Além do muro: Marília cobra respeito à arte urbana em Cascavel
- Kamilly Felipe

- há 3 dias
- 4 min de leitura
Após ter grafite coberto na pista de skate do Ciro Nardi, artista plástica questiona preconceitos contra a arte de rua e a presença de mulheres nos espaços públicos

Por Kamilly Felipe | Agência Abre Aspas
A pista de skate do Complexo Esportivo Ciro Nardi, em Cascavel, costuma reunir diferentes práticas da cultura urbana. Ali, convivem esporte, música, circulação de jovens e intervenções visuais que fazem do espaço público uma área de encontro. No fim de abril, porém, a pintura feita por uma artista local abriu uma discussão que vai além da estética. O apagamento de uma obra reacendeu o debate sobre grafite, intolerância, leitura religiosa da imagem e presença de mulheres na arte de rua.
O CONVITE E A PRIMEIRA MARCA

A artista plástica Marília Nogueira começou sua trajetória artística em 2024, produzindo quadros sob encomenda. A relação com o grafite, no entanto, vinha de antes. Desde criança, ela observava muros, cores e traços urbanos como formas de comunicação que escapavam dos espaços tradicionais da arte. Para ela, levar uma imagem para a rua também é aproximar o trabalho de pessoas que talvez nunca entrassem em uma galeria.
No dia 25 de abril, Marília teve a oportunidade de fazer seu primeiro grafite na pista de skate do Ciro Nardi. O convite partiu da artista Guará, que reuniu nomes da cena local para pintar o espaço. O trabalho escolhido por Marília nasceu de um desenho feito anteriormente no papel: uma mulher negra, construída com elementos que dialogam com a própria identidade da artista e com os tons de azul que marcam sua produção.

Durante a pintura, o ambiente foi percebido por ela como acolhedor. Frequentadores da pista paravam para acompanhar o processo, faziam perguntas e comentavam sobre a imagem. Alguns associaram a obra à figura de Iemanjá, leitura que surpreendeu a artista.
“As pessoas paravam para observar o processo e comentavam que a pintura lembrava Iemanjá. Apesar da semelhança, essa nunca foi a minha intenção. Em nenhum momento quis representar uma entidade ou uma religião. Minha obra é uma representação da minha própria identidade e da forma como expresso minhas emoções”, explica Marília.
A OBRA COBERTA E AS PERGUNTAS SEM RESPOSTA
Poucos dias depois, em 2 de maio, veio o choque. Marília descobriu, por meio de um vídeo publicado nos stories de outra grafiteira, que sua pintura havia sido completamente coberta com tinta azul. O que mais chamou a atenção da artista e de pessoas ligadas à cena urbana foi o fato de apenas o trabalho dela ter sido apagado, enquanto outras pinturas feitas no local permaneceram intactas.

Marília afirma que não recebeu, até o momento da entrevista, uma justificativa oficial da administração do espaço ou da prefeitura. Sem uma explicação pública, a artista passou a lidar com uma pergunta que atravessa o caso: por que aquela imagem, entre tantas outras, foi escolhida para desaparecer?
“A minha impressão é que a obra pode ter sido mal interpretada. Muitas pessoas associaram a imagem a uma representação religiosa, e acredito que essa interpretação possa ter incomodado quem decidiu cobrir a pintura”, aponta.
A ausência de resposta institucional impede uma conclusão definitiva sobre a motivação do apagamento. Ainda assim, o episódio expõe a fragilidade da arte urbana quando depende da aceitação de quem administra o espaço público. O muro pode ser aberto à criação em um dia e, no outro, voltar a ser tratado como superfície controlada por critérios pouco transparentes.
MULHERES NA ARTE URBANA
O caso também toca em outra camada da discussão: o lugar das mulheres no grafite. A arte urbana ainda é associada, muitas vezes, a um universo masculino. Para Marília, essa leitura faz com que mulheres artistas precisem provar constantemente que seus trabalhos têm técnica, intenção e valor.
“Quando falamos de mulheres no grafite, esse desafio se torna ainda maior. Muitas vezes precisamos provar o tempo todo que nosso trabalho tem valor e merece ocupar os mesmos espaços”, desabafa a artista.
A presença feminina na rua incomoda porque desloca expectativas. Uma mulher que pinta um muro não está apenas assinando uma obra. Está reivindicando passagem, permanência e autoria em um ambiente onde a circulação de corpos femininos ainda costuma ser vigiada, julgada ou interrompida. No caso de Marília, a pintura coberta não apagou apenas uma imagem. Também colocou em debate quem pode ocupar a cidade com arte e quais expressões são autorizadas a permanecer visíveis.
PERMANECER, APESAR DA TINTA
Mesmo abalada, Marília diz que o episódio não a fez abandonar o grafite. Pelo contrário, a reação de artistas, amigos e internautas ajudou a transformar a frustração em força para seguir produzindo. Para ela, a rua continua sendo um espaço de disputa, mas também de encontro.
“Sei que a arte não será aceita por todos e que cada pessoa faz sua própria interpretação. Mas isso não me impede de continuar. Eu confio muito mais no meu potencial artístico do que em interpretações superficiais sobre o meu trabalho. Pretendo continuar ocupando os espaços públicos da cidade com a minha arte. Acredito que eles também pertencem aos artistas”, declara.
Ao olhar para o que aconteceu, Marília entende que a tinta azul cobriu a superfície, mas não encerrou a discussão. A obra deixou de estar no concreto, mas continuou circulando nas conversas, nos vídeos, nas imagens e na memória de quem a viu. Talvez seja essa uma das forças do grafite: mesmo quando tentam apagá-lo, ele insiste em deixar rastro.
“Ver esse apoio me mostrou que a arte cria conexões e fortalece a comunidade. Para mim, minha pintura continua no Ciro Nardi. Ela pode ter sido coberta por tinta, mas não foi apagada da memória de quem a viu”, finaliza


A arte transcende tudo. Precisamos de arte. Parabéns!!!! Que sua inspiração seja a inspiração de muitas e muitas outras pessoas.