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O balcão que virou sustento e escola

Aos 17 anos, Simone Carmisini abriu um CNPJ, aprendeu a separar loja e vida pessoal, enfrentou crise no comércio e mantém uma loja de moda íntima há 32 anos em Toledo


Na Corpo Íntimo, em Toledo, Simone Carmisini atende clientes e fornecedores no balcão da loja de moda íntima aberta quando ela tinha 17 anos | Crédito da foto: Júlia Novello
Na Corpo Íntimo, em Toledo, Simone Carmisini atende clientes e fornecedores no balcão da loja de moda íntima aberta quando ela tinha 17 anos | Crédito da foto: Júlia Novello

Por Júlia Novello | Agência Abre Aspas


Os cadernos e as apostilas escolares dividiam espaço com boletos, notas fiscais e duplicatas. Antes de ir para a escola à noite, Simone Carmisini atravessava Toledo de bicicleta para abrir a pequena loja de lingerie que havia acabado de nascer no Jardim Gisela. A Monareta ficou na memória como parte do caminho entre a adolescência e a responsabilidade de ter um Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) aos 17 anos.


“Eu ia para a loja cedinho, com a minha Monareta, almoçava, fazia as tarefas, passava o dia todo lá e, de noite, ia para a escola”, relembra. Fundada em dezembro de 1994, a Corpo Íntimo começou revendendo lingeries no bairro de Toledo, no Oeste do Paraná. Emancipada para formalizar o negócio, Simone assumiu cedo tarefas que muitos adultos ainda aprendem com dificuldade: comprar, vender, negociar, controlar estoque e pagar contas.


A relação com o comércio começou antes de ela saber o que eram duplicatas, cheques ou fluxo de caixa. Criada na alfaiataria do pai, entre tecidos, moldes e máquinas de costura, Simone aprendeu sobre cortes de roupa, atendimento e constância. Aos 10 anos, teve a ideia de produzir rabicós com sobras de tecido das peças feitas pelo pai, que embarcava nas propostas dos filhos e levava as produções para venda mensal na Casa da Cultura de Toledo.


Com as primeiras vendas, o interesse pelo empreendedorismo ganhou outro capítulo. Aos 15 anos, a filha do alfaiate passou a vender lingeries na escola durante o intervalo. “Eu vendia bastante e começou a dar lucro. Então meu namorado da época me deu a ideia de abrir uma loja. Eu sempre tive essa chama e essa vontade de construir algo, então comecei a pesquisar”, conta Simone.


APRENDER A VENDER E A GERIR


“Eu tinha o tino do comércio, mas não tinha experiência alguma. E a organização é o mais difícil: entender que a loja é uma pessoa jurídica e você é uma pessoa física, e que não se pode misturar as coisas”, afirma.

Sem saber como organizar mercadorias ou encontrar fornecedores, Simone viajou para cidades como Curitiba e Maringá. Observava vitrines, fotografava móveis, estudava a disposição dos produtos e procurava referências para montar o próprio estabelecimento. Também fez cursos do Sebrae sobre precificação e finanças, leu revistas de negócios e de moda e buscou fornecedores capazes de sustentar a variedade da loja.


Essa busca por profissionalização se conecta a um dos pontos mais sensíveis do empreendedorismo nacional: a permanência das empresas no mercado. Levantamento do Sebrae sobre sobrevivência de empresas aponta que 29% dos microempreendedores individuais, 21,6% das microempresas e 17% das empresas de pequeno porte fecham em até cinco anos de atividade. O dado ajuda a dimensionar o peso de decisões como planejamento, capital de giro e separação entre dinheiro da casa e dinheiro do negócio.


No caso de Simone, viajar para pesquisar o mercado, buscar formação e cuidar da contabilidade da empresa desde o início ajudou a loja a atravessar os primeiros anos. Enquanto muitos novos empresários têm dificuldade em separar o caixa da empresa das despesas pessoais, ela aplicou a disciplina aprendida na alfaiataria para garantir a permanência do negócio. Foi essa base que permitiu à pequena “portinha” superar o período inicial e atravessar mais de três décadas.


