Mais que beleza: um negócio
- Eduarda Vitória Goes

- há 15 horas
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Extensão de cílios se torna porta de entrada para o empreendedorismo feminino em Cascavel e mostra a gestão por trás do trabalho por conta própria

Por Eduarda Goes | Agência Abre Aspas
A maca está preparada. As pinças, alinhadas sobre a bandeja. Os fios, separados por espessura e curvatura. A cola, na bancada ao lado. A luz, posicionada no ângulo certo. No celular, algumas mensagens confirmam horários; outras avisam cancelamentos. Antes de receber a primeira cliente do dia, Julia Dalvesco já trabalhou: organizou o espaço, respondeu mensagens, repôs material e conferiu o caixa. O procedimento em si pode durar até duas horas. O negócio que sustenta aquele momento dura o dia inteiro e, muitas vezes, avança pela noite.
Cada horário cancelado em cima da hora representa tempo perdido que não volta: o espaço fica vago, os materiais já foram separados e outra cliente que poderia ter sido atendida ficou de fora. Por trás de cada sessão, há custos fixos que não cancelam junto: aluguel, materiais e INSS. A extensão de cílios cresceu como serviço estético e se tornou, para muitas mulheres, mais do que uma técnica de beleza. Passou a ser fonte de renda, projeto de vida e, com frequência, uma saída de empregos que já não faziam sentido. Em Cascavel, esse movimento é visível e tem rosto de mulher.
A DECISÃO
Julia Dalvesco fez seu primeiro curso de extensão de cílios há seis anos. Na época, continuou no emprego formal e atendia de forma esporádica, ainda sem segurança para depender apenas dos atendimentos. Mas o emprego formal foi perdendo sentido. A falta de reconhecimento pesou mais do que a segurança do registro. “Eu sempre gostei muito da área. Há seis anos, fiz meu primeiro curso, porém continuei trabalhando fora e atendia bem pouco. Onde eu trabalhava antes, registrada, já estava se tornando meu maior pesadelo. Patrão que não valorizava o trabalho, sentia que aquilo não fazia mais sentido para mim. Então acredito que isso me motivou a ir atrás de ter meu próprio negócio”, conta.
A decisão, no entanto, não foi imediata. O começo foi frustrante. “No início, a gente fica na dúvida, né, se vai dar certo, se vai conseguir manter, dar conta de tudo. Quando iniciei, precisei voltar a trabalhar fora, pois no início não temos um retorno bom. Então fui atrás de outra renda até conseguir me manter. Trabalhava todos os dias até as 18h e ia atender à noite, ficava até 21h, 22h, e nos fins de semana. Pensei em desistir várias vezes, mas, graças a Deus, tudo correu bem. Eu larguei o trabalho fora e continuei somente com os atendimentos, e sigo assim há três anos”, diz Julia, com a serenidade de quem já atravessou a parte mais difícil.
Bruna Rodrigues, microempreendedora individual que divide uma sala com uma profissional de unhas, seguiu um caminho parecido, com uma certeza que carregava desde o início da vida profissional. “Desde o meu primeiro emprego eu sabia que não era aquilo que eu queria para mim: trabalhar para os outros. Como eu sempre gostei da área da beleza, resolvi me arriscar e deu certo, graças a Deus”, conta. Depois de finalizar o curso, ainda ficou alguns meses como CLT, conciliando os dois trabalhos até conseguir sustentar o negócio sozinha. Sobre esse período, ela é direta: “A maior dificuldade foi não desistir da profissão, já que era muito exaustivo conciliar os dois ao mesmo tempo”.
O QUE NINGUÉM VÊ
Por fora, o trabalho parece caber em uma cena: uma profissional, uma cliente, um procedimento. Por dentro, é um pequeno negócio que exige gestão diária, tomada de decisão constante e uma série de responsabilidades que o público raramente enxerga. Quando perguntada sobre o que mais pesa na rotina, Bruna é direta: “Com certeza, administrar o negócio”. Não é o atendimento em si, nem a divulgação nas redes sociais. É a parte que não aparece na foto publicada. Na prática, isso significa cuidar sozinha da agenda, das compras de material, das publicações nas redes e da limpeza do espaço, tudo isso além dos atendimentos.
“É um mercado que está crescendo cada vez mais, então você precisa estar buscando conhecimento a cada dia para se destacar. Tem muita gente que acaba optando pelo mais barato, e isso desvaloriza o nosso trabalho”, observa Bruna. O mais barato, nesse caso, muitas vezes significa profissionais sem formação adequada ou que usam materiais de qualidade inferior, o que pressiona os preços para baixo e penaliza quem investiu em cursos e anos de prática.
