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A roça é o novo luxo?

O que antes foi associado à simplicidade agora atrai turistas, movimenta mercados e desperta o desejo por mais qualidade de vida


O campo reaparece não como símbolo de atraso, mas como resposta aos excessos da vida urbana | Crédito da foto: Juscelino Sena Filho
O campo reaparece não como símbolo de atraso, mas como resposta aos excessos da vida urbana | Crédito da foto: Juscelino Sena Filho

Por Luiza Bosi | Agência Abre Aspas


Durante muito tempo, morar na roça foi tratado como sinônimo de simplicidade. Para muita gente, sucesso parecia ter um endereço certo: a cidade grande, o apartamento, a agenda cheia, a carreira movimentada e a conexão permanente com tudo o que acontece. O campo, por outro lado, era visto como distante das oportunidades, ligado ao trabalho pesado e a uma rotina sem os confortos prometidos pela vida urbana.


Essa leitura começou a mudar. Em uma sociedade cansada de notificações, trânsito, pressa e compromissos sobrepostos, aquilo que antes parecia comum passou a ser desejado. A paisagem rural, o silêncio, a comida caseira, o tempo mais lento e o contato com a natureza entraram no imaginário de quem busca descanso, qualidade de vida e uma pausa dos excessos da cidade.


O DESEJO DE DESACELERAR


A roça passou a ocupar outro lugar no consumo contemporâneo. Parte da população urbana começou a enxergar nela uma experiência rara. Em um mundo em que mensagens chegam a qualquer hora e a disponibilidade permanente virou regra, descansar sem culpa se tornou difícil. A ansiedade aparece nas conversas, o cansaço parece permanente e o tempo livre, quando existe, nem sempre consegue ser vivido com calma.


Talvez por isso tantas pessoas estejam dispostas a pagar por experiências ligadas ao meio rural. A 2ª edição da pesquisa “Demanda Turismo Rural”, divulgada pelo Ministério do Turismo, mostra que 74% dos turistas escolhem o turismo rural pela proximidade com a natureza. A paz e a tranquilidade aparecem entre os atributos considerados por 70% dos viajantes, enquanto a autenticidade da comida caseira foi apontada por 73% dos entrevistados. Entre as atividades oferecidas no meio rural, as trilhas aparecem com 60% da preferência.


Os hotéis-fazenda ajudam a entender esse movimento. Quem procura esse tipo de hospedagem, muitas vezes, não quer apenas uma cama confortável ou uma boa foto para publicar nas redes sociais. Quer acordar com o som dos pássaros em vez das buzinas, caminhar sem pressa, sentar na varanda, observar o tempo passar e sentir que o dia não precisa ser vencido como uma corrida.


O CAMPO COMO EXPERIÊNCIA


Durante décadas, a ideia de progresso foi associada ao crescimento das cidades, à produtividade, à tecnologia e à velocidade. Quanto mais rápido, mais moderno. Quanto mais conectado, mais eficiente. Hoje, porém, muita gente começa a perguntar se viver bem significa mesmo produzir mais, responder mais, consumir mais e estar disponível o tempo todo.


Essa mudança também passa pela forma como a qualidade de vida passou a ser compreendida. Morar em grandes centros urbanos ainda oferece acesso a serviços, oportunidades e entretenimento.

Mas esses benefícios convivem com trânsito, poluição, excesso de ruído, insegurança e jornadas que consomem boa parte do dia. Diante desse desgaste, o campo deixa de aparecer apenas como distância e passa a ser visto como possibilidade de respiro.

A popularização do trabalho remoto reforçou essa transformação. Para alguns profissionais, já não é obrigatório viver perto do escritório. Com internet e equipamentos adequados, cidades menores e áreas rurais passaram a ser consideradas alternativas possíveis. Esse desejo, no entanto, precisa ser observado com cuidado, porque não está disponível para todos. Morar fora dos grandes centros exige renda, estrutura, conexão e condições de trabalho que ainda não fazem parte da realidade de muitas pessoas.


Outro ponto é a valorização de experiências consideradas mais autênticas. Em uma época marcada por produtos parecidos, serviços padronizados e consumo rápido de informações, cresce o interesse por vivências que parecem menos mediadas pela pressa. Colher frutas, acompanhar a produção de alimentos, conhecer tradições locais ou simplesmente perceber o ciclo da natureza são práticas que despertam curiosidade justamente por estarem longe da rotina urbana de grande parte da população.


SEM ROMANTIZAR A VIDA RURAL


Apesar desse novo olhar, é preciso evitar a romantização. A roça que encanta turistas e moradores urbanos é também o espaço de quem trabalha todos os dias para produzir alimentos, cuidar dos animais, lidar com clima, custos, estradas, mercado e incertezas. A vida no campo não é feita apenas de varanda, fogão a lenha e paisagem bonita. Existe esforço físico, risco financeiro, dependência de condições naturais e uma rotina que nem sempre cabe na imagem tranquila vendida pelo turismo.


Reconhecer isso não diminui o valor do campo, mas torna a discussão mais honesta. O que mudou não foi a roça em si, e sim a forma como parte da sociedade passou a olhar para ela. Aquilo que antes era visto como atraso hoje aparece como resposta a uma vida urbana que prometeu conforto, mas entregou também pressa, cansaço e excesso de estímulos.


Ter espaço, segurança, alimento fresco, contato com a natureza e tempo para estar com quem se ama passou a ser privilégio em muitas regiões urbanas. O que era cotidiano para quem cresceu no interior virou experiência desejada por quem vive cercado de concreto, barulho e compromissos.


O LUXO DE TER TEMPO


Se luxo é ter acesso ao que se tornou raro, talvez a roça seja mesmo um novo tipo de luxo. O luxo de respirar melhor, caminhar sem pressa, ouvir menos ruído e recuperar uma relação com o tempo que a vida urbana foi tornando cada vez mais difícil.


A pergunta, no entanto, não pode apagar quem sempre esteve ali. Para quem vive e trabalha no campo, a roça nunca foi cenário. É casa, renda, esforço e permanência. Para quem chega de fora, ela pode ser descanso. Talvez o verdadeiro luxo esteja justamente em aprender a olhar para esse território sem desprezo, sem fantasia e sem pressa.


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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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