O amor que aprende a proteger
- Jessica Viviane Carvalho

- 18 de jun.
- 6 min de leitura
No Dia do Orgulho Autista, a relação entre Valentina e Ryan mostra que inclusão começa no respeito ao tempo do outro, na escuta e no direito de existir sem pedir licença

Por Jéssica Carvalho | Agência Abre Aspas
Valentina costuma perceber os olhares antes da mãe e da avó. Primeiro, ela fica quieta. Depois se aproxima de Ryan, segura sua mão e tenta mostrar outra coisa: uma loja, uma palavra, um brinquedo, qualquer detalhe capaz de devolver ao irmão um pouco de calma.
Ryan tem 5 anos. Valentina tem 11. Os dois crescem na mesma casa, entre escola, mercado, van, rotina e afeto. Antes mesmo de ele nascer, ela já colocava as mãos na barriga da mãe, conversava com o irmão e esperava o dia de buscá-lo no hospital. Quando chegou em casa, quis pegá-lo no colo, ainda que fosse só por alguns minutos. Desde então, o cuidado entre os dois foi aprendendo a existir nas pequenas cenas.
O diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) veio cedo, quando Ryan ainda não tinha completado 1 ano. Na creche, professoras perceberam sinais que chamaram a atenção da família. Ele andava na ponta dos pés, chorava quando a atividade envolvia tinta, ficava mais no canto quando as outras crianças brincavam e organizava objetos por cor. No verão, enquanto muitos colegas deixavam chinelos espalhados pela sala, Ryan juntava os pares: os rosas de um lado, os azuis de outro, os pretos em outra fileira.
Em casa, a organização também aparecia. Quando encontrava garrafas, empilhava uma sobre a outra, como se montasse um prédio. Para a mãe, aqueles gestos foram deixando de parecer manias e passaram a pedir escuta.
“No começo, eu fiquei triste. Achei que fosse uma doença, porque eu não entendia nada sobre autismo. Depois comecei a pesquisar e fui entendendo que ele tinha um jeito próprio de ser. Hoje eu vejo que Deus me presenteou com um amor especial”, conta a mãe.
O Dia do Orgulho Autista, celebrado em 18 de junho, existe para lembrar que o autismo não é uma doença a ser curada. A data defende a neurodiversidade, a aceitação e o protagonismo das pessoas autistas, sob o lema “nada sobre nós, sem nós”. Em uma sociedade que ainda confunde diferença com problema, essa reflexão passa pelas famílias, pelas escolas, pelas filas, pelos atendimentos e pelos pequenos gestos do cotidiano.
No Brasil, o Censo 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), identificou 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo. O Relatório Nacional Mapa Autismo Brasil (MAB), lançado em abril de 2026, ajuda a olhar para outra parte dessa realidade: o acesso ao diagnóstico, às terapias, ao acolhimento e à informação ainda não chega do mesmo modo a todas as famílias.
A história de Ryan também passa por essa espera. A mãe conta que o filho ainda aguarda atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em neurologia e fonoaudiologia. Em um período mais difícil, quando ele não dormia bem e tinha crises de agressividade, a família pagou uma consulta particular com neurologista. “Eu paguei, porque ele estava muito agressivo, pulava em mim e na minha mãe, e também não conseguia dormir. A medicação ajudou bastante”, lembra.
Ryan foi diagnosticado como autista não verbal. Hoje, algumas palavras começaram a aparecer. Ele chama a mãe, o pai, a avó, a vizinha Ju e chama Valentina de um jeito só dele: “Atacadista”. Também conta até dez em inglês, reconhece letras, compartilha vídeos do YouTube na televisão e lê palavras que fazem parte da sua rotina. Uma delas é “escolar”, escrita nas vans que ele vê todos os dias.
“Quando ele foi diagnosticado, ele não falava. Agora, ele fala algumas palavras. Isso me dá muito orgulho”, diz a mãe. Para ela, cada palavra tem o tamanho de uma conquista. Durante muito tempo, Ryan se comunicou por gestos. Quando queria água, pegava o copo e apontava para a pia. Quando queria fazer xixi, mostrava com o corpo. O grito, muitas vezes, foi a forma que ele encontrou para dizer incômodo, medo, cansaço ou frustração.
Para quem vê de fora, o grito costuma se tornar julgamento. Para quem vive dentro de casa, ele é linguagem. “As pessoas olham torto, como se fosse falta de educação. Mas ele é uma criança. Antes de julgar, pergunta se a família precisa de ajuda. Se não souber o que dizer, pelo menos não olhe torto”, pede a mãe.
