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Se aqui está, vivo pode ser: reflexões sobre o ponto de ônibus

Um olhar que vai além dos limites deste ambiente aparentemente sem vida


Marcas de uso mostram um ponto de ônibus marcado pelo tempo | Crédito da foto: Rayssa Farinon
Marcas de uso mostram um ponto de ônibus marcado pelo tempo | Crédito da foto: Rayssa Farinon

Por Rayssa Farinon | Agência Abre Aspas


Em cada uma das correrias diárias, pessoas cruzam suas histórias e vivências. Atravessam, sem que possam ao menos se dar conta, o presente e o futuro, os mais variados seres e um lugar que passa despercebido pelos olhares comuns.


Me encanta olhar para o ponto de ônibus.


Neles, existem dores, medos, dúvidas, angústias e outras sensações que, durante o retorno, após mais um longo dia, se tornam pequenas diante do alívio ao ver aquele gigante sobre rodas chegar, aquele responsável pelo respiro mais esperançoso. Permanecem ali as pessoas, por alguns poucos minutos. Seguem ali os bancos, todos os dias, aguardando alguém que eles nem conhecem, mas com quem, por alguns minutos, compartilham momentos que eternizam risadas e que serão levados na memória de quem passa por ali.


À primeira vista, são apenas estruturas frias e sem vida; porém, podem representar uma parte da mudança de vida para alguns ou a batalha diária para chegar ao trabalho para outros. Ainda assim, esse espaço não é comum: possui um talento único para se tornar inesquecível na vida de muitas pessoas.


Ao final de mais uma noite de estudos, encontro meu grupo de amigos e começamos a comentar sobre a noite, mas, em segundos, o diálogo muda para outros assuntos que nos distraem e, quando percebemos, o ônibus já está chegando. É interessante presenciar e vivenciar instantes de conversas rápidas, mas, ao mesmo tempo, profundas. No dia a dia, percebo também a pressa para chegar até o ponto: vejo alguns chegando no momento em que o ônibus para, às vezes vejo até o ônibus esperando por alguém que, em instantes, aparece, na maioria das vezes correndo para não perder o transporte e atrasar ainda mais o descanso.


Durante a espera para chegar em casa, surgem reflexões sobre o dia, tarefas da faculdade, compromissos profissionais e problemas a resolver. Ainda assim, o aguardo marca um momento de descanso e risos.


Nesse local, predomina a ansiedade, acompanhada pela expectativa de um aconchego que, muitas vezes, demora a acontecer devido às responsabilidades cotidianas. Apesar de parecer apenas um espaço simples, com bancos e cobertura pouco eficaz contra chuva, sol ou vento, sua ausência seria sentida e muito questionada, em especial por ser um dos poucos momentos de pausa em dias cheios.

Gosto de pensar nos bancos, que possibilitam um alívio para o corpo.


Em certo momento, vi um rapaz de cerca de 25 anos levantar-se e deixar o celular; consegui alcançá-lo e devolver o aparelho antes que partisse em um carro de aplicativo, um traidor dos ônibus!


Refleti, naquele momento, sobre quantos objetos acabam esquecidos e o que eles representam para seus donos: pode ser um presente de alguém especial, uma lembrança de quem já se foi ou a marca de uma grande conquista. Às vezes, o que fica para trás é uma embalagem que deveria ir para o lixo e acaba sendo abandonada ali.


De certa forma, frequentar esse espaço é aprender a conviver coletivamente: dividir um pequeno abrigo ou até um guarda-chuva em dias de tempestade, compartilhar comida para amenizar a fome e conhecer diferentes culturas por meio de conversas com desconhecidos.


Estar ali também permite perceber detalhes muitas vezes ignorados, como uma noite estrelada, um belo pôr do sol ou até uma chuva intensa, fazendo perceber a importância de observar o que só se nota durante a espera. Quando estou ali, percebo que, embora muitos estejam em grupo, cada um segue seu percurso e carrega um motivo único para enfrentar suas longas distâncias.


Ao longo dos dias, noto a expressão das pessoas se transformando. Enquanto o peso da rotina se intensifica, o silêncio também surge gradualmente, e todos permanecem quietos, tomados pela exaustão.


No inverno, permanecer ali se torna um desafio. O frio chega com maior intensidade, exigindo roupas adequadas para nos aquecer. Quando chove, é quase inevitável que nossas roupas se umedeçam, e é preciso tentar não molhar nossos pertences. Nos dias mais quentes, o aguardo por um ventinho é tomado pelo medo de uma lotação em que nem mesmo o ar encontra espaço.


Na espera diária, muitas vezes, falta tempo para observar pequenos detalhes do entorno, das ruas e construções, e até mesmo de nós mesmos, como o cabelo bagunçado, a mochila aberta, um calçado desamarrado e tantas outras coisas que não percebemos. No entanto, se pararmos para olhar uns aos outros, esse pode se tornar um ambiente mais leve para todos. Essa mudança pode acontecer por meio de um sorriso, de uma ajuda ou até de uma simples palavra de apoio naqueles momentos em que a vida fica difícil.


Me encanta o ponto de ônibus, por incrível que pareça. Mesmo com seus desafios, ele pode nos ensinar muitas coisas e nos mostrar um mundo que, na correria, quase sempre passa diante dos nossos olhos.


1 comentário


Rayssa, a crônica tem sensibilidade e faz perceber que até os lugares mais simples guardam histórias de quem passa por eles. Como leitor, o seu texto me fez olhar para o ponto de ônibus com outros olhos. Gostei da forma como você transforma um espaço comum em lugar de espera, encontro, cansaço e pequenas descobertas.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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