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Poltrona 6

Uma terça-feira qualquer, uma estrada conhecida e uma madrugada que expõe mais do que o atraso de uma viagem


Horas concretizam o sexto assento para uma eternidade | Crédito da foto: Lucas Lobo
Horas concretizam o sexto assento para uma eternidade | Crédito da foto: Lucas Lobo

Por Alcemar Araujo | Agência Abre Aspas


Na rodoviária, fim de tarde tem um cansaço próprio. Não é o cansaço de quem já chegou, nem o de quem passou o dia inteiro correndo. É um cansaço de espera. Gente que segura sacola com força, criança cochilando no colo da mãe, café apressado em copo de papel, tela de celular acesa, olho no relógio. Às 17h30 daquela terça-feira, o ônibus saiu de Cascavel com destino a São Paulo. Quase catorze horas de estrada pela frente. Malas etiquetadas, passagem conferida, corpo tentando aceitar a ideia de uma noite inteira sentado.


Eu entrei entre os últimos. Encontrei meu lugar e ajeitei a mochila debaixo da poltrona. Foi quando reparei nele, algumas fileiras à frente. João Leandro, 40 anos, fotógrafo, poltrona 6. Eu ainda não sabia o nome, nem a profissão, mas notei o jeito como ele guardou a câmera com o cuidado de quem conhece o valor das coisas pelo uso, não pelo preço. Depois, acomodou um MacBook em uma bolsa lateral, conferiu duas vezes o bolso da calça e encostou a cabeça no vidro. Tinha uma serenidade discreta, dessas que costumam ser confundidas com distância.


A tarde caiu depressa. Do lado de fora, a estrada foi virando sombra. Do lado de dentro, cada um tentava negociar com o próprio corpo. Um senhor tirou os sapatos. Uma menina reclamou que o ar-condicionado estava frio demais. Em algum ponto depois das primeiras horas, o ônibus ficou naquele silêncio típico da estrada noturna, um silêncio atravessado por ronco de motor, estalo de banco reclinando e fone de ouvido vazando música.


Perto de Maringá, a viagem deixou de ser comum. As luzes internas acenderam de uma vez. Houve um movimento seco nos corredores, um freio menos delicado, um murmúrio que passou rápido de poltrona em poltrona. Quem dormia acordou sem entender. Pela janela, vi viaturas. Um agente subiu primeiro. Depois outro. A voz veio firme, treinada, dessas que dispensam explicação, porque se apoiam na farda.


“Documento na mão, por favor”.


Ninguém questionou. A ordem se espalhou com rapidez. Carteiras saíram de bolsas, bolsos, mochilas. O ônibus tinha origem em Foz do Iguaçu, rota velha conhecida de quem faz compras no Paraguai para revender em São Paulo. A suspeita parecia ter embarcado antes de todos nós.


O que me chamou atenção não foi a revista. Foi a direção dos olhos.


João Leandro ainda procurava o documento quando um dos policiais parou ao lado dele com um interesse maior do que o dedicado aos outros passageiros. Não era só o trabalho de rotina, como gostam de dizer nessas horas. Havia alguma coisa anterior ali. Um filtro. Um recorte. Um corpo lido antes da resposta.


“De onde você vem?”.


“Cascavel”.


“Profissão?”.


“Fotógrafo”.


“Vai para onde?”.


“São Paulo”.


“O que tem no bagageiro?”.


“Roupa, equipamento de trabalho e objetos pessoais”.


A policial que estava logo atrás inclinou o rosto para a bolsa dele. Apontou com o queixo, sem tocar.


“Essa câmera é nova?”.


João ergueu os olhos, mas não levantou a voz.


“Não”.


“E esse MacBook?”.


“É meu instrumento de trabalho”.


Ela insistiu.


“A sua mala tem mercadorias de contrabando?”.


Ele respirou antes de responder. Não com medo, eu acho. Com esforço. Como quem tenta manter a frase limpa diante de uma sujeira que já entrou na cena.


“Não. Eu sou passageiro. Estou viajando a trabalho”.


Ao redor, o ônibus inteiro assistia. Estava claro que a pele respondia às frustrações que pairavam no ambiente. Uns olhavam com curiosidade. Outros fingiam mexer no celular. Uma senhora, duas poltronas atrás de mim, cochichou ao marido um desconforto verborrágico. O marido respondeu baixo e voltou a olhar para a janela, como se a escuridão oferecesse saída melhor que encarar o que estava acontecendo.


João não era o único revistado. O problema estava na ordem da desconfiança, na rapidez com que seu corpo foi puxado para o centro da cena, no modo como lhe coube, antes de qualquer prova, a posição de suspeito principal. Os outros passageiros entregavam documentos. Ele entregava currículo, destino, justificativa, profissão, pertences, tom de voz, compostura. Precisava provar, com o próprio corpo, que cabia ali como passageiro.


