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Como uma sala de fuga transformou enigmas em empreendimento no Oeste do Paraná

Atualizado: há 1 dia

Escape room mostra como criatividade, gestão e experiência podem sustentar um pequeno negócio


Na unidade de Cascavel, o Minos transforma cenários, enigmas e controle de tempo em serviço de entretenimento | Crédito da foto: Mateus Dias
Na unidade de Cascavel, o Minos transforma cenários, enigmas e controle de tempo em serviço de entretenimento | Crédito da foto: Mateus Dias

Por Mateus Dias | Agência Abre Aspas


Você entra em uma sala na qual a luz oscila por um instante e logo depois se apaga completamente, lá dentro, vocês buscam maneiras de sair enquanto avistam na parede um cronômetro, que será seu maior inimigo a partir do momento em que se inicia contagem regressiva. O ar é preenchido por uma trilha sonora que dita o ritmo dos participantes. Cada objeto no cenário: um livro antigo sobre a mesa, um quadro levemente inclinado, um cadeado de combinações, deixa de ser um item qualquer para se tornar uma peça fundamental de um quebra cabeça maior.


A experiência imersiva do escape room começou, e, para os jogadores, o mundo exterior deixou de existir. No entanto, enquanto o grupo se desdobra para decifrar enigmas e encontrar chaves ocultas, uma engrenagem invisível opera nos bastidores, monitorando como estão as tentativas de destrancar cadeados e resolver desafios, quando necessário passando dicas aos visitantes, preparando as salas e proporcionando aquele momento de diversão.


Por trás da adrenalina e do entretenimento, existe um modelo de negócio que desafia as convenções tradicionais do comércio. Manter essa operação do escape room exige muito mais do que criatividade narrativa; demanda uma gestão de custos, estratégias de marketing para atrair o público para uma ideia relativamente nova na sua região, sendo um dos poucos espaços a operar esse modelo de entretenimento.


É o empreendedorismo onde o produto comercializado não é um objeto, mas uma memória fabricada através da lógica e da imersão. Um exemplo emblemático dessa transição do jogo para a gestão é Minos, uma empresa que nasceu da paixão pelos desafios e se transformou em uma rede com presença em múltiplas cidades no Paraná. No lugar de vender um produto físico, o Minos comercializa tempo, enigma, cenário e memória. É daí que nasce o desafio empresarial: transformar uma experiência de uma hora em um negócio sustentável.


INOVAÇÃO NO ENTRETENIMENTO


Para compreender o sucesso de negócios como o Minos, é necessário olhar para a teoria que sustenta a inovação moderna. Segundo Marcos Ambrósio, consultor do Sebrae, a inovação não se limita à criação de algo inteiramente novo, mas sim à aplicação de diferenciais competitivos que geram valor real. Ele a classifica em três frentes principais: produto, processo ou modelo de negócio.


No caso dos escape rooms, a inovação é frequentemente focada na melhoria contínua da experiência do usuário, seja nos testes das salas, ajuste de dificuldade ou temas dos espaços.


O consultor destaca a importância da viabilidade comercial. "A inovação pode ser incremental, que é a maior parte dos casos, 98% a 99%. O empreendedor está melhorando, fazendo uma pequena melhoria ou ajuste. Mas a inovação de fato não existe sem resultado. Caso contrário, trata-se apenas de um inventor que criou algo novo, mas que comercialmente não é sustentável". Nesse contexto, o Minos se destaca por não apenas oferecer salas de fuga, mas por aplicar o conceito de “Startup enxuta”, uma experimentação rápida com frequentes feedbacks de clientes e adaptação contínua.


O proprietário do Minos, Matheus Brito, relata que o início da jornada foi marcado por constantes comprovações de hipóteses e tentativas. O negócio começou em Curitiba (PR), em 2021, em meio à pandemia de COVID-19 e total incerteza no planeta.


A aquisição de um ponto já existente exigiu uma reestruturação completa: da identidade visual à criação de salas do zero. Esse processo durou cerca de um mês entre construir, medir e aprender, processo fundamental para que a empresa sobrevivesse aos longos meses seguintes em que não pôde estar aberta ao público e aos altos custos fixos de manutenção.


