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Filme The End of Evangelion expõe a ruína da sociedade japonesa

Esperança no fim da série dá lugar ao colapso no longa-metragem The End of Evangelion


Toda questão material entorno da produção levou a decisões criativas, como animações estáticas e simplificadas | Crédito da foto: Netflix
Toda questão material entorno da produção levou a decisões criativas, como animações estáticas e simplificadas | Crédito da foto: Netflix

Por Lucas Mendes | Agência Abre Aspas


No decorrer da série animada Neon Genesis Evangelion, acompanhamos Shinji Ikari, um menino convocado por seu pai, Gendo Ikari, para servir à organização militar conhecida como NERV, quinze anos após um evento cataclísmico que abalou a Terra. Shinji torna-se piloto do robô gigante EVA-01 para enfrentar os monstros denominados “Anjos”.


O protagonista aceita a missão em New Tokyo-3 para ficar próximo do pai, que nunca o acolheu. No caminho, faz amigos, como Misato, Asuka, Ayanami e Kaworu, algo complexo e completamente novo em sua vida. Além de introvertido, Shinji nunca compreendeu bem as relações sociais e vive mergulhado na própria melancolia.

Mesmo diante da violência de um mundo pós-apocalíptico e de todas as questões que tornam Shinji alguém travado, a série apresenta um tom intimista durante sua construção e chega a um final marcado pela esperança.


O filme The End of Evangelion surge como um final alternativo à série, que havia terminado com uma linguagem bastante experimental. No longa-metragem, esse caminho dá lugar a uma narrativa mais violenta, incômoda e cruel.


Apesar das propostas dramáticas distintas, tanto o final da série quanto o desfecho de The End of Evangelion partem de uma mesma linguagem experimental. Ainda assim, houve fãs que rejeitaram o encerramento do anime por sua não linearidade, que é justamente uma de suas forças. Em contrapartida, há quem valorize o filme apenas por seu impacto violento e perturbador, uma leitura que reduz e empobrece ambas as resoluções.


JAPÃO MOLDOU ANNO E SHINJI


Quanto mais se entende a formação social japonesa do período, mais a obra de Hideaki Anno, autor de Evangelion, ganha camadas de leitura. Anno nasceu em 1960 e cresceu durante os anos 1970, momento em que a indústria de animação japonesa estava em consolidação. Isso o colocou em contato direto com essa maneira de produzir, pela qual se tornou aficionado. No fim daquela década, ocorreu o primeiro Anime Boom, consolidando os animes como fenômeno cultural e fortalecendo a cultura otaku.


O termo otaku surge para nomear, de forma pejorativa, fãs muito dedicados de ficção científica e animação no Japão. No Brasil, em alguma medida, aproxima-se do uso também pejorativo de “nerd”. Esses otakus passaram a ser conhecidos pela obsessão em catalogar seus assuntos de interesse. Anno fazia parte desse movimento antes mesmo de fundar o estúdio de animação Gainax, responsável por trazer ao mundo Neon Genesis Evangelion.


Por meio de seu protagonista, o autor faz uma crítica de dentro do ecossistema otaku para o próprio meio em que está inserido. “Nos animes que faço, odeio as partes em que vejo a mim mesmo”, diz Hideaki Anno, em entrevista para alunos de sua antiga escola em Ube City, no ano de 1999.


Os otakus geram muitos debates sociais no Japão. Após a expansão do movimento nas décadas de 1970 e 1980, parte da crítica passou a interpretá-los como expressão de um homem deslocado da estrutura social. Durante o Japão Imperial, o papel masculino estava associado ao militarismo. Esperava-se que o homem servisse e defendesse o país. A partir da estagnação econômica dos anos 1990, esse ideal deu lugar ao salaryman, o trabalhador de escritório preso a longas jornadas e a uma rotina repetitiva.


O otaku dos anos 1990, década em que a obra surgiu, estava entre esses dois modelos: alguém que não era convocado à guerra, mas também rejeitava a monotonia da vida corporativa, permanecendo à margem de ambos.


Shinji representa esse impasse. Ele não quer encarar a realidade de ter sido escolhido para pilotar o robô gigante, como se fosse uma espécie de salaryman do EVA. Ao mesmo tempo, quer que alguém decida por ele, como no ideal de obediência herdado do Japão Imperial.


THE END OF EVANGELION


Anno é conhecido tanto por sua criatividade de roteiro quanto por sua habilidade como animador. A complexidade presente em The End of Evangelion torna difícil decidir o que destacar primeiro: a animação, o roteiro ou a caricatura da sociedade japonesa.


O autor afirmou, pouco tempo antes de dar início à produção da obra, que, naquele momento de sua vida, estava apenas focado em não se matar. Essa ruína psicológica em que se encontrava, somada à crise da sociedade japonesa, dá o tom do filme.


Na obra, apresenta-se uma sociedade caótica, à beira do fim, na qual as decisões são tomadas por um pequeno grupo de poder, composto por doze membros, chamado de Comitê de Instrumentalidade Humana. Em todos os momentos em que o comitê aparece reunido, a sensação de mesquinharia toma conta da tela, pois suas escolhas servem para manter o poder de um bloco seleto às custas de toda a raça humana. Por outro lado, é perceptível, e particularmente irritante, o quanto Shinji é medroso, odeia a si mesmo, vê-se como um pária em vários momentos e permanece preso a esse pensamento.


Todos esses elementos se encaixam de tal forma que o longa se torna uma proliferação do caos. O filme radicaliza a proposta alternativa de Anno, indo além de um novo desfecho em relação à série. Ele reformula o tom da franquia, sobretudo no plano visual, e desloca seu drama para uma visão mais pessimista da humanidade.


O talento do autor aparece na forma como o filme transforma personagens, engrenagens, maquinários e explosões em imagens fluidas e coloridas. Essa construção cria uma experiência visual desconfortável para quem assiste e dialoga com um roteiro denso, que exige tempo de digestão.


A partir do momento em que Shinji se masturba diante de Asuka hospitalizada, o filme rompe com o tom intimista da série e mergulha em um cenário perturbador, voltado à degradação coletiva. A narrativa deixa de valorizar o indivíduo para questionar seu próprio lugar em um mundo corrompido, deslocando o foco das personagens para a dinâmica caótica do todo.


Com isso, o conflito passa a ser reativo e constante, conduzido por um encadeamento visual intenso e quase sem pausas. As alegorias religiosas deixam de funcionar apenas como símbolos e ganham presença ativa na experiência apocalíptica, marcada por violência, excesso e ceticismo.


A construção se torna essencialmente visual, tratando temas como isolamento e medo por meio de imagens profanas e impactantes. As personagens perdem protagonismo: Asuka se torna mais agressiva; Shinji, mais frágil; enquanto a humanidade, como coletivo, passa a ocupar o centro do conflito.


O filme se destaca como experiência audiovisual ao combinar uma estética grandiosa, simbolismo religioso e trilha sonora erudita, ressignificando os conflitos da série sob uma ótica mais transgressiva e pessimista.

Em tempo, não há resposta definitiva. A obra propõe múltiplas leituras e rejeita interpretações absolutas. Sua conclusão sugere o fracasso humano em todas as escalas, sintetizado na fala final de Asuka: “Que nojo”. Não há redenção, apenas a esperança no próprio apocalipse.



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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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