Alguns lugares são difíceis para Ryan. Espaços cheios, barulho e espera prolongada podem causar desconforto. Em uma ida ao centro da cidade, a família precisou entrar em uma lotérica. Ryan usava o cordão de identificação do autismo, e a mãe também levava uma carteirinha com informações sobre o diagnóstico. Mesmo assim, o atendimento preferencial não aconteceu como deveria.
Ela entrou, viu o caixa preferencial sem atendimento e perguntou como faria para passar com o filho. Explicou que Ryan não lidava bem com fila, barulho e aglomeração. A resposta foi que perguntasse às pessoas da fila se poderia passar na frente. “Eu perguntei, e todo mundo ficou quieto. Eu me senti muito mal, porque era um direito dele. E também me senti que falhei como mãe, porque eu estava ali tentando garantir o que ele precisava e, mesmo assim, parecia que eu não conseguia proteger o meu filho”, conta.
Enquanto a mãe tentava resolver a situação e a avó se indignava, Valentina percebeu o nervosismo do irmão. Mostrou as lojas, falou do movimento do centro e tentou deslocar a atenção dele para algo menos agressivo. Naquele momento, ela não deu uma explicação sobre inclusão. Ela praticou.
A alimentação também faz parte da rotina de cuidado. Ryan tem seletividade alimentar. Gosta de pão francês puro, do jeito que sai da padaria. Não aceita margarina, doce ou recheio no pão. Come carne frita e carne assada, mas não come carne com molho. Não come arroz nem feijão. A batata precisa ser frita, não cozida. O ovo, quando entra, precisa ser mexido. Para muitas pessoas, isso parece capricho. Para a família, é sobrevivência diária.
“Não é deixar sem comer para ver se uma hora ele come. Não funciona assim”, explica a mãe. Por isso, todos os dias Ryan leva pão para a escola. É uma forma de garantir que ele não fique com fome quando não consegue comer o lanche oferecido.
Valentina acompanha esse mundo de perto. Ela aprende a esperar o tempo do irmão e, ao mesmo tempo, tenta puxá-lo para perto das brincadeiras. Quando perguntam o que mais gosta de fazer com Ryan, responde sem rodeio: “Puxar ele para andar de bike, porque ele tem dificuldade e eu quero ajudar”.
Quando percebe que ele está nervoso ou incomodado, Valentina procura caminhos que já conhece. “Eu coloco filme e faço pipoca”, diz. Às vezes, os dois escolhem juntos o que vão assistir. Em outras, ela entende que escolher também pode ser uma forma de acalmar.
Para outras crianças, Valentina explica do jeito que consegue. “Ele é especial, é uma criança igual às outras. E, se alguém brigar com ele, eu vou defender”. Aos 11 anos, ela talvez ainda não saiba nomear tudo o que faz. Mas já sabe algo que muita gente adulta esquece: respeitar uma criança autista não é favor. É convivência.
Valentina é uma criança neurotípica. Ryan é uma criança autista. Eles vivem infâncias diferentes, mas se encontram no afeto, na brincadeira e na rotina de casa. Ele ensina a irmã a ter paciência e a respeitar o tempo do outro. Ela apresenta brincadeiras, incentiva novas tentativas e o chama para jogar futebol. Entre os dois, o amor não precisa explicar tudo. Muitas vezes, aparece no gesto de esperar, proteger e permanecer perto.
Só no fim desta história eu digo o que guardei desde o começo: a mãe de Valentina e Ryan sou eu. Meu nome é Jéssica Carvalho. Escrevo, porque conheço os olhares que julgam, as filas que demoram e o amor que segura a casa de pé. Também escrevo porque o Dia do Orgulho Autista não deve ser lembrado apenas por quem vive essa realidade dentro de casa. Ele precisa ser entendido por quem atende, ensina, convive, julga e, muitas vezes, olha sem compreender.
Quando falo de Ryan, não falo de pena. Falo de direito. Direito de existir, estudar, brincar, circular pela cidade e ser respeitado sem que a família precise justificar cada crise, cada silêncio, cada gesto ou cada necessidade. “Abracem também a família da pessoa autista”, peço. “Não é só a criança que sofre preconceito. A família sofre junto. Falamos tanto de compreensão, mas, na prática, ela ainda falta muito”.
Tenho orgulho do meu filho. Tenho orgulho da forma como Valentina o ama. E tenho esperança de que um dia as pessoas aprendam que inclusão começa antes da lei, começa no olhar que não machuca


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