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Viciados em conexão: é possível manter o controle?

Uso da tecnologia desafia o controle individual e evidencia impactos no comportamento e na saúde mental


Brilho das telas ofusca a necessidade de conexões reais e do controle consciente da nossa atenção | Crédito da foto: Heloyse Anjos
Brilho das telas ofusca a necessidade de conexões reais e do controle consciente da nossa atenção | Crédito da foto: Heloyse Anjos

Por Heloyse Anjos | Agência Abre Aspas


O gesto é quase automático: acordar e, antes mesmo de levantar da cama ou realizar qualquer higiene pessoal, pegar o celular. O que começa com uma checagem rápida de mensagens ou notificações das redes sociais pode se transformar em longos períodos de navegação. Esse comportamento levanta um questionamento: até que ponto o uso da tecnologia ainda está sob controle?


Segundo a psicóloga Ana Holdefer, “o uso problemático da tecnologia pode ser caracterizado por um padrão persistente, com perda de controle, necessidade crescente de estímulo e sinais de abstinência”. A tecnologia deixou de ser apenas funcional e passou a ocupar um espaço central na rotina.


O celular está em todos os lugares. Aplicativos e redes sociais fazem parte da nossa comunicação, do trabalho e do entretenimento. No entanto, essas plataformas são estruturadas para nos manter conectados por meio de estímulos constantes e sistemas de recompensa que dificultam a interrupção do acesso. Nesse cenário, o tempo de conexão não depende apenas de uma escolha individual, mas também da forma como esses ambientes são organizados.


Os dados ajudam a dimensionar esse cenário. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), divulgada em 2025, cerca de 167,5 milhões de pessoas possuem telefone móvel celular para uso pessoal, o que representa quase 90% da população acima dos 10 anos. Ao mesmo tempo em que a inclusão digital se amplia, cresce também a exposição a impactos como dificuldades de concentração, alterações no sono e mudanças nas relações sociais.


Esse envolvimento também se relaciona ao funcionamento do nosso cérebro. Análises publicadas pelo Jornal da Universidade de São Paulo (USP) indicam que o acesso frequente às redes sociais está associado à liberação de dopamina, criando um ciclo de recompensa que reforça a repetição do comportamento. Além disso, pesquisas do Instituto Delete (UFRJ) apontam que o excesso de estímulos pode saturar a capacidade cognitiva, fenômeno descrito como obesidade digital, que prejudica a atenção.


Entre os jovens, os impactos se tornam ainda mais perceptíveis. Levantamento do Instituto Papo de Homem, em parceria com a Natura e o Pacto Global da ONU no Brasil, aponta que 44% dos adolescentes brasileiros se consideram viciados em celular. Já pesquisas sobre o tema indicam que a exposição prolongada às redes sociais pode estar associada a dificuldades emocionais, como sintomas de depressão e ansiedade.


QUANDO A CONEXÃO AFETA O EQUILÍBRIO


Os efeitos desse acesso prolongado também aparecem no campo emocional. A psicóloga Fernanda de Assis explica que o cérebro se acostuma ao alto nível de dopamina das telas. Quando esse nível diminui, surgem irritabilidade, dificuldades de concentração e alterações no sono. Esses sintomas podem ser confundidos com outros transtornos, o que exige atenção na análise dos hábitos digitais.


Nesse ponto, a tecnologia passa a interferir na rotina e nas relações. A dificuldade de interromper o acesso, mesmo diante de prejuízos, indica um padrão semelhante a outras formas de dependência. Como aponta Ana Holdefer, o comportamento se mantém mesmo quando afeta o desempenho acadêmico, profissional e social.


Diante desse cenário, surgem também respostas institucionais importantes. A Lei Felca (Lei nº 15.211/2025), que institui o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, estabelece responsabilidades para empresas de tecnologia na redução de práticas que incentivem o tempo excessivo de tela, especialmente entre menores. A medida busca diminuir a exposição a conteúdos e mecanismos que aumentam a vulnerabilidade desse público.


Ainda assim, a tecnologia não pode ser eliminada da rotina. Por isso, o foco deve estar na reorganização dos hábitos. Medidas como reduzir notificações, evitar o celular em determinados momentos e criar pausas conscientes podem contribuir para uma relação mais equilibrada com as telas.


Também é necessário compreender os fatores que nos levam ao acesso frequente. Em muitos casos, o celular funciona como resposta ao tédio, à ansiedade ou à solidão. Sem essa compreensão, a mudança de comportamento tende a ser limitada.


A tecnologia ocupa um espaço central na vida contemporânea. O desafio não está apenas em estar conectado, mas em manter o controle sobre essa conexão. Em um cenário de estímulos constantes, estabelecer limites deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade.

A busca por esse equilíbrio exige vigilância constante e esforço conjunto entre sociedade, famílias e desenvolvedores de tecnologia. Não basta cobrar o autocontrole do indivíduo quando ele está inserido em uma arquitetura digital desenhada para a permanência ininterrupta. É preciso fomentar uma educação midiática que priorize a saúde mental e o bem-estar coletivo. Somente por meio da conscientização sobre os mecanismos de manipulação das plataformas e do fortalecimento de políticas públicas protetivas será possível transformar a ferramenta digital em um suporte para a evolução humana, e não em um obstáculo à autonomia e à qualidade das relações interpessoais no mundo real.


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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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