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O brilho ofuscante e a sombra amarga de Evelyn Hugo: por que ainda estamos obcecados?

Entre vestidos de seda verde e escândalos de tabloide , a obra de Taylor Jenkins Reid desmonta o mito da perfeição de Hollywood para apresentar uma história de sobrevivência, sacrifício e um amor que desafiou o tempo.


A mística em torno de Evelyn Hugo evoca a era de ouro do cinema, onde a imagem pública era a única verdade permitida e o segredo era a moeda de troca mais valiosa. | Crédito da foto: Amazon
A mística em torno de Evelyn Hugo evoca a era de ouro do cinema, onde a imagem pública era a única verdade permitida e o segredo era a moeda de troca mais valiosa. | Crédito da foto: Amazon

Por Kamilly Felipe | Agência Abre Aspas


Dizer que “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” é apenas um fenômeno das redes sociais ou uma leitura de entretenimento rápido é cometer um erro de análise literária. Anos depois do lançamento, o livro de Taylor Jenkins Reid segue sendo discutido por leitores e aparece com frequência em listas de leitura, e, mais importante, nas conversas de quem busca algo além do superficial. Mas o que faz dessa narrativa, centrada em uma estrela fictícia da Hollywood clássica, algo tão humano?


A resposta não está  no brilho dos diamantes ou nos tapetes vermelhos da Sunset Boulevard, mas na coragem de apresentar uma protagonista que se recusa a ser uma vítima. Evelyn Hugo é profundamente imperfeita, ambiciosa e, em muitos momentos, calculista ao extremo. É justamente essa falta de pureza que a torna tão magnética.


A ARQUITETURA DA SOBREVIVÊNCIA E O PREÇO DO ESTRELATO


Evelyn Hugo é uma estrategista de guerra em um campo de batalha chamado indústria cinematográfica. Ao narrar sua trajetória para a jovem e atônita jornalista Monique Grant, Evelyn remove as camadas de maquiagem que a protegeram por décadas. O que surge dessa conversa é o relato cru de uma mulher que usou seu corpo e sua imagem como moedas de troca em uma estrutura moldada por homens poderosos.


A leitura que a obra permite, de forma intrínseca, é um questionamento sobre o “custo de manutenção” da fama. Evelyn nos mostra que o sucesso não foi um acidente de sorte, mas um projeto de engenharia social. Ao longo de seus sete casamentos, vemos um retrato ácido de uma sociedade que consome o feminino com apetite voraz, mas não tolera a autonomia das mulheres. Cada marido de Evelyn representa um degrau, uma proteção ou um disfarce, e mostra que , para uma mulher latina nos anos 1950, a ascensão exigia o sacrifício da própria identidade.


O VERDADEIRO AMOR EM UM MUNDO DE PRETO E BRANCO


O grande triunfo de Reid é a virada narrativa  que redefine toda a obra: a descoberta  de que os sete maridos foram apenas coadjuvantes, figurantes de luxo em uma peça de teatro, para ocultar o grande amor de sua vida, Celia St. James.


Aqui, o livro deixa o romance histórico em segundo plano e se aproxima de uma discussão sobre identidade LGBTQIA+ em um período de repressão. A relação entre Evelyn e Celia não é idealizada; é frustrante, volátil e dolorosamente real. Elas erram, se magoam e perdem décadas por orgulho, homofobia internalizada ou medo do ostracismo.


É nessa humanidade falha que o leitor se identifica. Não torcemos por um final de contos de fadas, porque entendemos que, na vida real, o amor muitas vezes é sacrificado no altar da segurança e da sobrevivência. A dor de Evelyn não é a de não ter sido amada, mas a de ter precisado esconder  esse amor como se fosse um crime, enquanto o mundo aplaudia suas mentiras de fachada.


VILÃ OU PRAGMÁTICA?


"Eles são apenas maridos. Eu sou a Evelyn Hugo. E, de qualquer forma, acho que, quando souberem a verdade, as pessoas vão se interessar muito mais pela minha esposa”.

Essa frase resume  a essência da obra. Evelyn é uma mestre da narrativa e, ao final da vida, ela não busca redenção nem perdão; busca, sobretudo, ser compreendida. Ela admite ter manipulado pessoas, destruído reputações e até mesmo traído aqueles que amava para proteger sua posição. Ainda assim, é difícil não admirá-la. Em um mundo que tenta constantemente definir quem as mulheres devem ser e como devem se comportar, Evelyn decide as regras do seu próprio jogo. Ela subverte a figura da “mulher fatal” para mostrar que, por trás da sedução, havia uma mente estratégica operando o tempo todo. Ela não se desculpa por querer ser grande, apenas lamenta o que o mundo a obrigou a fazer para chegar lá.


O ESPELHO DA AUTENTICIDADE EM TEMPOS DE FILTROS


Em uma era dominada por influenciadores digitais e vidas meticulosamente mediadas por algoritmos, Os Sete Maridos de Evelyn Hugo surge como um espelho retrovisor. Ele nos lembra que a “perfeição” pública é sempre uma construção de marketing e que o que realmente define uma vida acontece no escuro, longe dos flashes e do julgamento alheio.


A escrita de Taylor Jenkins Reid é quase jornalística em seu ritmo, o que faz sentido dado o enquadramento da entrevista, mas também carrega uma densidade emocional que deixa o leitor em uma espécie de “ressaca literária”. O livro não se limita aos amores de Evelyn. Retrata, acima de tudo, o peso de carregar uma máscara por tempo demais.


A trajetória de Evelyn Hugo sugere que a vida é curta demais para sermos apenas o que os outros esperam de nós. Se ela foi santa ou vilã? A resposta é que foi humana. E é por meio dessa recusa em ser simplificada ou reduzida a um rótulo que ela permanece em nossa memória, desafiando-nos a questionar quais mentiras contamos para nós mesmos em nome da própria sobrevivência.










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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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