Giselle: o amor que dança depois da morte
- Júlia Novello

- há 5 dias
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Clássico romântico do século XIX une traição, luto e perdão em uma das obras mais conhecidas do balé de repertório

Por Júlia Novello | Agência Abre Aspas
Com saias de tule, corpetes bordados, aldeias encantadas e promessas de amor, os balés de repertório muitas vezes parecem tocar o mesmo imaginário dos contos de fada. Em Giselle, porém, a delicadeza da cena não conduz a um final feliz. A obra reúne amor, mentira, morte e perdão, elementos que fizeram do balé estreado em 1841 uma das peças mais conhecidas do repertório clássico.
Com música de Adolphe Adam, libreto de Théophile Gautier e Jules-Henri Vernoy de Saint-Georges, e coreografia original de Jean Coralli e Jules Perrot, Giselle estreou em 28 de junho de 1841, na Ópera de Paris. A narrativa acompanha uma jovem camponesa de saúde frágil que encontra na dança uma forma de existir. Amada pela aldeia, Giselle também desperta o interesse de Albrecht, um nobre que se disfarça de aldeão para se aproximar dela. Ao mesmo tempo, Hilarion, outro morador da vila, tenta conquistar a jovem, sem ser correspondido.
O primeiro ato avança com leveza. A aldeia é clara, os figurinos têm cores quentes, a música sustenta a sensação de festa e Giselle aparece como uma personagem luminosa, quase infantil em sua confiança. A harmonia, no entanto, começa a se quebrar quando Hilarion desconfia de Albrecht. Aos poucos, o balé deixa a aparência de sonho e prepara o terreno para a tragédia.
Com a chegada de nobres à aldeia, a identidade de Albrecht vem à tona. Ele não era o jovem simples que dizia ser. Além disso, já estava prometido a Bathilde, mulher de sua mesma posição social. Tomada pela dor da traição, Giselle perde o controle diante de todos e protagoniza uma das cenas mais conhecidas do balé clássico: a cena da loucura.
Na interpretação de Marianela Núñez, em montagem do Royal Ballet, a personagem atravessa o palco como se o corpo já não obedecesse à razão. Os cabelos soltos, a respiração inquieta, os passos que antes pareciam leves e agora surgem quebrados pela dor constroem uma cena em que a técnica não serve apenas à beleza. Serve ao colapso da personagem. O som das sapatilhas contra o linóleo do palco reforça a tensão até a morte de Giselle, momento em que o conto romântico perde sua inocência.
O segundo ato muda completamente a atmosfera. Giselle está enterrada, e Albrecht volta ao túmulo para se despedir. A floresta toma o lugar da aldeia. A luz azulada substitui o brilho do primeiro ato. É nesse espaço entre o luto e o sobrenatural que surgem as Wilis, espíritos de mulheres que morreram antes do casamento ou com o coração partido. À noite, elas saem dos túmulos para atrair homens e fazê-los dançar até a morte.

A entrada das Wilis está entre os momentos mais marcantes da obra. Vestidas de branco, com véus, saias longas e movimentos sincronizados, as bailarinas do corpo de baile criam uma imagem de beleza e ameaça ao mesmo tempo. A precisão coletiva é fundamental: cada deslocamento precisa parecer suspenso, como se os corpos não tocassem completamente o chão.
Myrtha, a rainha das Wilis, conduz esse universo com autoridade. Quando Giselle é incorporada ao grupo, entende que não poderá voltar à vida nem ao amor que imaginou viver. A melancolia da personagem aparece na música, no olhar e na contenção dos gestos. Mesmo morta, ela continua presa ao sentimento que a destruiu.
Hilarion também visita o túmulo de Giselle e é cercado pelas Wilis. Sem conseguir escapar, dança até a morte. Albrecht, por sua vez, recebe outro destino. Condenado a dançar, ele só sobrevive porque Giselle intercede por ele. O pas de deux entre os dois, no segundo ato, concentra a força emocional da obra: eles dançam juntos, mas pertencem a mundos diferentes. O toque é sempre incompleto. O amor existe, mas já não pode reparar o que foi perdido.
A dificuldade de Giselle não está apenas na técnica. A bailarina precisa construir duas personagens dentro da mesma personagem. No primeiro ato, Giselle é jovem, apaixonada e viva. No segundo, é memória, ausência e perdão. Essa passagem exige controle físico, leveza, intenção no olhar e capacidade de transformar movimento em narrativa.
A obra também exige do corpo de baile uma presença rara. As Wilis não são apenas cenário para a protagonista. Elas sustentam a tensão do segundo ato e dão forma visual ao destino das mulheres abandonadas. Quando surgem em conjunto, o palco deixa de ser espaço de romance e passa a ser território de julgamento.
Por isso, Giselle continua atravessando gerações. A história pode ser lida como um melodrama romântico, mas também como uma narrativa sobre confiança quebrada, culpa, morte e perdão. O amor que a peça apresenta não é simples nem vitorioso. Ele carrega perda, desigualdade e silêncio.
Ao terminar, o balé não entrega uma resposta confortável. Giselle salva Albrecht, mas não recupera a própria vida. Hilarion morre sem ter sido amado. As Wilis retornam aos túmulos. O amanhecer encerra a punição, não a tragédia. Talvez seja essa a força da obra: mostrar que nem todo amor encontra final perfeito e, ainda assim, algumas histórias permanecem porque continuam nos fazendo olhar para aquilo que a beleza tenta esconder.



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