jéssica Carvalho | Agência Abre Aspas

 

Edina se levanta para preparar o café, mas sente que aquela manhã, ainda no começo, não será como as outras. Com a água quente nas mãos, inicia o ritual de todos os dias. Ao terminar, segue para o quarto para chamar o marido, Valdeci. Ele não está lá. É nesse instante que a realidade a alcança. Edina e Valdeci compartilharam 30 anos de casamento.

 

Edina se lembra do enterro como se fosse hoje. Era 22 de fevereiro de 2022, uma terça-feira. O dia estava nublado e chuvoso, apesar de ser verão. Quando a família chegou ao cemitério, a tempestade se intensificou. Ela, porém, não consegue recordar quem esteve no velório. Ao voltar para casa com a filha, Viviane, sentiu que aquele lugar já não era o mesmo. Ali viviam Edina, Valdeci, a filha e os dois netos. A ausência dele transformava cada cômodo e fazia a casa parecer outra.

 

Não era a primeira vez que Edina enfrentava o luto. A perda dos pais já havia lhe ensinado que cada despedida deixa marcas próprias e que cada pessoa encontra um jeito de lidar com a ausência. Ainda assim, a morte de Valdeci trouxe um vazio difícil de nomear. “Quando perdemos alguém que amamos, tudo parece perder o sentido. O mundo fica cinza”, diz.

 

O luto traz lembranças, saudade e um vazio que insiste em permanecer. Perder alguém que se ama é também perder os dias que ainda seriam vividos ao lado dessa pessoa. Para Edina, a dor encontrou lugar em um gesto cotidiano: preparar o café.

Todos os dias, Edina se lembra de Valdeci. Olhar para o copo de café dói, porque traz de volta as manhãs em que os dois se sentavam à mesa. O gesto faz parte da rotina de muitas pessoas, mas, para ela, carrega outro peso.

O dia a dia continua. Viviane toma café com a mãe todas as manhãs. Ainda assim, o que mais dói é prepará-lo. Enquanto Edina passava o café, Valdeci arrumava as cadeiras para que se sentassem. Logo chegavam os amigos do casal, que também se juntavam ao momento. Para Edina, o café estará sempre frio, mesmo quando acaba de ser passado. A temperatura pode estar alta, mas nunca mais será a mesma. Haverá sempre um lugar vazio à mesa.


O luto faz entender que a ausência de quem partiu não apaga a importância dessa pessoa. No começo, a dor era tão grande que havia dias em que Edina e a filha mal saíam para a área da casa. As crianças não entendiam a tristeza que as duas carregavam. Ligavam a televisão, mexiam no celular e brincavam pela casa, enquanto a vida seguia em seu ritmo.


No inverno, elas costumavam usar o fogão a lenha, mas nem ele conseguia aquecer a casa. A tristeza havia esfriado tudo. Foi então que Edina começou a observar o café e percebeu que ele tinha algo em comum com o luto. A dor, no início, é intensa como o calor de um café recém-passado. Com o tempo, ela muda, assim como a temperatura da bebida, que passa de quente a morna e depois fria. Mas, mesmo frio, o café não deixa de ser café. Da mesma forma, o luto, ainda que mais ameno, não faz a dor desaparecer. O copo continua ali, mesmo quando está vazio. Com o luto acontece algo parecido. A dor permanece, trazendo lembranças e saudade, enquanto aqueles que ficam seguem a vida.


O cheiro do café virou um gatilho para Edina e para Viviane. Um gesto do dia a dia passou a despertar felicidade e tristeza ao mesmo tempo. O luto ensina coisas aprendidas apenas por quem atravessa essa fase da vida. Uma delas é que algumas pessoas permanecem vivas nos detalhes. Valdeci já não está mais ali, assim como o café já não está mais no copo. Ainda assim, a presença dele continua de outras formas.

Para Viviane, além da saudade, ficaram os aprendizados, as lembranças e as histórias que o pai contava para a família. Permaneceram também o perfume de que ele gostava, as roupas que costumava usar e outras marcas espalhadas pela casa. Na mesa, o copo do café continua lembrando que Valdeci não está mais ali. Mas, para Edina e para a filha, o vazio também guarda presença: a de um amor que segue ocupando lugar, mesmo quando a cadeira está vazia.


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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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