Entre o luto e o colapso
- Karoline Martins

- 17 de mai.
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Após a perda repentina do marido e um diagnóstico severo de saúde, Bárbara encontrou na maternidade a força para continuar

Por Karoline Martins | Agência Abre Aspas
“Aquele sábado já começou estranho”, recorda Bárbara Lima.
Bárbara Lima e Mayk Toledo construíram a vida juntos desde a adolescência. Com a chegada do primeiro filho, os planos começaram a se organizar com mais seriedade. Para isso, ele trabalhava em outra cidade e voltava aos finais de semana, enquanto ela ficava em casa conduzindo o dia a dia com a criança. A vida seguia entre sacrifícios e expectativas para o futuro, até que um fevereiro incomum mudou o rumo.
O sábado, 9 de fevereiro de 2019, amanheceu diferente. Ela estava em Cascavel, enquanto o marido estava em Marechal Cândido Rondon, com o filho de 2 anos e 8 meses. Logo ao amanhecer, acordou antes do habitual, por volta das 5h, tomada por um pressentimento estranho. Cerca de 20 minutos depois, ele também despertou e comentou que estava com uma sensação inquieta. O dia se passou normalmente, sem surpresas.
À noite, quando o expediente de seu trabalho se aproximava do fim, recebeu a ligação de um amigo do casal, alguém de quem jamais esperaria uma chamada naquele horário. Ao atender, ele perguntou imediatamente onde ela estava e pediu que fossem, às pressas, para a cidade onde o marido se encontrava. Não quis dar mais informações. Naquele instante, ela percebeu que se tratava de algo grave. Encontraram-se na casa da mãe dela e seguiram viagem. Era um percurso de 75 quilômetros, mas aquela viagem pareceu uma eternidade. “Foi a viagem mais longa da minha vida”, relembra. No carro, as mãos suavam, e o olhar voltava repetidas vezes para o celular, à espera de uma mensagem. A inquietação e o medo se intensificavam a cada quilômetro.
Ao chegar à casa onde o marido morava, encontrou o local cheio de pessoas, mas em silêncio. Perto do carro, havia um homem que ela não conhecia. Sem hesitar, perguntou: “Cadê o Mayk?”. Ele pensou por um instante e respondeu: “O Mayk morreu”. Por um momento, ela não reagiu. Entrou na casa, encontrou o filho e, ao voltar, viu a mãe chorando na porta. Foi ali que o corpo cedeu: o coração acelerou, a respiração perdeu o ritmo e as lágrimas desciam. “Naquele momento, eu senti algo que não sei descrever até hoje. Ver minha mãe chorando era como se fosse a confirmação do acontecido”.
A FICHA CAI
Com o olhar perdido, Bárbara Lima relembra um dos episódios mais dolorosos de sua vida: contar a uma criança de apenas dois anos que o pai havia morrido de forma repentina. A criança já havia perguntado diversas vezes pelo pai durante o dia, e isso se repetiu durante a noite. Ela respirou fundo, buscou forças onde não havia e decidiu contar. “Eu resolvi tentar explicar e disse que o papai não voltava mais e que ele estava bem onde estava. Eu não podia dizer muito, meu filho tinha só dois anos e oito meses”, relata, com a voz embargada. Após ouvir aquilo, a criança se levantou, olhou fixamente para a janela e disse: “O papai tá ali me olhando”. Depois, simplesmente deitou e adormeceu. Até hoje, Bárbara não sabe explicar o que houve.
Nos dias seguintes, ela precisou lidar não só com a própria dor, mas também com os questionamentos do filho pequeno, que ainda tentava entender a ausência do pai. “Meu pai já está vindo?”, perguntava a criança ao ouvir qualquer barulho de carro na rua, antes de correr até o portão na esperança de encontrá-lo. Essa falta começou a aparecer nos pequenos detalhes do dia a dia. Sempre que via o carro do pai na garagem, o menino logo dizia: “É o carro do pai”, antes de voltar a perguntar por ele. Enquanto tentava enfrentar o próprio luto, Bárbara também precisava lidar com a saudade e os questionamentos do filho.
A psicóloga Taynara Doneda explica que falar sobre a morte com uma criança exige responsabilidade, mesmo em um momento de dor. “Na tentativa de protegê-las, muitos adultos usam metáforas como ‘foi dormir’ ou ‘virou estrelinha’, mas isso pode acabar confundindo a criança. A verdade é importante. A criança não precisa de todas as informações, mas precisa da verdade para conseguir entender. Quando você esconde ou inventa, pode gerar ainda mais confusão e insegurança na cabeça da criança”.
Datas importantes, como o aniversário do filho, o próprio aniversário dela e o Dia dos Pais, faziam a ausência bater forte, acompanhada por um sentimento de injustiça e dor. “Eu falava com ele sobre o aniversário do nosso pequeno. Saber que ele queria estar ali e não podia me destruía. Hoje em dia é difícil ver pais presentes, e o pai do meu filho, que queria, não teve a chance”, desabafa.
Durante o primeiro ano após a perda, convivia com a sensação de que aquilo ainda não havia terminado, como se o telefone pudesse tocar ou alguma surpresa no aniversário ainda fosse acontecer. O luto não seguia uma lógica: havia dias em que precisava se manter firme pelo filho, especialmente em datas como o aniversário dele, e outros em que o choro silencioso vinha sem aviso.
Quando estava sozinha, encontrava outras formas de lidar com a ausência. Chorava quando ninguém via e guardava, em uma caixa, lembranças que deixa até hoje em cima do guarda-roupa para que ninguém mexa. Em meio à dor, vieram também os questionamentos a Deus. Até hoje, parte dela encara tudo como uma espécie de piada cruel; outra tenta, aos poucos, aprender a seguir.
