Eduardo Rezende da Silva: o tributo a um avô bem-humorado e a convivência com o Alzheimer
- Raissa Rodrigues

- há 2 dias
- 6 min de leitura
Entre as lembranças e os desafios do Alzheimer no dia a dia

Por Raissa Silva Rodrigues | Agência Abre Aspas
“Em todo lugar em que ele estava, ele chamava para ir embora. O mais engraçado era quando fazia isso estando na própria casa”, conta Karla Rezende Carvalho, neta de Eduardo Rezende da Silva. Ela conviveu por muitos anos com o avô e acompanhou de perto os efeitos do Alzheimer em sua vida. Karla relembra essa história com humor e risadas. Foi a forma que encontrou para lidar com a doença do avô, durante a convivência e após a morte dele.
O Alzheimer apagou parte das memórias de Eduardo, mas não o afeto e o humor presentes em sua relação com a família.
QUEM ERA EDUARDO?
Eduardo Rezende da Silva gostava de dirigir, jogar baralho e pescar. Após anos trabalhando na agricultura, decidiu se afastar da rotina pesada do campo para descansar. Foi casado com Izolina Aparecida da Silva por 61 anos. Juntos, tiveram oito filhos, 17 netos e nove bisnetos. Eduardo era brincalhão, gostava de conversar e de contar histórias antigas. Com o avanço do Alzheimer, porém, esses hábitos foram sendo deixados de lado aos poucos. Mesmo assim, nunca deixou de reconhecer o próprio nome. Karla relata que, quando perguntavam quem ele era, respondia com firmeza: “Sou Eduardo Rezende da Silva”. Ele faleceu em dezembro de 2021, aos 86 anos, após uma queda durante uma caminhada.
MEMÓRIAS E MOMENTOS
Logo no início da conversa, ao ser perguntada sobre as lembranças do avô antes do avanço da doença, Karla demorou a responder. “Eu não consigo lembrar do meu avô antes da doença. Desde que me entendo por gente, ele já tinha Alzheimer”. A convivência entre os dois acabou sendo construída justamente durante esse período. “Eu acho que só me aproximei mais do vô por conta do Alzheimer”, diz. A relação passou a acontecer em pequenos momentos do cotidiano: conversas, histórias e risadas. Karla gostava de ouvi-lo. “A gente conversava, ele ria muito das próprias histórias e eu inventava mentiras bobas só para fazer ele rir também”, relembra.
Nas memórias que ainda guarda, ela se recorda de um presente que recebeu dele na infância. “Uma vez ele me deu um ursinho. Não lembro muito bem, mas é a primeira lembrança que me vem à cabeça”. Mesmo sem reconhecer totalmente a neta em alguns momentos, Eduardo sempre demonstrava carinho. “Quando me via, dizia que eu era muito bonita. Ele perguntava quem eu era e eu tentava explicar que era filha da Cacilda, uma de suas filhas. Às vezes parecia entender, outras não”. Com o avanço da doença, a família passou a adaptar situações do dia a dia para conseguir lidar com algumas dificuldades.
Em muitos momentos, pequenas invenções eram usadas para convencer Eduardo a realizar tarefas simples. “Uma vez tive que falar que o pão da mesa tinha vindo de Minas Gerais, senão ele não queria comer”, conta Karla, rindo da situação. Ela também se recorda de um dos raros momentos de afeto mais direto entre os dois.
“Teve uma vez que eu estava chorando e ele sentou do meu lado para me consolar. Falou para eu não chorar”.
ALZHEIMER NA ROTINA DA FAMÍLIA
Apesar dos momentos leves, a rotina da família também era marcada por dificuldades. No início da doença, Eduardo ainda conseguia realizar atividades básicas sem auxílio. Com o avanço do Alzheimer, porém, passou a depender cada vez mais dos familiares. Sobre algumas afetações da doença, a Psicóloga Clinica Ellen Felipe explicou como a memória episódica é comprometida. “Com a progressão da doença, ocorre um avanço do comprometimento cerebral, especialmente em áreas relacionadas à memória episódica, planejamento, tomada de decisão e autonomia funcional. Como consequência, tarefas antes automáticas passam a exigir supervisão e, posteriormente, assistência integral”.
Os filhos o visitavam com frequência e também o recebiam em suas casas, mas a principal responsável pelos cuidados foi a filha Reis, nome como prefere ser chamada. Ela acolheu os pais em casa para acompanhar de perto a rotina do pai. Era ela quem o levava às consultas médicas, organizava os remédios, preparava as refeições e auxiliava nos cuidados diários. Mesmo diante da sobrecarga, fazia questão de manter momentos de lazer na rotina do pai. Aos domingos, levava Eduardo e Izolina para almoçar fora, além de manter as comemorações de aniversário em família, mesmo quando ele já não compreendia mais a data.
Karla conta que o banho era uma das maiores dificuldades da rotina. “Ele não gostava de tomar banho. Minha tia precisava levá-lo até o banheiro, mesmo ele resistindo”, relembra. As dificuldades também apareciam em tarefas básicas. “Muitas vezes ele tirava a fralda e jogava pela casa. Teve um dia em que perdeu o controle das necessidades fisiológicas na cozinha. A gente sabia que não era culpa dele, mas era difícil lidar com aquilo”, diz Karla. Depois desses episódios, Eduardo não se lembrava do que havia acontecido. “Quem fez isso aí?”, perguntava, sem reconhecer a própria ação.