O ônibus seguiu escoltado até Maringá. Ninguém nos explicou muita coisa. Ficamos parados horas. Horas ganham outra dimensão quando são arrancadas de uma viagem já longa. O ar ficou mais frio. O banheiro começou a exalar aquele cheiro amargo de estrada interrompida. Gente cansada fica mais irritada, mas também mais covarde. Ninguém queria confusão. Ninguém queria ser o próximo. E talvez por isso mesmo a humilhação tenha se acomodado tão fácil entre nós.


Em certo momento, ouvi João falar com um homem do corredor, um passageiro de camiseta clara, óculos de armação fina, que parecia desconfortável, mas só o suficiente para comentar, não para agir.


“Complicado isso, né?”, disse o homem.


João olhou para ele por um segundo.


“Complicado é uma palavra pequena”.


O homem sem graça ajeitou a gola da camiseta.


“É protocolo”.


João soltou um riso curto, sem humor.


“Engraçado como o protocolo sempre sabe onde parar primeiro”.


Depois disso, não houve conversa. O homem se recolheu como fazem muitos quando percebem que tocaram na superfície errada de uma verdade. O resto do ônibus continuou na liturgia do incômodo mudo. O racismo, aprendi mais uma vez ali, nem sempre precisa de grito. Às vezes, ele trabalha baixo, quase profissional, amparado em procedimento, carimbo, suspeita automática e na paz aparente de quem acha melhor não se envolver.


Já passava das 2h30 da madrugada quando nos colocaram em outro veículo para seguir viagem. A troca foi desorganizada, lenta, desrespeitosa. Corpos arrastando mala, coluna doendo, olhos ardendo, ninguém sabendo ao certo o que dizer depois de tantas horas retidos. A estrada, que antes era apenas longa, tinha virado castigo.


No segundo ônibus, João sentou de novo perto da frente. Eu passei por ele no corredor e foi a primeira vez que vi seu rosto de perto. Havia um cansaço duro ali, desses que não vêm só do sono perdido. Ele segurava a alça da bolsa com força. Pensei em dizer alguma coisa. Uma frase qualquer. “Sinto muito”. “Foi absurdo”. “Eu vi”. Mas fiquei em silêncio. E esse silêncio me incomodou quase tanto quanto a cena anterior.


Chegamos a São Paulo às 10h30 da manhã. A cidade nos recebeu com seu costumeiro excesso, ônibus, buzina, pressa, gente que já começava o dia quando nós parecíamos terminar uma batalha ruim. Cada um desceu com sua mala e seu atraso. Uns reclamavam do transtorno. Outros corriam para refazer agenda, reunião, compromisso. João desceu com a câmera, o computador, a bagagem e uma coisa a mais que não estava etiquetada.


Antes de ir embora, ele parou na calçada, puxou o celular e começou a gravar um vídeo. Não alterou a voz. Não ergueu o braço. Falou como quem já cansou de ter de explicar o básico.


“Quero deixar muito claro que sou passageiro. Não sou muambeiro, não transporto mercadorias e não tenho de ser arrastado para esse tipo de situação como se fosse suspeito de alguma coisa. O que aconteceu na viagem de Cascavel a São Paulo tem nome: racismo. Pela cor da minha pele, fui colocado sob suspeita antes de qualquer prova, interrogado com mais dureza e exposto diante de um ônibus em que, na maioria, os passageiros eram brancos. Meu corpo foi tratado como sinal de culpa”.


João Leandro falou olhando para a câmera como quem tenta garantir, na imagem, aquilo que lhe foi negado durante toda a noite: registro, prova e escuta. Depois, guardou o celular no bolso e seguiu andando.


Eu fiquei parado por alguns segundos, vendo João Leandro se perder na calçada apressada da rodoviária. Um homem negro, fotógrafo, 40 anos, vindo de uma viagem de 13h55 que terminou sendo maior que a estrada. Pensei que a violência daquela noite não tinha começado na abordagem, nem terminaria ali. Ela vinha de antes, de uma ideia antiga e preguiçosa sobre quem merece confiança e quem precisa ser explicado. E continuaria depois, na memória do corpo, na raiva engolida, na cautela redobrada da próxima viagem.


Tem gente que ainda imagina o racismo como um evento barulhento, um insulto, uma porta batida, uma palavra que fere de frente. Mas há dias em que ele veste crachá e escolhe em silêncio quem vai responder primeiro. Há noites em que ele entra no ônibus sem passagem, senta ao lado da polícia e viaja tranquilo entre passageiros que preferem olhar a janela.

Eu estava ali. Eu vi. E desde então penso que o silêncio também aborda, também constrange, também escolhe. Talvez por isso lembrar seja uma forma de não deixar a cena terminar onde quiseram que ela terminasse, na rotina, no procedimento, na versão fácil dos fatos.


João seguiu viagem. O resto de nós também.


Mas nem todos chegaram ao destino do mesmo jeito.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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