DIAGNÓSTICO
Segundo a psicóloga Taynara Doneda, o luto pode impactar não só o emocional, mas também o corpo. Quando esse processo se torna intenso ou prolongado, o estresse vivido pela pessoa pode aumentar a vulnerabilidade do organismo, contribuindo para o surgimento de sintomas físicos e até para o desenvolvimento de problemas de saúde.
No caso de Bárbara, o luto atravessou o emocional e também a forma como passou a enxergar o próprio corpo. Depois da morte, ela deixou de olhar para si mesma e a vida passou a acontecer no automático, concentrada apenas em continuar existindo e cuidar do filho. Os sinais começaram a aparecer aos poucos, mas eram ignorados em meio ao desgaste e à dor. Lidar com a tristeza, suportar a ausência e assumir a responsabilidade de criar o filho sem o companheiro fizeram com que ela não percebesse que o corpo começava a chegar ao limite.
Foi nesse cenário que o diabetes entrou em sua vida. No fim de 2019, aconteceu a primeira internação. Após passar mal em uma comemoração de aniversário, ela procurou atendimento no pronto-socorro e recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 1. No início, muitas pessoas chegaram a duvidar do diagnóstico. Ela mesma demorou para acreditar e não deu a importância que precisava. “Eu não levei a sério, achei que, depois de passar pelo luto, não vinha mais nada”, admite.
Segundo a enfermeira Márcia Rosa, o diabetes tipo 1 pode surgir também na vida adulta. A doença acontece quando o organismo deixa de produzir insulina corretamente, hormônio responsável por levar a glicose para dentro das células e transformá-la em energia. Sem essa função, o açúcar permanece acumulado no sangue. De acordo com a enfermeira, períodos de grande estresse emocional e desgaste físico podem contribuir para que a doença se manifeste, principalmente quando o organismo já está fragilizado.
Ao longo dos anos, os episódios se repetiram. Foram idas frequentes ao hospital, momentos em que passava mal, recebia atendimento e voltava para casa sem mudanças na rotina. O diagnóstico seguia sendo tratado com indiferença e sem cuidado.
A virada veio quase quatro anos depois. Bárbara sofreu uma cetoacidose diabética, uma complicação severa da doença, caracterizada por altos níveis de açúcar e cetonas no sangue.
Ainda de acordo com a enfermeira, a cetoacidose ocorre quando o corpo fica sem insulina suficiente e passa a quebrar gordura para sobreviver, produzindo substâncias chamadas cetonas. Em excesso, elas tornam o sangue ácido e provocam um desequilíbrio grave no organismo, considerado uma emergência médica. Entre os sintomas mais comuns estão sede intensa, boca seca, náuseas, vômitos, fraqueza e cansaço extremo. Em casos mais severos, a complicação pode levar à morte.
Naquela internação, precisou ser atendida às pressas e encaminhada para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Sem leitos disponíveis em sua cidade, foi transferida para Chopinzinho, a cerca de 138 quilômetros de distância da família.
Além da gravidade física, havia também o sofrimento emocional de enfrentar a internação longe do filho e das pessoas próximas. Durante aqueles dias, o medo deixou de estar apenas na doença e passou a envolver também o receio de que seu filho crescesse sem a presença materna.
Depois de uma semana internada, recebeu alta com outro olhar sobre a própria vida. Entendeu que precisava cuidar de si por ela e, principalmente, porque havia uma criança que ainda corria para seus braços todos os dias.
Foi a partir dessa internação que decidiu iniciar um tratamento adequado e reorganizar a própria rotina. Hoje, convive com o diabetes de forma mais consciente, mantendo acompanhamento médico e encarando a doença com mais atenção, disciplina e responsabilidade sobre o próprio corpo.
RECOMEÇO
Atualmente, Bárbara reconstruiu a vida. Casada novamente, é mãe de dois filhos. O medo ainda permanece nos pequenos sinais: mudanças no corpo ou na rotina são suficientes para despertar a lembrança de tudo o que já viveu e o receio de vivenciar algo parecido novamente.
Seguir em frente não foi simples. Por muito tempo, a ideia de reconstruir a própria vida vinha acompanhada de um peso silencioso: o de estar deixando para trás quem partiu. Para a psicóloga Taynara Doneda, esse sentimento é mais comum do que parece. Muitas vezes, a pessoa se mantém ligada à dor como forma de preservar o vínculo com quem se foi, como se, ao deixar de sofrer, estivesse deixando também a pessoa para trás.
Bárbara reconhece esse processo na própria trajetória. “Foi preciso muita coragem para me permitir amar de novo. No começo, eu tinha medo, achava que seria só eu e meu pequeno. Conhecer meu atual marido não anula a falta que o Mayk faz”, conta.
Hoje, o cuidado consigo mesma passou a ocupar outro espaço. “Eu achei que não vinha mais nada, veio e quase me levou também. Hoje eu cuido de mim, porque tem gente que precisa de mim, mas também porque eu entendi que não posso me deixar de lado de novo. Depois do luto, parece que a gente perde o sentido de tudo, como se nada mais importasse. É difícil levantar, mas a gente precisa. Não é só por quem ficou, é também pela gente. Porque, mesmo depois de tudo, a vida continua”, afirma, antes de dar o último gole no café

Reportagem linda, com sensibilidade e carinho👏🏼