Eduardo também passou a sair sozinho de casa em alguns momentos. Karla se recorda de uma ocasião em que ele pegou um táxi e foi até sua casa, no distrito de Yolanda, que ficava a mais de 20 quilômetros de distância. A situação assustou a família, já que ninguém sabia onde ele estava. Apesar do susto, Eduardo chegou em segurança.
Mesmo com as limitações, Eduardo permaneceu ativo por muitos anos. Caminhava com frequência e manteve certa autonomia até pouco antes da morte. Conforme a doença progredia, também passou a apresentar comportamentos repetitivos e teimosos. Insistia em tomar café várias vezes ao dia e voltou a fumar após ver trabalhadores da construção civil em sua casa. “A gente falava para ele parar, mas acabava deixando, porque sabíamos que ele já estava em uma fase muito avançada da doença”, relata Karla.
AMOR ALÉM DA MEMÓRIA
Casados por mais de seis décadas, Eduardo e Izolina permaneceram juntos durante todas as fases da doença. Mesmo sem lembrar claramente da esposa, Eduardo continuava chamando por ela. “Zolina, cadê a Zolina?”, repetia ao longo do dia. Já fragilizada pela idade, Izolina não conseguia participar ativamente dos cuidados, mas permanecia ao lado do marido. Segundo Karla, os dois mantinham a convivência marcada por implicâncias e brincadeiras. “Ele mexia com a vó o dia inteiro e ela brigava com ele”, conta.
Mesmo com os desafios da rotina, o casal continuou viajando para Aparecida, no interior de São Paulo, tradição mantida pela família ao longo dos anos. A viagem exigia pausas constantes por causa das limitações de Eduardo, mas ainda assim faziam questão de mantê-la. Católicos e devotos de Nossa Senhora Aparecida, aproveitavam as viagens também para visitar familiares em Itatiba, interior paulista.
Ellen comenta também sobre as afetações que a família pode ter no contexto. “Além das alterações cognitivas, o impacto emocional sobre a família também merece atenção. O convívio contínuo com a perda gradual da autonomia e, muitas vezes, das características afetivas e comportamentais do familiar pode gerar sobrecarga emocional, estresse crônico e um luto antecipatório. Quando os familiares começam a vivenciar emocionalmente perdas antes mesmo da ausência física da pessoa”.
A DESPEDIDA
Mesmo sabendo que a doença avançava, a família não imaginava que a despedida aconteceria daquela forma. Durante uma caminhada com a filha Reis, Eduardo caiu e bateu a cabeça no meio-fio. Segundo Karla, ele já havia passado por um procedimento cerebral anteriormente, e a parte que não havia sido afetada foi justamente a que sofreu o impacto da queda. Eduardo foi encaminhado ao hospital e entrou em coma. Naquele momento, a família percebeu que ele dificilmente resistiria. “Quando vimos ele naquela situação, começamos a pedir para Deus levá-lo, para que não sofresse mais”, conta. Filhos, netos e bisnetos foram ao hospital para a despedida. Karla lembra da dificuldade de deixar o local após vê-lo pela última vez. “Saí do hospital e fui andando até a casa da minha tia chorando desesperada”, relata.
No dia seguinte, Eduardo faleceu. Cerca de duas semanas antes do acidente, Karla diz ter sentido que aquele poderia ser um dos últimos momentos importantes entre os dois. “Ele começou a falar que queria dirigir e me levar para ver os bois”, lembra. Durante a conversa, os dois se abraçaram. Embora não tenha sido o último abraço, foi o que permaneceu marcado em sua memória. O velório reuniu familiares, amigos e conhecidos. “Todo mundo sabia que isso ia acontecer um dia, mas ninguém está preparado para viver um luto”, diz Karla. Ela conta que o momento mais difícil foi o fechamento do caixão. “Ali a gente entendeu que era o fim”.
DEPOIS DA DESPEDIDA
A ausência de Eduardo ainda permanece na rotina da família. Reis, que continua morando com Izolina, ainda sente a falta do pai no cotidiano. “Fui perguntar para minha tia por quanto tempo meus avós foram casados e ela começou a chorar”, relata Karla. Anos após a morte de Eduardo, a saudade continua presente, embora de maneira diferente. “Não é que a dor passe, a gente aprende a conviver com ela”, diz. Os vídeos gravados por Karla no celular se transformaram em uma das formas de manter viva a memória do avô. “Tenho vários vídeos dele. Só de lembrar já dá vontade de rir”, conta.
Algumas lembranças também aparecem em situações simples do dia a dia. “Quando como biscoito de polvilho daqueles grandes, lembro dele, porque ele gostava muito”. Ao descrever o avô em uma palavra, Karla responde sem hesitar: “Engraçado”. Para ela, o humor foi uma das formas que Eduardo encontrou para atravessar a doença junto da família.
“Claro que o Alzheimer era algo ruim, mas acho que foi também o que aproximou a gente”. Karla deixa um conselho para quem convive com uma pessoa com diagnóstico de Alzheimer: “Aproveite os momentos, ajude quem cuida e diga que ama, sempre”.

Comentários