Sobre as dificuldades com precificação e organização financeira, Bruna fala com honestidade: “Hoje em dia tem casos isolados, mas ainda assim não deixa de acontecer. Melhorou depois que aprendi a me posicionar mais, porém ainda existem clientes que acham que o nosso trabalho é favor e que estamos ali à disposição delas. No início, é mais comum você não ter organização financeira, já que é ‘dinheiro entrando todos os dias’. Aí você se ilude achando que merece gastar todos os dias. O que dá para entender, já que quando é CLT precisamos esperar o mês todo para isso. Mas, com o tempo, vamos entendendo que o dinheiro que entra é do nosso negócio e precisa ser tratado com responsabilidade também”. Uma saída prática, e que muitas profissionais descobrem com o tempo, é separar uma conta exclusiva para o negócio e anotar todas as entradas e saídas, mesmo sem contador ou aplicativo especializado.
Julia passou pela mesma curva de aprendizado na hora de cobrar. “No início, eu pagava para trabalhar. Depois fui aprendendo que tudo tem um custo durante um atendimento, desde o aluguel até a gota de cola que usamos”, conta. Com o tempo, a lógica ficou mais precisa: “Conforme os custos aumentam, o preço dos serviços automaticamente também aumenta”. A frase parece direta, mas, para quem está começando, cobrar o valor justo é um dos maiores desafios.
Os desafios de Julia no início eram três: fidelizar as clientes, diminuir o tempo de atendimento e ter dinheiro para repor o material. Hoje, as dificuldades mudaram de nome, mas não desapareceram. “A parte difícil de manter um negócio é o preço que estão as coisas: aluguel de uma sala, que é alto, e ter os melhores produtos para oferecer às clientes, que também têm um custo maior”, diz. Aluguel, materiais e INSS são os principais custos fixos de quem atua como MEI na área, despesas que não param, independentemente de quantas clientes passaram pela maca naquele mês.
Quando questionada sobre o que as pessoas não enxergam por trás do trabalho de uma profissional da beleza, Bruna responde sem hesitar: “Não enxergam o esforço para entregar um bom trabalho e uma boa experiência, o valor que estão os materiais de boa qualidade, o tempo. A responsabilidade é saber que aquilo depende de você e, por isso, você precisa dar o seu melhor e sair da zona de conforto, algo que para mim, antes, era mais difícil”.
O QUE OS NÚMEROS CONFIRMAM
O crescimento do empreendedorismo feminino em Cascavel não é uma percepção isolada. Os dados do Sebrae/PR, atualizados em maio de 2026, mostram um cenário concreto: a cidade conta com 189.917 mulheres na população feminina, e 32.455 empresas ativas são lideradas por mulheres. O levantamento considera empresas com mulheres como titulares ou responsáveis legais na Receita Federal. Esse universo representa 45,7% do total de empresas do município. Cascavel tem 16,3% de mulheres empresárias em relação à população feminina, índice acima da média estadual, de 13,8%. No Paraná como um todo, são 909.434 empresas ativas lideradas por mulheres, e 90% delas são pequenos negócios.
O segmento de Saúde e Bem-Estar lidera o ranking dos setores com maior número de empresárias mulheres, tanto no estado quanto em Cascavel, onde representa 18,6% das empresas lideradas por mulheres. Serviços de estética, como extensão de cílios, integram esse segmento. Em termos de maturidade, 40,6% das empresas femininas em Cascavel são classificadas como iniciais, abertas entre três meses e três anos e meio, o que indica um movimento recente de novas empreendedoras entrando no mercado.
No cenário nacional, o setor de beleza também registra números expressivos. Em 2024, mais de 170 mil novos pequenos negócios foram abertos na área de beleza no Brasil, segundo o Sebrae. A média foi de aproximadamente 700 novos empreendimentos por dia entre janeiro e setembro, a maior parte voltada a serviços de cuidados pessoais e estética. O mercado de beleza e higiene pessoal movimentou R$ 242,3 bilhões em 2025, crescimento de 11,2% em relação ao ano anterior, segundo os dados disponibilizados pela Sebrae.
Angélica Weirich, consultora do Sebrae com foco em mulheres empreendedoras, confirma que esse crescimento também é sentido em Cascavel. “A gente percebeu, de uma forma geral, um crescimento do empreendedorismo feminino em Cascavel. Não é diferente, a gente identifica esse crescimento de uma forma muito intensa”, afirma. Segundo ela, as motivações são diversas: “Muitas mulheres são chefes de família e buscam uma forma de sustentar suas famílias. Outras também como complemento da renda. E ainda há aquelas mulheres que muitas vezes optam em se dedicar à família e acabam tendo no empreendedorismo uma alternativa de renda, seja na venda por catálogo, na venda porta a porta, na comercialização de produtos alimentícios, de artesanato, e assim sucessivamente”.
A consultora também destaca um dado que chama atenção: o nível de preparo das mulheres empreendedoras. “Quando a gente começa a visualizar indicadores, fica muito claro também que o grau de estudo das mulheres é muito grande. As mulheres planejam melhor, elas estudam mais sobre o assunto e também têm grau de instrução maior. E, por consequência, a gente identifica também negócios que prosperam muito mais vindo do universo feminino”, diz Angélica.
