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Bad Bunny e o pop como trincheira na disputa por identidade e poder

Entre o mainstream e a resistência, o artista porto-riquenho transforma o sucesso global em afirmação política e disputa simbólica


Bad Bunny usa a visibilidade global para reposicionar identidades latino-americanas | Crédito da foto: Carlos Barria/Reuters
Bad Bunny usa a visibilidade global para reposicionar identidades latino-americanas | Crédito da foto: Carlos Barria/Reuters

Por Ana Bonini | Agência Abre Aspas


Em um cenário global marcado pela intensificação de discursos anti-imigração, especialmente nos Estados Unidos da América (EUA), a música deixa de ser apenas entretenimento para se tornar também um espaço de disputa simbólica. Nesse contexto, o pop passa a funcionar como linguagem política, capaz de tensionar narrativas dominantes e disputar sentidos sobre identidade, pertencimento e poder. Dentro desse movimento mais amplo, alguns artistas têm levado esse posicionamento a um nível mais explícito e consistente. Poucos fazem isso com tanta projeção quanto Bad Bunny.


Com o lançamento do álbum “Debí Tirar Más Fotos”, o artista não apenas reafirma sua posição como fenômeno global, mas também fortalece o pop latino como uma trincheira ativa na luta por identidade e pertencimento. Sua produção recente não se limita ao sucesso comercial, mas se constrói como um projeto que articula memória, território e política de forma consciente.


Mais do que números — ainda que eles sejam expressivos, como o retorno ao posto de artista mais ouvido do mundo no Spotify em 2025 —, o sucesso de Bad Bunny aponta para uma transformação cultural mais ampla. Seu crescimento ocorre em paralelo a um reposicionamento da música latina no mercado global, que deixa de ocupar um espaço periférico para ganhar centralidade na indústria fonográfica. No Brasil, esse movimento também se manifesta. Segundo dados do Spotify Brasil, o consumo de reggaeton cresceu cerca de 38% em 2025. Já os streams de Bad Bunny tiveram um aumento significativo em um recorte mais curto, relacionado às semanas que antecederam a divulgação desses dados. Ainda que os períodos não coincidam exatamente, o conjunto indica uma expansão consistente da presença latina no país.


Mas tratar esse fenômeno apenas como crescimento de mercado seria reduzir sua complexidade. Porto Rico, terra natal do artista, é um território historicamente subordinado aos Estados Unidos, e aparece em sua obra não como periferia, mas como centro. Em suas músicas, referências históricas, críticas sociais e afirmações culturais se misturam, criando uma narrativa que expõe as contradições dessa relação colonial.


Ao longo de “Debí Tirar Más Fotos”, Bad Bunny transforma experiências pessoais em comentários coletivos. Em “Lo que le pasó a Hawaii”, por exemplo, ele constrói uma narrativa que mistura afeto, perda e crítica política. Ao cantar “querem tirar de mim o rio e também a praia / querem o meu bairro e que a vovó vá embora”, expõe de forma direta os efeitos da especulação, da corrupção e do deslocamento forçado. A referência ao Havaí amplia o alcance da crítica, conectando Porto Rico a outros territórios marcados por processos semelhantes de exploração e apagamento cultural.


Esse tipo de abordagem aparece em diferentes momentos de sua obra. Em “NUEVAYoL”, ele exalta a presença latina em Nova York enquanto toca na questão da imigração, inclusive com um clipe simbólico que reposiciona a bandeira de Porto Rico na Estátua da Liberdade. Já em “El Apagón”, transforma o abandono estrutural da ilha em denúncia, criando um hino que passou a representar resistência em meio ao endurecimento político nos Estados Unidos. Além disso, ao dialogar com canções históricas de protesto latino-americanas, como “El Derecho de Vivir en Paz”, de Víctor Jara, o artista se conecta a uma tradição mais ampla de enfrentamento ao imperialismo.


Esse projeto artístico, no entanto, não existe fora de tensões. A incorporação da música latina pelo mainstream levanta questões importantes sobre apropriação, diluição e mercantilização. Até que ponto o mesmo sistema que hoje celebra artistas latinos não é o mesmo que historicamente os marginalizou? E como manter a potência crítica de uma obra quando ela passa a circular dentro de uma indústria que tende a absorver e neutralizar discursos contestatórios? Essas perguntas atravessam o próprio fenômeno Bad Bunny e ajudam a complexificar sua leitura.


Ainda assim, seu posicionamento se estende para além da música. Em 2026, no palco do Grammy, criticou abertamente o ICE (Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos EUA), denunciando a desumanização dos imigrantes. No mesmo período, diante do endurecimento das políticas migratórias durante o segundo mandato de Donald Trump, optou por não incluir datas nos Estados Unidos em sua turnê, citando preocupações com possíveis operações do órgão nos arredores dos shows e seus impactos sobre o público latino.


No Super Bowl de 2026, levou essa postura para um dos maiores palcos do mundo. Em uma apresentação predominantemente em espanhol, destacou a cultura latina e caribenha sem se adaptar completamente ao padrão dominante da indústria americana. Ao citar países como Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, reforçou a ideia de pertencimento coletivo e tensionou discursos xenofóbicos em escala global.


Esse tipo de engajamento não é recente. Em 2019, interrompeu a turnê para participar dos protestos em Porto Rico que levaram à renúncia do então governador Ricardo Rosselló. Sua presença nas ruas evidencia uma coerência entre discurso e prática, mostrando que sua atuação política não se limita à estética ou à performance.


A recepção internacional do artista também revela mudanças importantes. Se antes enfrentava resistência em mercados como o brasileiro, hoje mobiliza uma base de fãs cada vez mais diversa e consegue esgotar grandes apresentações. Esse deslocamento indica não apenas uma maior abertura do público, mas também uma reconfiguração das hierarquias culturais globais, nas quais o eixo anglo-americano passa a dividir espaço com outras centralidades.


Nesse contexto, é possível observar também formas de identificação entre diferentes realidades do Sul Global. Parte do público brasileiro, por exemplo, encontra nas narrativas de Bad Bunny aproximações com experiências ligadas à desigualdade, à periferia e à afirmação cultural. Ainda que os contextos não sejam os mesmos, a circulação dessas histórias permite a construção de diálogos e reconhecimentos possíveis.


Nesse sentido, “Debí Tirar Más Fotos” pode ser entendido como mais do que um álbum. É um manifesto. Ao revisitar memórias, territórios e identidades, Bad Bunny constrói uma narrativa que desafia fronteiras e reivindica espaços. Sua música funciona como arquivo e como arma, como celebração e como denúncia.


O fenômeno Bad Bunny, portanto, não diz respeito apenas a um artista ou a um gênero musical. Ele revela uma mudança mais ampla nas dinâmicas culturais e geopolíticas contemporâneas. Em um mundo cada vez mais polarizado, o pop se afirma como um campo de batalha simbólico, onde identidades são negociadas, disputadas e, em alguns casos, reafirmadas com força inédita.

Se a cultura reflete as tensões do seu tempo, Bad Bunny se consolida como um dos seus intérpretes mais expressivos. E, ao que tudo indica, essa disputa está longe de terminar.


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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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