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Além do muro: Marília cobra respeito à arte urbana em Cascavel

Após ter grafite coberto na pista de skate do Ciro Nardi, artista plástica questiona preconceitos contra a arte de rua e a presença de mulheres nos espaços públicos


A artista plástica Marília Nogueira transforma muros em espaço de expressão, identidade e disputa por reconhecimento | Crédito da foto: arquivo pessoal
A artista plástica Marília Nogueira transforma muros em espaço de expressão, identidade e disputa por reconhecimento | Crédito da foto: arquivo pessoal

Por Kamilly Felipe | Agência Abre Aspas


A pista de skate do Complexo Esportivo Ciro Nardi, em Cascavel, costuma reunir diferentes práticas da cultura urbana. Ali, convivem esporte, música, circulação de jovens e intervenções visuais que fazem do espaço público uma área de encontro. No fim de abril, porém, a pintura feita por uma artista local abriu uma discussão que vai além da estética. O apagamento de uma obra reacendeu o debate sobre grafite, intolerância, leitura religiosa da imagem e presença de mulheres na arte de rua.


O CONVITE E A PRIMEIRA MARCA


Desenho no papel usado para inspiração para o mural | Crédito da foto: Arquivo Pessoal.
Desenho no papel usado para inspiração para o mural | Crédito da foto: Arquivo Pessoal.

A artista plástica Marília Nogueira começou sua trajetória artística em 2024, produzindo quadros sob encomenda. A relação com o grafite, no entanto, vinha de antes. Desde criança, ela observava muros, cores e traços urbanos como formas de comunicação que escapavam dos espaços tradicionais da arte. Para ela, levar uma imagem para a rua também é aproximar o trabalho de pessoas que talvez nunca entrassem em uma galeria.

No dia 25 de abril, Marília teve a oportunidade de fazer seu primeiro grafite na pista de skate do Ciro Nardi. O convite partiu da artista Guará, que reuniu nomes da cena local para pintar o espaço. O trabalho escolhido por Marília nasceu de um desenho feito anteriormente no papel: uma mulher negra, construída com elementos que dialogam com a própria identidade da artista e com os tons de azul que marcam sua produção.


Marília realizou seu primeiro grafite na pista de skate do Ciro Nardi em 25 de abril, ao lado de outros artistas da cena urbana | Crédito da foto: arquivo pessoal
Marília realizou seu primeiro grafite na pista de skate do Ciro Nardi em 25 de abril, ao lado de outros artistas da cena urbana | Crédito da foto: arquivo pessoal

Durante a pintura, o ambiente foi percebido por ela como acolhedor. Frequentadores da pista paravam para acompanhar o processo, faziam perguntas e comentavam sobre a imagem. Alguns associaram a obra à figura de Iemanjá, leitura que surpreendeu a artista.


“As pessoas paravam para observar o processo e comentavam que a pintura lembrava Iemanjá. Apesar da semelhança, essa nunca foi a minha intenção. Em nenhum momento quis representar uma entidade ou uma religião. Minha obra é uma representação da minha própria identidade e da forma como expresso minhas emoções”, explica Marília.

A OBRA COBERTA E AS PERGUNTAS SEM RESPOSTA


Poucos dias depois, em 2 de maio, veio o choque. Marília descobriu, por meio de um vídeo publicado nos stories de outra grafiteira, que sua pintura havia sido completamente coberta com tinta azul. O que mais chamou a atenção da artista e de pessoas ligadas à cena urbana foi o fato de apenas o trabalho dela ter sido apagado, enquanto outras pinturas feitas no local permaneceram intactas.


A obra de Marília foi coberta com tinta azul poucos dias após a pintura na pista de skate | Crédito da foto: arquivo pessoal
A obra de Marília foi coberta com tinta azul poucos dias após a pintura na pista de skate | Crédito da foto: arquivo pessoal

Marília afirma que não recebeu, até o momento da entrevista, uma justificativa oficial da administração do espaço ou da prefeitura. Sem uma explicação pública, a artista passou a lidar com uma pergunta que atravessa o caso: por que aquela imagem, entre tantas outras, foi escolhida para desaparecer?


“A minha impressão é que a obra pode ter sido mal interpretada. Muitas pessoas associaram a imagem a uma representação religiosa, e acredito que essa interpretação possa ter incomodado quem decidiu cobrir a pintura”, aponta.

A ausência de resposta institucional impede uma conclusão definitiva sobre a motivação do apagamento. Ainda assim, o episódio expõe a fragilidade da arte urbana quando depende da aceitação de quem administra o espaço público. O muro pode ser aberto à criação em um dia e, no outro, voltar a ser tratado como superfície controlada por critérios pouco transparentes.


MULHERES NA ARTE URBANA


O caso também toca em outra camada da discussão: o lugar das mulheres no grafite. A arte urbana ainda é associada, muitas vezes, a um universo masculino. Para Marília, essa leitura faz com que mulheres artistas precisem provar constantemente que seus trabalhos têm técnica, intenção e valor.


“Quando falamos de mulheres no grafite, esse desafio se torna ainda maior. Muitas vezes precisamos provar o tempo todo que nosso trabalho tem valor e merece ocupar os mesmos espaços”, desabafa a artista.


A presença feminina na rua incomoda porque desloca expectativas. Uma mulher que pinta um muro não está apenas assinando uma obra. Está reivindicando passagem, permanência e autoria em um ambiente onde a circulação de corpos femininos ainda costuma ser vigiada, julgada ou interrompida. No caso de Marília, a pintura coberta não apagou apenas uma imagem. Também colocou em debate quem pode ocupar a cidade com arte e quais expressões são autorizadas a permanecer visíveis.


PERMANECER, APESAR DA TINTA


Mesmo abalada, Marília diz que o episódio não a fez abandonar o grafite. Pelo contrário, a reação de artistas, amigos e internautas ajudou a transformar a frustração em força para seguir produzindo. Para ela, a rua continua sendo um espaço de disputa, mas também de encontro.


“Sei que a arte não será aceita por todos e que cada pessoa faz sua própria interpretação. Mas isso não me impede de continuar. Eu confio muito mais no meu potencial artístico do que em interpretações superficiais sobre o meu trabalho. Pretendo continuar ocupando os espaços públicos da cidade com a minha arte. Acredito que eles também pertencem aos artistas”, declara.


Ao olhar para o que aconteceu, Marília entende que a tinta azul cobriu a superfície, mas não encerrou a discussão. A obra deixou de estar no concreto, mas continuou circulando nas conversas, nos vídeos, nas imagens e na memória de quem a viu. Talvez seja essa uma das forças do grafite: mesmo quando tentam apagá-lo, ele insiste em deixar rastro.

“Ver esse apoio me mostrou que a arte cria conexões e fortalece a comunidade. Para mim, minha pintura continua no Ciro Nardi. Ela pode ter sido coberta por tinta, mas não foi apagada da memória de quem a viu”, finaliza

Marília com a pintura finalizada no ginásio Ciro Nerdi | Crédito da foto: Arquivo Pessoal.
Marília com a pintura finalizada no ginásio Ciro Nerdi | Crédito da foto: Arquivo Pessoal.



1 comentário


rnnbob
há um dia

A arte transcende tudo. Precisamos de arte. Parabéns!!!! Que sua inspiração seja a inspiração de muitas e muitas outras pessoas.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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