A necessidade brasileira de garimpar ídolos
- André Felipe Tozzi

- há 6 dias
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Entre futebol, política e redes sociais, o país transforma figuras públicas em salvação possível e empobrece o debate ao confundir admiração com fé cega

Por André Felipe | Agência Abre Aspas
Há debates que começam como opinião e rapidamente viram prova de lealdade. A convocação de Neymar, a discussão sobre a escala 6x1, as tragédias que atravessam o país, os influenciadores do momento e as disputas eleitorais entram, muitas vezes, na mesma engrenagem: escolhe-se um nome, transforma-se esse nome em bandeira e, a partir daí, qualquer crítica passa a soar como ataque pessoal.
O Brasil não inventou a idolatria, mas parece ter desenvolvido uma capacidade rara de deslocá-la de um campo a outro. O que antes parecia restrito ao futebol, à religião, à música ou às biografias de grandes esportistas passou a organizar também conversas políticas, disputas nas redes sociais e até a forma como consumimos opiniões. Em vez de discutir ideias, passamos a defender pessoas. Em vez de confrontar argumentos, protegemos imagens.
A palavra idolatria costuma ser associada ao culto prestado a ídolos ou à admiração exagerada por alguém. No futebol, essa relação sempre foi visível. Torcedores sofrem, comemoram, brigam, protegem símbolos e fazem do escudo uma extensão da própria identidade. Há beleza nisso quando a paixão vira pertencimento. O problema começa quando essa entrega abandona qualquer possibilidade de crítica e transforma a pessoa admirada em alguém intocável.
Na política brasileira recente, esse mecanismo ganhou outra escala. A eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, mostrou como parte do debate público passou a funcionar pela fabricação de figuras salvadoras, capazes de reunir medo, ressentimento, fé, promessa de ordem e desejo de pertencimento em torno de uma pessoa. O fenômeno, porém, não pertence somente a um campo político. Ele aparece sempre que uma figura pública passa a valer mais do que aquilo que faz, diz ou representa concretamente.
Nas redes sociais, a idolatria ficou mais rápida, mais barulhenta e mais descartável. Um cantor, um atleta, uma influenciadora ou um comentarista podem ser elevados a símbolo em poucos dias. O contrário também acontece: basta discordar de uma música, de uma frase, de uma roupa ou de uma posição para que a crítica seja lida como traição. O público já não acompanha apenas a obra ou o desempenho. Acompanha a pessoa, sua rotina, suas quedas, seus afetos e suas contradições, como se tudo isso precisasse confirmar uma devoção.
OS ÍDOLOS E AS FALSAS CERTEZAS
A discussão ganha outra camada quando se aproxima de Francis Bacon. Em Novum Organum, o filósofo não tratava ídolos como celebridades, mas como falsas noções que atrapalham o conhecimento. Para ele, havia diferentes formas de engano: os ídolos da tribo, ligados aos limites da própria natureza humana; os da caverna, formados pelas experiências individuais; os do foro, produzidos pela linguagem; e os do teatro, sustentados por sistemas de pensamento repetidos como verdade.
A força dessa ideia está menos na classificação e mais no alerta. Bacon apontava que o ser humano se apega a imagens, palavras e crenças que parecem explicar o mundo, mas muitas vezes apenas impedem que ele seja observado com mais rigor. No Brasil atual, a idolatria funciona de modo parecido. Ela oferece respostas prontas, organiza afetos, cria inimigos e dispensa o trabalho mais difícil: pensar para além da figura admirada.
Quando um líder político, um atleta, um artista ou um influenciador ocupa o lugar de verdade absoluta, o debate perde densidade. A pessoa idolatrada deixa de ser alguém sujeito a erro e passa a funcionar como espelho de um grupo. Questioná-la vira questionar a própria identidade de quem a segue. É por isso que tantas conversas terminam antes mesmo de começar. Não se discute o tema. Defende-se o altar.
A FOME POR FIGURAS SALVADORAS
A necessidade de fabricar ídolos também nasce de uma sociedade cansada. Em um país marcado por desigualdade, insegurança, violência, instabilidade política e frustração cotidiana, a figura pública idealizada oferece uma promessa de ordem. O ídolo parece concentrar aquilo que falta na vida comum: força, reconhecimento, beleza, riqueza, vitória, autoridade ou sentido.
Por isso, o ídolo não precisa ser perfeito. Na verdade, muitas vezes sua força está justamente na contradição. Quanto mais atacado, mais protegido. Quanto mais questionado, mais defendido. O erro, em vez de abrir reflexão, vira prova de perseguição. A crítica, em vez de provocar revisão, vira combustível para a devoção.
Esse mecanismo ajuda a entender por que figuras tão diferentes podem ocupar lugares parecidos no imaginário público. Um piloto como Ayrton Senna se tornou símbolo de excelência, orgulho nacional e emoção coletiva. Já celebridades digitais, políticos e artistas contemporâneos costumam ocupar espaços mais instáveis, alimentados pela exposição diária e pela necessidade de manter o público em estado permanente de identificação. O ídolo deixou de morar apenas na memória nacional. Agora, também cabe em vídeos de poucos segundos.
QUANDO ADMIRAR VIRA OBEDECER
O problema não está em admirar. Sociedades precisam de referências, histórias e nomes capazes de inspirar. O risco está em transformar admiração em obediência. Quando isso acontece, a figura pública deixa de ser referência e passa a ocupar o lugar de filtro moral. O que ela diz ganha valor antes mesmo de ser pensado. O que ela erra passa a ser desculpado antes de ser discutido.
É nesse ponto que a idolatria empobrece a vida pública. Ela reduz a complexidade das pautas a disputas de torcida. Transforma diferenças em guerra permanente. Faz com que pessoas comuns se sintam convocadas a defender nomes que, muitas vezes, nem sabem que elas existem. A promessa de pertencimento cobra um preço alto: a perda da autonomia crítica.
Em artigo publicado no Brasil de Fato, a pastora luterana Romi Márcia Bencke, secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), escreveu: “Superar a idolatria é bastante difícil. Enquanto a realidade for cruel, o ser humano apega-se a tábuas de salvação que criam realidades paralelas”. A frase ajuda a compreender por que os ídolos permanecem. Eles não sobrevivem apenas pela força que possuem, mas pela necessidade de quem os sustenta.
Talvez por isso a frase “nunca conheça seus ídolos” continue fazendo sentido. Conhecer de perto é abandonar a fantasia de perfeição. É perceber que toda figura pública é feita também de interesse, erro, limite, contradição e estratégia. O fim da idolatria não exige o fim da admiração. Exige apenas que nenhuma pessoa seja colocada acima da crítica.
Em um país que ainda procura salvadores para suportar as próprias frustrações, talvez a tarefa mais urgente não seja destruir pessoas, mas recusar altares. Ídolos podem inspirar. O perigo começa quando eles passam a pensar por nós.




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