A dificuldade de Simone nos primeiros anos não era só técnica. Também exigia paciência. Angélica Fonseca, consultora do Sebrae Regional Oeste, explica que essa é uma barreira comum entre empreendedores: a vontade de ver o negócio acontecer pode atropelar a preparação financeira. “As pessoas querem já abrir o negócio, começar a vender e tirar as ideias do papel, mas, quando elas não são bem planejadas e estruturadas sob o ponto de vista financeiro, o crescimento amarga prejuízos”, pontua.


Angélica destaca que um dos erros frequentes é a lógica incompleta da precificação, resumida no “custou cinco, vendo por dez”. Segundo ela, muitos empreendedores esquecem de incluir no preço custos fixos e variáveis, como aluguel, luz, impostos, embalagens e taxas de máquinas de cartão. Simone aprendeu que sobreviver no comércio exigia olhar para o preço como parte da gestão, e não só como cálculo de compra e revenda.


Essa gestão também se traduz na fidelidade de clientes que atravessam gerações. Patrícia Beal frequenta a loja há mais de 30 anos e diz que a relação começou com a mãe. “Minha mãe era cliente, eu fui cliente junto com ela e continuei. Hoje a minha filha, que tem 24 anos, também é cliente. É uma loja com a qual a gente sempre se identificou, onde encontramos tudo o que buscamos e somos sempre muito bem atendidas”, relata.

Para Patrícia, a Corpo Íntimo faz parte da história da família, unindo qualidade dos produtos e confiança construída no atendimento.

QUANDO A CRISE CHEGOU PELO CAMPO


Nem todo planejamento, porém, consegue prever a força da natureza. Em julho de 2000, geadas sucessivas atingiram o Paraná e provocaram perdas agrícolas no estado. Levantamento da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab/Deral) registrou, no Oeste, perdas de 67,7% no milho safrinha e de 84,5% no trigo. Para uma cidade do interior, onde a circulação de dinheiro depende também do desempenho do campo, o impacto chegou ao comércio.


Na loja, as prateleiras estavam cheias de estoque de inverno, mas as ruas ficaram mais vazias e o dinheiro deixou de circular. “Aqueles três meses foram muito difíceis. Eu não tinha capital de giro sobrando, as duplicatas estavam indo para o cartório e a minha segunda filha recém tinha nascido”, recorda Simone. Com medo da falência e pressionada pela família a fechar as portas por causa das dívidas, ela decidiu reorganizar a empresa e continuar.


Para enfrentar o período, a empresária procurou bancos, comparou taxas de juros e prazos de pagamento. Foram três anos para quitar as dívidas daquela crise. A experiência deixou marcas, mas também reforçou uma regra que passaria a acompanhar a gestão da loja: o caixa precisava ser tratado com disciplina.


A resistência à crise não foi apenas teimosia. Fazia parte de uma postura que Simone carregava desde o início. “Eu não admitia não dar certo. Eu ia lutar e ia conseguir”. Durante cinco anos, cada centavo que entrava no caixa voltava para as prateleiras em forma de novas mercadorias, até que a loja ganhasse estabilidade para caminhar com mais segurança.


A LOJA COMO ESCOLA


Enquanto a Simone empresária enfrentava crises e organizava a gestão, a Simone mãe transformava o ambiente comercial em extensão da casa. A loja, que já tinha sido cenário de seu crescimento como mulher, passou a ser também parte da infância das filhas. Para Camila Zandonai, a filha caçula, as lembranças mais fortes vêm das mercadorias que preenchiam as prateleiras.


“As memórias que eu mais tenho na loja são de mexer naqueles pijamas ‘geladinhos’. Eu era muito pequena, andava pela loja e, quando chegava neles, dormia ali mesmo, agarrada no tecido”, recorda Camila. O toque daquele material ficou associado a sono e segurança para a filha, que cresceu fazendo tarefas escolares sobre o balcão de atendimento, entre uma cliente e outra.