Sobre os erros mais comuns no início, a consultora aponta a precificação como o principal: “O cálculo do valor final do serviço e as dificuldades de estruturar a organização financeira. É necessário levar todas as despesas em consideração para uma formação adequada do valor de venda. Muitas vezes, as empreendedoras acabam esquecendo de contabilizar as despesas fixas e variáveis: aluguel, impostos, água, luz, telefone e tudo que utilizam dentro do seu negócio, para compor o valor de venda”. Mas há outro ponto que a consultora considera igualmente importante: “Principalmente na área da beleza, muitas mulheres acabam não valorizando o seu conhecimento. Investem em cursos e atualizações profissionais e acabam não colocando esses investimentos na cobrança dos seus valores de serviços”. O alerta se conecta diretamente ao que Julia e Bruna viveram: as duas precisaram aprender, na prática, que cada hora de curso e cada produto utilizado no atendimento têm um custo que precisa estar no preço.
A solidão também é um fator que a consultora destaca: “Geralmente há dificuldades em conseguir coordenar todos os setores da empresa: o atendimento, marketing, finanças, a parte técnica e a atualização profissional. Acaba sendo um universo bastante solitário. Mas hoje há vários grupos de redes de apoio entre empreendedoras bem organizados, que podem ser um bom ponto de amparo para dividir as dificuldades e também divulgar seus negócios”.
A CLIENTE QUE FICOU
Amanda Ertel conheceu a extensão de cílios pelo Instagram. Achou bonito, se interessou e marcou a primeira sessão. Mas o resultado não a convenceu. Procurou outra profissional, e a história mudou. “Depois procurei outra profissional e aí sim me adaptei. Hoje já faz mais de dois anos que uso extensão de cílios e não consigo mais ficar sem”, conta.
O impacto que o procedimento teve na rotina dela vai além da estética. “Mudou bastante a minha autoestima. Quando estou com os cílios feitos, parece que já acordo pronta para o dia, mais arrumada e confiante, mesmo sem maquiagem”, diz Amanda.
Para ela, a confiança na profissional não vem apenas do resultado visual. “O principal é o trabalho bem feito, mas o atendimento também conta muito. O ambiente, o cuidado e a forma como a profissional atende fazem toda a diferença para eu confiar no serviço”. Ela faz o procedimento de forma quinzenal, paga o pacote na primeira ida do mês e considera o preço justo pelo que recebe. Nunca teve problemas com o serviço e não pensa em trocar. “Me sinto segura, o atendimento sempre é impecável”, resume.
A experiência de Amanda ilustra algo que Julia e Bruna sabem bem: fidelizar uma cliente não é só uma questão técnica. Uma cliente fiel, com agenda recorrente e pagamento organizado, representa exatamente o tipo de estabilidade de renda que profissionais autônomas precisam construir. É uma construção de confiança que começa no primeiro contato e se sustenta no cuidado de cada atendimento.
AUTONOMIA COM RESPONSABILIDADE
O discurso de “ser dona do próprio tempo” tem charme. Mas Julia e Bruna são honestas sobre o que veio junto com a liberdade. “Com certeza o empreendedorismo trouxe autonomia. A maior responsabilidade é que você precisa ter controle financeiro para conseguir manter os custos de um negócio”, resume Julia.
Um passo concreto nessa direção é a formalização. Bruna se formalizou como MEI, Microempreendedora Individual, e afirma que separar pessoa física de pessoa jurídica transformou sua organização profissional: “Separar PF de PJ ajudou muito”. Angélica Weirich reforça a importância desse passo: “A formalização é muito importante, pois a partir dela é possível emitir nota fiscal, vender para empresas, participar de licitações e ampliar o mercado de vendas. Além de estar amparada pelos benefícios do INSS, podendo ter direito a salário-maternidade, auxílio por incapacidade temporária e contagem para a aposentadoria”.
Para quem ainda está em dúvida se vale a pena começar, Julia tem um recado direto: “Não desistam no início. Não é um caminho fácil, mas vale a pena”. Bruna vai além, e a mensagem carrega o peso de quem já enfrentou o medo e chegou ao outro lado: “Se eu pudesse incentivar todas a serem empreendedoras e terem seu próprio negócio, eu incentivaria. No começo não é fácil, mas nada é fácil no começo mesmo. É a melhor coisa conquistar a sua independência financeira sem precisar dar satisfação para ninguém”. A independência, no entanto, tem um preço real: noites atendendo depois das 22h, meses sem retorno no início e a responsabilidade de sustentar o negócio sozinha, mesmo quando a agenda falha.
Por trás de cada par de cílios aplicado com precisão, há uma profissional que aprendeu, muitas vezes na prática e no erro, a gerir um negócio, precificar um serviço, fidelizar uma cliente e se sustentar. O procedimento dura algumas horas. O trabalho que o torna possível não para nunca. Em Cascavel, são 32.455 empresas ativas lideradas por mulheres, e muitas delas começaram exatamente assim: com um curso, uma maca e a decisão de apostar no próprio trabalho.

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