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Terror e ação: Resident Evil Requiem falha onde mais precisava acertar

Novo capítulo resgata o clima clássico da franquia, mas tropeça em chefões pouco

memoráveis e desafios simplificados


Retorno a Raccoon City reforça a nostalgia da franquia, mas mostra os limites do equilíbrio entre terror e ação | Captura de tela: Victor Gabriel
Retorno a Raccoon City reforça a nostalgia da franquia, mas mostra os limites do equilíbrio entre terror e ação | Captura de tela: Victor Gabriel

Por Victor Gabriel | Agência Abre Aspas

Criada pela Capcom em 1996, Resident Evil se consolidou como uma das franquias mais influentes do survival horror ao combinar exploração, escassez de recursos e tensão constante. O primeiro jogo ajudou a popularizar o gênero e estabeleceu elementos que se tornaram referência para títulos posteriores, como Silent Hill e Dead Space. Ao longo dos anos, porém, parte da série reduziu o foco no horror e aproximou sua proposta da ação.


Essa mudança atingiu um de seus pontos mais controversos em Resident Evil 6, cuja recepção dividiu público e crítica pela ênfase nos combates e pela perda de parte da atmosfera de tensão característica da série. Em resposta, a Capcom tentou reposicionar a franquia em Resident Evil 7: Biohazard e Resident Evil Village, retomando elementos clássicos do terror ao investir em cenários claustrofóbicos, maior vulnerabilidade do jogador e ambientação mais voltada ao suspense.


Paralelamente, a empresa apostou em remakes de títulos clássicos, como Resident Evil 2 e Resident Evil 4. Embora esses jogos tenham sido bem recebidos, a estratégia também indica uma dependência da nostalgia e da repetição de fórmulas já conhecidas. O retorno ao passado funciona pela força da identidade da franquia, mas nem sempre apresenta novidades suficientes para justificar essa revisitação constante.


REQUIEM


Resident Evil Requiem marca o novo capítulo da série principal e reforça a tentativa de reconstrução da identidade da franquia. O título faz referência a uma missa fúnebre dedicada aos mortos, ideia que dialoga diretamente com os acontecimentos envolvendo Raccoon City, cidade associada aos primeiros jogos e destruída na cronologia da série. A narrativa retoma elementos conhecidos ao revisitar o local em ruínas e trazer de volta Leon S. Kennedy, um dos personagens mais importantes da saga. Ao lado dele está Grace Ashcroft, nova protagonista ligada à investigação de um caso de bioterrorismo que impulsiona os conflitos centrais da trama.


Apesar da proposta de retorno às origens, o enredo não apresenta grandes inovações. A história funciona mais como um reencontro com marcas familiares de Resident Evil do que como uma renovação narrativa.


TERROR E AÇÃO


Outro elemento importante da experiência está na possibilidade de alternar entre câmera em primeira e terceira pessoa. A escolha interfere diretamente na forma como o jogador percebe a tensão durante a campanha. Nos momentos com Grace, a câmera em terceira pessoa favorece a leitura corporal da personagem e reforça sua vulnerabilidade, principalmente em perseguições e situações de combate. Já em primeira pessoa, parte dessa sensação se perde, tornando a experiência mais direta e menos angustiante. Embora a alternância ofereça liberdade, ela também mostra como determinados recursos de terror dependem da construção visual da cena e da relação do jogador com a personagem.


A diferença entre os protagonistas também afeta o ritmo narrativo. Enquanto os trechos com Grace priorizam exploração lenta e construção de suspense, Leon acelera a campanha. Essa mudança constante de intensidade cria momentos de impacto, mas enfraquece a unidade do jogo. Em vez de complementar o terror, a ação frequentemente interrompe a atmosfera construída anteriormente.


Outro aspecto que chama atenção é a tentativa de recuperar elementos simbólicos da série. Corredores escuros, salas apertadas, escassez de munição e perseguições constantes remetem aos primeiros títulos. Em alguns momentos, Requiem consegue recriar a sensação de insegurança que marcou os jogos clássicos. Porém, essa recuperação funciona mais como referência estética do que como renovação das mecânicas do survival horror.


A principal proposta de Resident Evil Requiem está na divisão de estilos entre seus protagonistas. Com Grace, o foco está no terror e na vulnerabilidade. Com Leon, a experiência se aproxima de uma ação intensa e constante. Essa diferença cria um contraste interessante entre os personagens, mas também aponta o principal problema do jogo.


Os momentos com Grace representam o lado mais eficiente da campanha. A personagem transmite insegurança durante a exploração, principalmente pela limitação de recursos, pelo inventário reduzido e pela fragilidade em combate. Pequenos detalhes, como a instabilidade ao correr ou ao manusear armas, ajudam a reforçar a sensação de medo.


A ambientação também contribui para esse efeito. A trilha e os ruídos são utilizados para construir tensão, alternando momentos de perseguição com períodos de silêncio que ampliam a sensação de insegurança. A direção cinematográfica reforça o desespero da protagonista e favorece a imersão nos trechos mais voltados ao horror.


Com Leon, porém, a proposta muda completamente. A ação assume o protagonismo em combates constantes contra hordas de inimigos e chefões. O ritmo acelerado funciona em determinados momentos, principalmente pela fluidez do combate e pelas mecânicas de finalização, que tornam os confrontos mais dinâmicos. Ainda assim, o excesso de ação compromete parte da tensão construída anteriormente.


Esse desequilíbrio se torna mais visível na reta final da campanha. Depois de passar longos períodos controlando Leon, o retorno aos trechos com Grace perde parte do impacto, já que o jogador permanece condicionado ao ritmo acelerado dos combates. Como consequência, o terror deixa de funcionar com a mesma intensidade apresentada no início.


O retorno a Raccoon City também aposta fortemente na nostalgia. Revisitar cenários marcantes, como a delegacia de Resident Evil 2, reforça a conexão emocional com fãs antigos. A ambientação em ruínas transmite o peso da destruição causada pelos acontecimentos anteriores, embora o impacto desses momentos dependa mais da memória afetiva do jogador do que de um aprofundamento narrativo novo.


Apesar de acertar na ambientação e na proposta de seus protagonistas, o jogo apresenta problemas importantes. Os chefões, tradicionalmente um dos pontos altos da franquia, carecem de impacto e presença. Diferentemente de figuras marcantes como Nemesis e Mr. X, os antagonistas de Requiem raramente rendem confrontos memoráveis, o que reduz o peso dos encontros ao longo da campanha.


Os quebra-cabeças seguem caminho semelhante. Embora tentem recuperar o espírito investigativo dos jogos clássicos, apresentam soluções simples e pouco desafiadoras, o que diminui a sensação de progressão e descoberta.


O QUE FICA


Resident Evil Requiem tem qualidades ao recuperar elementos clássicos do terror e apostar em protagonistas com estilos distintos de jogabilidade. O jogo demonstra esforço em aproximar novamente a franquia de suas origens, principalmente nos momentos protagonizados por Grace.

Ainda assim, o excesso de ação associado a Leon compromete parte da tensão construída anteriormente e enfraquece o equilíbrio entre horror e combate que sustenta a proposta do jogo. Somado a chefões pouco marcantes e desafios simplificados, esse excesso impede que Requiem alcance o impacto que busca.


Mesmo com suas falhas, o novo capítulo mostra que a Capcom continua tentando reconstruir a identidade da série. Resident Evil Requiem não representa um retorno definitivo à melhor fase da franquia, mas aponta para um caminho mais consistente do que os títulos que priorizaram apenas a ação.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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