Desde maio de 2022, quando a empresa abriu o escape em Cascavel (PR), ela atua em duas unidades, com três salas em cada uma, todas diferentes, passando por temas de terror, piratas, filmes e elementos da cultura pop, com cerca de 4300 clientes atendidos desde então, sendo grupos de duas até seis pessoas dependendo do tamanho e dificuldade da sala.


ROTEIRO DA GESTÃO


A criação das salas é um exercício que une dramaturgia e engenharia. “Pensamos em temas e alinhamos com o espaço que temos disponível. E daí vamos montando com base nisso, criando a história. São vários pontos que se unem no final. Não tem uma receita certinha que seguimos. Às vezes escolhemos o tema antes e trabalhamos os enigmas com base nisso, ou fazemos uma série de enigmas e daí jogamos um tema em cima e ajustamos alguma coisinha ou outra”, explica Matheus.


Às vezes, o conceito nasce de uma inspiração da cultura pop, como cenários de navios piratas, filmes de terror e até animações. Também é necessário que sejam temas possíveis de explorar enigmas dinâmicos e mecanismos interessantes para a experiência do cliente. Em outros casos, surge a partir das limitações e oportunidades do espaço físico disponível. Na unidade de Cascavel, por exemplo, a sala Prisioneiro 647 foi concebida para ser uma “porta de entrada” fácil para novos jogadores, uma sala pequena que utiliza o clichê de escapar de uma cela de prisão.


No entanto, o desafio criativo é apenas parte da equação. O controle de custos é a âncora que mantém o negócio viável. Cada sala exige investimento em objetos cenográficos, automação e segurança, além do aluguel da sala comercial utilizada. O dono destaca que a inovação tecnológica é um dos pilares do Minos, especialmente na unidade de Cascavel, onde os mecanismos eletrônicos como sensores, som e travas são “mais sofisticados”. Embora atraente, essa sofisticação aumenta a complexidade da manutenção e exige que o empreendedor possua diversas habilidades.


Essa característica de fazer tudo é comum no empreendedorismo criativo, mas pode ser um gargalo para a expansão. Para mitigar esse risco, o consultor Marcos Ambrósio sugere a utilização do “Business Model Canvas” e do “Mapa de empatia”. Essas ferramentas permitem que o gestor visualize toda a jornada do cliente e identifique quais “dores” estão sendo resolvidas. No caso do Minos, a busca por conexões sociais: seja para encontros entre amigos ou integração de empresas em eventos em um mundo cada vez mais digital.


EXPERIÊNCIA "FIGITAL"


Um dos maiores obstáculos enfrentados pelo Minos é a falta de familiaridade do público com o conceito de escape room. Diferente de um cinema ou de um restaurante, onde o consumidor sabe o que esperar, o jogo de fuga exige uma explicação prévia. O proprietário aponta que a maior dificuldade é convencer o cliente a pagar por uma experiência que ele ainda não compreende totalmente.

"Nossa maior dificuldade é divulgar o que é o escape room. O pessoal acaba não entendendo como funciona. É um tiro no escuro para quem nunca jogou, e convencer as pessoas a pagarem o valor sem saber o que vão fazer lá dentro é o nosso grande desafio", explica. Para superar essa barreira, a estratégia de marketing precisa ser híbrida, ou, como define Ambrósio, “figital” (física + digital). A parte digital é feita através das redes sociais e do site da empresa, com vídeos mostrando principalmente as salas e participações em eventos.


A jornada do cliente começa no ambiente online, por meio de redes sociais, fotos de grupos vitoriosos e sinopses no site do Minos. No entanto, a entrega de valor do produto ocorre no momento do jogo, desde a entrada, onde estão expostas nas paredes as assinaturas dos vencedores anteriores, até as salas, onde os sentidos se misturam e formam uma experiência imersiva, marcada pela luz baixa, trilha sonora, cadeados e pistas.


