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Sob a lupa do moralismo: por que punimos as mulheres pelo próprio sucesso?

Indústria musical insiste em aplicar réguas que ignoram o mérito e punem a liberdade das artistas


Exposição obsessiva e duplo padrão na indústria musical agravam quadros de ansiedade e burnout entre artistas | Crédito da foto: Reprodução
Exposição obsessiva e duplo padrão na indústria musical agravam quadros de ansiedade e burnout entre artistas | Crédito da foto: Reprodução

Por Júlia Novello | Agência Abre Aspas

Como grande fã de Taylor Swift desde os meus 13 anos, meu hobby favorito, por anos, foi assistir a entrevistas da cantora. Já vi gravações de premiações, lançamentos de álbuns, discursos em prêmios da MTV e seu monólogo no Saturday Night Live (SNL). Todas essas aparições possuem um tema recorrente. Em suas falas, a cantora ressalta como as mulheres na indústria musical são constantemente observadas sob lupas de aumento e olhos de águia, enquanto homens facilmente se livram de polêmicas envolvendo antigos relacionamentos e alegações de abuso.


Lembro-me de uma entrevista específica que colocou a pulga atrás da minha orelha. Publicada em outubro de 2014, Taylor conversa com a 2DayFM Sydney e comenta sobre a percepção do público a respeito de sua escrita. “Tem pessoas que veem valor na minha escrita sentimental, sobre minha vida e minhas experiências. Já outros falam: ‘ela só sabe escrever sobre ex-namorados’ e, honestamente, essa é uma perspectiva bem sexista, porque ninguém fala isso sobre Ed Sheeran e Bruno Mars, que também escrevem sobre seus relacionamentos”.


É uma fala que pode soar agressiva à primeira vista, mas que vem em forma de desabafo. Uma artista com 25 anos, 11 anos de carreira e 22 indicações ao Grammy Awards ainda lutava para mostrar sua força e consolidar seu espaço na indústria musical, enquanto era, ou ainda é, definida pelo corpo, pelos figurinos e pela quantidade de namorados que “a deixaram”.

Essa postura de julgamento perante sua arte não é um “privilégio” apenas da rainha do pop contemporâneo. Artistas como Madonna, Lady Gaga, Whitney Houston, Britney Spears e Beyoncé também carregam um longo histórico de subjugação e apagamento pela indústria.


Lady Gaga e Madonna sofrem questionamentos duros e constantes em torno de seus posicionamentos “extravagantes e desafiadores”. Em seu discurso ao aceitar o prêmio Billboard Women in Music, em 2016, Madonna falou sobre as expectativas e as “regras não escritas” impostas às mulheres na indústria: ser bonita, fofa e sexy, mas nunca “inteligente demais” ou com opiniões que desafiem o status quo.


Já Gaga relata, no documentário “Five Foot Two”, como os produtores tentavam moldar sua imagem para que ela fosse apenas “mais uma cantora pop sexy”. Sua escolha por figurinos extravagantes e muitas vezes chocantes, como o icônico vestido de carne, foi uma resposta política e artística para retomar a narrativa sobre o próprio corpo e a própria imagem, desviando o olhar puramente sexual da audiência para uma discussão mais profunda sobre arte e protesto.


Whitney e Britney possuem mais do que o final de seus nomes em comum. Alvos de controle extremo, ambas perderam a liberdade sobre as próprias histórias perante a grande mídia. Whitney Houston foi meticulosamente moldada como a “boa menina” da América. Um projeto corporativo que buscava apagar suas raízes e sua humanidade em nome de uma imagem comercialmente segura. No entanto, quando suas vulnerabilidades e lutas pessoais vieram à tona, a mesma indústria que a elevou ao estrelato a transformou em alvo de ridicularização e sensacionalismo, priorizando a narrativa de sua queda em detrimento de seu talento vocal e de seu legado musical.


