top of page

Risco no trânsito e desvalorização marcam rotina de motoboys em Cascavel

Atualizado: há 7 dias

Dados do IBGE mostram a dimensão do trabalho por aplicativos no país, enquanto entregadores relatam os riscos enfrentados nas ruas


No recorte nacional do trabalho por aplicativos, a categoria é formada, em sua maioria, por homens (96,9%), com média de 35 anos, e por pessoas pretas ou pardas (93,2%) | Crédito da foto: Victor Gabriel
No recorte nacional do trabalho por aplicativos, a categoria é formada, em sua maioria, por homens (96,9%), com média de 35 anos, e por pessoas pretas ou pardas (93,2%) | Crédito da foto: Victor Gabriel

Por Victor Gabriel | Agência Abre Aspas


Em Cascavel, no Oeste do Paraná, trabalhar sobre duas rodas significa dividir o dia entre a pressa da entrega e o risco constante do trânsito, mesmo com todas as suas leis, sinalização e investimentos públicos nas ruas para melhorar a mobilidade e a segurança de condutores e pedestres. Para os motoboys, a rotina é marcada por atenção redobrada, desgaste físico e sensação frequente de desvalorização.


De acordo com a Autarquia Municipal de Mobilidade, Trânsito e Cidadania (Transitar), nos quatro primeiros meses de 2026, sete das 20 vítimas fatais em acidentes de trânsito eram motociclistas.


Dados mais completos, de 2025, mostram uma redução de 43% nos casos de acidentes no primeiro semestre do ano em relação ao mesmo período de 2024. Mesmo com essa redução, a gravidade do cenário não diminuiu. Apesar disso, há aqueles que escolheram ganhar a vida sobre duas rodas.


CRÍTICAS E RELATOS


Hermes, na mitologia grega, é o mensageiro dos deuses e protetor dos viajantes. Se, na mitologia, ele era o mensageiro veloz entre mundos, os motoboys cumprem hoje uma travessia menos divina e mais dura: a de ligar pontos da cidade sob pressão, risco e pouca valorização.


O que antes era atribuído ao divino hoje se manifesta de forma concreta nas ruas das cidades. A figura de um mito é atribuída ao homem. A diferença é que, enquanto na mitologia o mensageiro era uma divindade, a realidade atual para os trabalhadores é o desgaste.


Trafegar pelas ruas pode trazer algumas tensões: andar em alta velocidade para cumprir prazos e metas, ultrapassar horas da jornada de trabalho, lidar com as mudanças climáticas e expor-se a inúmeros perigos e situações.


O ex-motoboy Fernando Kuzciski trabalhou com entregas em Cascavel e ainda lembra da tensão cotidiana nas ruas da cidade. Ele atuou na profissão por cerca de dois anos e deixou a atividade após sofrer um acidente de trânsito. “Além de estar sempre na correria das entregas, eu tenho que cuidar tanto do próximo quanto de mim. Qualquer descuido pode ser fatal. Não adianta eu fazer somente o meu”. Fernando ainda completa: “As pessoas andam de carro de um lado para o outro mexendo no celular, se distraindo, não olham os retrovisores, fazem a sinalização em cima da hora. Falta cuidado com o outro no trânsito”.


Outros relatos, como o de Thiago Duarte, que trabalha durante a noite como motoboy, apontam algumas das principais inseguranças da categoria no trânsito. “O que mais me desanima é a falta de atenção. Motoristas e motoboys correndo desesperados para chegar aos lugares, é assustador. Por isso, faço somente como um extra”.


A informalidade também pesa sobre a imagem da profissão. Sem vínculo empregatício e, muitas vezes, vistos apenas pelo ritmo acelerado do trabalho nas ruas, entregadores relatam conviver com julgamentos apressados e pouco reconhecimento. Essa imagem, muitas vezes ligada à imprudência e à desordem no trânsito, contribui para a desvalorização da profissão. Apesar de desempenharem um papel essencial na dinâmica urbana, os profissionais destacam que não recebem o reconhecimento que deveriam.


Fernando desabafa sobre uma situação que passou em um dia de trabalho chuvoso. “Não deixaram eu me abrigar nem entrar no estabelecimento por medo de espantar clientes ou de molhar o local. Me senti como um cachorro molhado e ignorado”.