O Minos utiliza o “marketing de boca a boca” e a internet como suas principais ferramentas para conquistar clientes: o encantamento de quem sai da sala é o que alimenta a vinda de próximos grupos.


Além disso, a segmentação por gerações é um fator determinante. Enquanto o público entre 18 e 35 anos (maior em quantidade segundo o proprietário) busca um desafio intelectual e a estética das salas, famílias com crianças procuram uma atividade que promova a colaboração, algo mais lúdico. Entender essas nuances permite que o Minos ajuste o nível de dificuldade e a temática das salas, garantindo que a experiência seja satisfatória para um público geral, desde crianças pequenas até idosos.


O espaço também se beneficia por não ser algo repetitivo; segundo Matheus, isso faz parte do conceito do Minos desde quando a empresa ainda era apenas uma ideia. A cliente Ana Júlia Casado, que já visitou o escape room duas vezes, afirmou que, para ela, foi uma atividade que foge do padrão que estamos acostumados. “Fazer algo diferente assim com seus amigos ou com um parceiro, como foi meu caso, foram experiências que ficam na memória, resolver os desafios juntos te revela muito sobre como cada pessoa pensa”.


MERCADO CORPORATIVO E EXPANSÃO


O empreendedorismo criativo permite a exploração de novos nichos, como o mercado corporativo. A empresa desenvolveu boxes portáteis e salas temporárias que reduziram a dependência da primeira loja e permitiram a presença e a venda da experiência em eventos de grandes organizações, como o Sebrae e a empresa Fomento Paraná.

Um exemplo de sucesso foi a criação de um jogo personalizado com o tema Rota 66 para uma agência de viagens em Foz do Iguaçu (PR), permitindo que cerca de 150 pessoas jogassem o escape room. Segundo o proprietário, a dinâmica é adaptada conforme a necessidade da empresa que está contratando. “É possível fazer com qualquer tema, literalmente”.


Essa versatilidade é o que o consultor chama de escalar o modelo de negócio, assim como o Minos fez ao expandir de Curitiba para Cascavel, surgindo como uma resposta à demanda por “lugares para sair” em outra região do estado. “Seguindo o modelo de negócio e só alterando a questão dos temas das salas”, disse Matheus, permitindo que o conhecimento fosse comercializado e expandido sem a necessidade do proprietário estar presente fisicamente em todas as operações.


No entanto, expandir exige cautela. Matheus confessa que, em determinado momento, a empresa quase deu um passo maior que a perna, enfrentando dificuldades financeiras antes de estabilizar as unidades. Além disso, o negócio quase acabou em certo momento. Fomos só nós dois (Matheus e a esposa) para Curitiba. Vínhamos direto para cá e tínhamos muita saudade da família, decidimos que iríamos vender o escape, porque a gente não estava aguentando mais. Só que em outubro de 2021, no feriado do dia 12, estávamos com uma ação de personagem vivo dentro da sala. Nesse feriado atendemos das 11h às 23h sem parar. Todos os horários preenchidos, o que não é muito normal. Depois disso, decidimos manter”. Alguns meses depois, em abril de 2022, foram montadas as salas em Cascavel.


A validação de mercado em cidades não turísticas exige um estudo de viabilidade econômica e avaliação do potencial de uma “ideia nova”. Ambrósio reforça que antes de abrir uma nova unidade, o empreendedor deve realizar uma pesquisa de campo para entender se a cultura local comporta o serviço e se o público é suficiente para manter os custos fixos.


Em um cenário em que o entretenimento digital é onipresente, o valor de estar trancado em uma sala para resolver problemas reais com amigos reais torna-se um ativo precioso. O empreendedorismo criativo, personificado pela equipe do Minos, é o que permite que essa mágica aconteça de forma estruturada e sustentável.


Gerir um escape room é gerir expectativas, imersões e emoções. É equilibrar a precisão de um cronômetro, iluminação e resolução de enigmas na sala com a fluidez da narrativa. Como pontuou o consultor, o sucesso reside em entender a jornada do consumidor e garantir que cada ponto de contato seja impecável.


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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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