Mesmo sendo uma das artistas que mais vendeu álbuns nos anos 2000, Britney Spears não foi poupada do descarte precoce pela indústria. A sexualização da cantora pela mídia, que focava obsessivamente em sua virgindade e em seu corpo, a transformou em produto. Após anos de presença e produções obrigatórias, a cantora se esgotou e, tão rápido quanto a colocaram em um pedestal, arrancaram dela tudo que lhe era de direito.


Independentemente do gênero musical ou do estilo de escrita, as capacidades intelectuais e criativas das mulheres são frequentemente subestimadas e facilmente submersas por comentários sobre o penteado, o tamanho da cintura e o comprimento das saias.


E se engana quem pensa que esses casos ficaram no passado. Alguns episódios recentes e emblemáticos envolvendo as performances de Justin Bieber e seu “minimalismo” mostram como a relação entre esforço e qualidade varia a depender de quem produz a peça artística.


Em seu retorno ao Grammy Awards de 2026, Justin subiu ao palco de samba-canção, com seu pedal de looping e uma guitarra. Foi ovacionado assim que apareceu, mas apenas se posicionou, cantou de olhos fechados por não mais que cinco minutos e saiu logo em seguida, sem olhar para trás.


A internet parou, e a rede social X recebeu uma enxurrada de publicações sobre a performance intimista e crua do artista. Não se pode tirar o mérito de seus vocais envolventes, nem o fato de que, mesmo sem figurinos ou grandes produções, o músico capturou a atenção do público. Entretanto, artistas como Sabrina Carpenter, por exemplo, que recriou um avião, esteiras de mala e um painel de voos, além de contar com mais de 15 dançarinos no palco, coreografia e até uma pombinha tirada da cartola, recebeu incontáveis comentários de que só consegue chamar atenção quando o figurino é brilhante e ela está falando sobre homens.


O ponto não é comparar talentos ou discutir quem merece mais atenção, porque isso qualquer pessoa com acesso à internet pode publicar em suas redes sociais. O ponto é observar como o olhar e o peso que o público direciona aos artistas, na maioria das vezes, não se baseiam em mérito ou qualidade de trabalho.


CULTURA DO CONSUMO


A partir de todos esses exemplos, a conclusão é direta: mulheres são vistas pela indústria musical como objetos de consumo, exploradas até a última gota e, então, descartadas.


Com raízes muito mais profundas e antigas do que seria possível discutir inteiramente neste artigo, casos recentes, como os de Carpenter e Bieber, são exemplos de um sistema condicionado a uma percepção de valor distorcida. E, diante de todas essas variáveis na recepção do trabalho desses artistas, quem sofre as consequências é justamente o produto final: as músicas. Com restrições temáticas e uma régua moral descabida, as artistas se sentem cada vez mais encurraladas e pressionadas a falar sobre temas que não as representam.


Essa dinâmica de “lupa de aumento e olhos de águia”, descrita por Taylor Swift, é a mesma que julga o figurino de Sabrina Carpenter. Madonna enfrentou décadas de críticas por sua sexualidade explícita, enquanto sua genialidade artística era frequentemente ofuscada por rótulos pejorativos. Britney Spears foi desumanizada e teve sua autonomia questionada, com a mídia focando em sua vida pessoal e aparência em vez de seu talento. Lady Gaga precisou subverter a própria imagem para reivindicar sua autoria e visão artística, cansada de ser vista apenas como um “produto sexy”.


Em todos esses casos, a narrativa se repete: o sucesso de uma mulher na música é frequentemente acompanhado por um escrutínio implacável sobre sua vida pessoal, sua sexualidade e sua aparência, desviando o foco de sua arte e de seu talento.


A reflexão que fica é: será que esse comportamento não é um reflexo, em níveis extremos, da maneira como a sociedade enxerga o papel da mulher no mundo? Afinal, a indústria entrega aquilo que o público consome e valida. E a provocação mais amarga talvez seja para nós, mulheres: até quando seremos guardiãs das ferramentas que nos diminuem? Enquanto não aprendermos a olhar para outras mulheres sem o filtro do julgamento moralista que nos é conveniente, continuaremos alimentando a mesma indústria que, amanhã, usará essa régua contra nós.



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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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