A presença constante na loja criou um aprendizado que nenhum curso técnico conseguiria repetir da mesma forma. Enquanto a mãe negociava com fornecedores e montava vitrines, a filha observava o atendimento e a lógica do negócio. “Eu ia escutando o atendimento dela e conversava muito com as clientes. Isso desenvolveu minha oratória e me tirou a vergonha. Alguns anos depois, passei a trabalhar na loja também, assim como minhas irmãs, e consegui aplicar tudo o que cresci vendo”, explica Camila. A loja, para a família, nunca foi só ponto de venda. Também foi escola de vida e de trabalho.


Manter a loja jovem diante do tempo foi outro desafio. No início, as tabelas de preço ficavam em pastas de papel e as duplicatas eram preenchidas à mão. Com as mudanças tecnológicas e no comportamento de consumo, Simone precisou alterar processos, atualizar o ambiente e repensar formas de atendimento. “Se eu não tivesse implantado as mudanças, teria ficado para trás e a minha loja já teria sumido do mercado”, reflete.


Corpo Íntimo passou por mudanças de endereço em 1994, 1996 e 1999 e reformou móveis, iluminação, vitrine e fachada em 2024 | Crédito da foto: Arquivo pessoal
Corpo Íntimo passou por mudanças de endereço em 1994, 1996 e 1999 e reformou móveis, iluminação, vitrine e fachada em 2024 | Crédito da foto: Arquivo pessoal

Essa percepção de que o negócio precisa acompanhar o tempo é o que Angélica Fonseca relaciona às empresas “super estabelecidas”, classificação usada pelo Sebrae/PR para negócios com dez anos ou mais de atuação. No painel “Empreendedorismo Feminino no Paraná”, publicado em maio de 2026 com base na Receita Federal, 26,6% das empresas lideradas por mulheres no estado aparecem nessa faixa de maturidade. O mesmo levantamento mostra que Moda e Confecção é o segundo segmento com maior número de empresárias mulheres, com 10,9% do total.


As três mudanças de endereço e a reforma de 2024 ajudam a contar essa trajetória. O investimento de R$ 70 mil trouxe iluminação de LED, armários, araras pendentes e de chão, além de uma vitrine mais adequada ao perfil das clientes. A loja cresceu em metragem e organização, enquanto Simone cresceu em autoridade para negociar, selecionar fornecedores e decidir o rumo do próprio negócio.


“Muitas vezes eu tive que me impor, ser dura, para que respeitassem a minha opinião. Eu tinha que mostrar que sabia o que estava fazendo, tanto com fornecedores que queriam me obrigar a comprar certos produtos quanto com clientes que desafiavam o meu conhecimento”, recorda. Esse posicionamento ajudou a sustentar a estrutura da loja por mais de três décadas, transformando a insegurança dos 17 anos em repertório de gestão.


Simone Carmisini administra hoje uma loja reformada e vê o resultado da própria trajetória na formação das filhas. O ciclo que começou com uma bicicleta Monareta e a emancipação aos 17 anos consolidou-se em um negócio que atravessa três décadas no mesmo território.

Para ela, o balcão continua sendo o centro da rotina, o lugar onde acompanhou o crescimento de Toledo e a mudança no perfil de consumo de três gerações de clientes.

“Eu olho para trás e falo: ‘Nossa, olha tudo que eu construí’. Me sinto uma mulher poderosa hoje, porque eu venci na vida, criei minhas filhas e estou na minha melhor fase”, afirma Simone. A pequena “portinha” de bairro opera no centro comercial do município e mantém viva uma história feita de trabalho, aprendizado e permanência. Na Corpo Íntimo, o negócio faz história porque virou sustento, escola e herança para uma família inteira.


1 comentário


Leandro Novello
Leandro Novello
há 6 dias

A reportagem ficou ótima, Júlia. Ver a história da Simone ser contada é realmente muito inspirador.

Parabéns pela reportagem e parabéns à Simone pela bela trajetória.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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