Na maioria das vezes sem salário fixo, a renda depende da quantidade de entregas feitas durante o dia, o que pode ocasionar jornadas extensas de trabalho e levar ao desgaste físico e mental, além do desgaste moral. A busca por cumprir metas e obter mais dinheiro ocasiona comportamentos e atitudes negligentes por parte de alguns entregadores. Tanto Thiago quanto Fernando já testemunharam esse tipo de atitude. “Alguns motoboys agem na loucura para fazer entregas o mais rápido possível, se ‘afobam’ pegando vários pedidos, passam o semáforo fechado, colocam sua vida em risco apenas para ganhar uns ‘trocados a mais’”, relata Thiago.


COMUNIDADE E UBERIZAÇÃO


Diante de todas as questões da profissão, os motoboys sempre tiveram uma zona de confiança dentro da comunidade, buscando se ajudar. Essa união também se manifesta na busca por melhores condições de trabalho e mais reconhecimento para a categoria.


Há de se lembrar que, durante a pandemia de Covid-19, quando restaurantes e lanchonetes fecharam as portas para conter o avanço do vírus, os entregadores se tornaram o meio para manter o funcionamento de diversos estabelecimentos, desempenhando um papel essencial em um momento crítico. Ainda assim, a realidade de desvalorização não mudou. Entregadores ainda sofrem com desacato, xingamentos e prazos que os levam ao extremo.


A discussão sobre as condições de trabalho dos entregadores ganhou força nacional a partir da voz de Paulo Roberto da Silva Lima, conhecido popularmente como Paulo Galo. Ex-entregador de aplicativo, ele se tornou uma das grandes vozes entre os motoboys durante a pandemia de Covid-19, ao denunciar a precarização do trabalho e a falta de direitos enfrentada pelos profissionais.


Paulo tornou-se símbolo da mobilização dos entregadores ao liderar o movimento “Entregadores Antifascistas” e organizar paralisações em diversas cidades do país. Suas ações ajudaram a expor as contradições de um modelo de trabalho que se sustenta na autonomia aparente, mas transfere ao trabalhador os riscos, os custos e a instabilidade da atividade.


O movimento surge como forma de lutar e resistir à uberização, que transforma o trabalhador em uma espécie de “empresa de si mesmo”, sem as garantias de um emprego formal. Além disso, Paulo buscava articular as questões da uberização ao período da pandemia e chamar a atenção da população para os motoboys, que, em meio ao vírus, arriscavam suas vidas mais do que nunca.


Enquanto os aplicativos lucram com diversas taxas das entregas, provenientes do esforço dos motoboys, estes se veem arcando com os riscos e os custos do trabalho. Segundo David Silva Franco e Deise Luiza da Silva Ferraz, no artigo “Uberificação do Trabalho e Acumulação Capitalista”, a lógica dos aplicativos aprofunda esse quadro porque transfere ao entregador os riscos e os custos do trabalho sem garantir direitos formais, como salário fixo, férias ou décimo terceiro.


Alguns aplicativos oferecem seguros para acidentes, com cobertura de despesas médicas e períodos de incapacidade. Ainda assim, esse suporte é limitado ao período da entrega e não substitui direitos trabalhistas. Fernando já sofreu dois acidentes no trânsito. Um deles ocasionou uma fratura em seu pulso esquerdo e prejuízo em sua moto. “Meu pulso levou um bom tempo para se recuperar, passei por cirurgia e ainda sinto dores em alguns movimentos. Eu já havia parado com as entregas de aplicativos, mas acredito que não me ajudariam muito com minha situação”.


Na rotina dos motoboys, o caminho entre uma entrega e outra é só uma parte do trabalho. O dia a dia é atravessado pela pressa constante, pelo risco nas ruas e pela sensação de que a profissão ainda recebe pouco reconhecimento. Com jornadas longas e a necessidade de garantir o sustento, seguir sobre duas rodas acaba sendo menos uma escolha heroica e mais uma forma de continuar.

1 comentário


Victor, o seu texto me tocou pela forma como aproxima os dados da vida concreta dos motoboys. Os relatos de Fernando e Thiago dão peso humano à reportagem e fazem sentir a dureza de uma rotina marcada por risco, pressa e pouca valorização. É um texto necessário, bem conduzido e com força social.

Curtir
  • Instagram
  • TikTok

Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

©2025 - Agência Abre Aspas - Todos os Direitos Reservados

bottom of page