Relatos da readaptação em outro país e da meta de empreender
- Lucas Mendes

- 7 de jun.
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Atualizado: 8 de jun.
Pessoas vindas de outros países representam apenas 0,70% do total de 12,1 milhões de MEIs do Brasil

Por Lucas Mendes | Agência Abre Aspas
A possibilidade de viver em outro país, para alguns, é um sonho; para outros, uma meta. Poder conectar-se com uma nova cultura, novos métodos de trabalho e formas de viver e, além disso, realizar um grande estudo empírico enquanto se vivencia a nova realidade ao redor representando um misto de desafios e riquezas.
Para Nicolás Francisco Salas, argentino de 40 anos, que hoje vive no Brasil, a mudança não ocorreu por meta ou sonho, mas por amor. Após dez anos trabalhando como funcionário dos Correios em Buenos Aires, Nicolás viajou à China, com escala no Rio de Janeiro. Em sua volta para casa, sentou ao seu lado uma brasileira, uma cascavelense, Eliane, hoje sua esposa.
No início da relação, ele seguia trabalhando como supervisor logístico nos Correios de Buenos Aires e vinha para Cascavel quatro a cinco vezes por mês para ver sua mulher. Até o momento em que ele se acidenta na estrada e decide mudar sua vida, pedir as contas e viver no Brasil com sua amada.
Chegando em outro país, uma certeza paira em sua cabeça: “No Brasil não tenho nada”. A partir dessa certeza e por não dominar bem a língua, ele lembra de sua viagem à China. “Na Argentina, há muitos supermercados atendidos por chineses. Em vários casos, eles não dominam o castelhano, assim como eu não domino o português. Eles compram algo quente, gelam-no e revendem. Disse a mim mesmo que faria isso: compraria água e cerveja, colocaria no freezer e revenderia”, relata.
IMIGRANTES EMPREENDENDO NO BRASIL
Começando com uma geladeira e uma sala comercial pequena, Nicolás juntou-se aos 6,3 mil argentinos que empreendem no Brasil. De acordo com dados do Sebrae divulgados em 2023, os argentinos representam 7,9% da abertura de MEIs entre 2019 e 2023 no país. Diante disso, apresenta-se uma virada cultural empresarial crescente: imigrantes sul-americanos lideram a abertura de MEIs, representando 60,5% dos estrangeiros formalizados no período.
Com a grande migração de estrangeiros para o Brasil, que saltou de 592 mil para 1 milhão de acordo com o Censo do IBGE em 2022, sendo 72% deles latinos, além da crescente na abertura de MEIs por parte dos imigrantes, pode-se apresentar uma pluralidade cultural de como se empreender.
Nicolás, por exemplo, possuí um canal do Youtube, registrando desde o primeiro dia de seu “kiosco” (lojinhas de conveniência argentinas), como gosta de chamar. Embora não seja a única conveniência de Cascavel a produzir para a internet, se destaca por produzir para a internet em uma linguagem de vídeo diferente de reels e vídeos curtos, tendo uma conversação com o público mais pausada e próxima. ‘’Hoje eu tenho duas lojas, mas comecei com uma só geladeira. A loja até hoje é pequena, mas com uma geladeira e pouco estoque ela parecia enorme. Toda essa trajetória está registrada no meu canal no Youtube, NK Nicolas Kiosco’’, conta o empreendedor.
PÚBLICO BRASILEIRO
Embora Nicolás tenha uma comunicação empresarial bastante distinta da dos donos de conveniências em Cascavel, indo além de vídeos curtos e produzindo conteúdo para o YouTube, assim como a própria diferença de idioma, ele veio ao Brasil com a mente aberta para conhecer o consumidor brasileiro e compreender suas diferenças em relação ao argentino.
O comerciante relata algo muito próprio de vendedores argentinos: a relação com o preço. Segundo Nicolás, sua loja ter o que o cliente quer e precisa é fácil, porém sua intenção é que ele volte. Para o comerciante, não adianta ter produtos que não são acessíveis aos consumidores, e a maior forma de acessibilidade para ele é o preço.
Porém, notou também que os brasileiros têm suas peculiaridades em relação ao argentino, principalmente no quesito de variedades. ‘’O cliente argentino é um pouco mais conservador, irá comprar a mesma marca com sabores diferentes. Na Argentina temos cerveja normal, de 473ml e latão de 710ml. Aqui, no Brasil, não, você tem a ‘palito’ (269ml), lata de 350ml, latão de 473ml, ‘litrão’ (1L)... todos de diferentes marcas e até sabores, como a cerveja Caracu por exemplo’’, detalha o empreendedor.
Para ele, a variedade de produtos cria um público mais diverso e, por consequência, com maior potencial de consumo. Nicolás também destaca que lidar com diversos tipos de produtos o torna um comerciante melhor, pois amplia sua bagagem de conhecimento e variedade. Ele ainda relata que sua maior “universidade” enquanto empreendedor foram os clientes brasileiros, que solicitam produtos que ele nem conhecia, o que o ajuda a se inserir cada vez mais no cenário brasileiro.
MENTALIDADE PARA EMPREENDER E VIVER
A jornalista e ativista social Edna Nunes, administradora da Embaixada Solidária de Toledo, afirma que o que mais lhe chama a atenção em relação aos imigrantes é a saudade: saudade de quem se era, saudade dos pais e até do cheiro do país de origem, de uma vida que deixa de existir da mesma forma como era em seu local de origem. “Que privilégio eu tenho de fechar a porta e ver que as pessoas que eu amo estão do lado de dentro e eu vou voltar a vê-los”, relata Edna em palestra no Centro FAG.
Os resultados da análise de dados do estudo sobre a saúde mental dos imigrantes, realizada pela LSIC (Longitudinal Survey of Immigrants to Canada) para analisar imigrantes no Canadá, mostram que, no geral, cerca de 29% dessa população relata problemas psicológicos e 16% relataram altos níveis de estresse na terceira onda da pesquisa. Pois o processo pode envolver o luto migratório e o estresse de aculturação, o que pode desencadear desafios como ansiedade, depressão e crises de identidade, exigindo adaptação a uma nova cultura.
Nicolás também não consegue escapar plenamente de todas essas questões. Embora tenha vindo ao Brasil por amor a sua esposa, também está propenso a sentir saudade de casa, de seu bairro, da sua gente e a passar por todo o estresse de ter que se realocar em uma nova cultura e ter que tocar um negócio ao mesmo tempo. ‘’Eu nunca tive negócios na Argentina, mas eu sei o sofrimento de adaptar-se. Não foi fácil e até hoje não é fácil, mas eu sou um argentino e sou lutador. É como diz em nosso hino: O juremos con gloria morir’’, comenta.
‘’Se um dia você migrar vai ver: é você contra o mundo. Eu não tenho meus pais ou amigos aqui para contar, e fracassar com este negócio também não era uma opção. Toda minha vida estava na Argentina, se desse errado eu não iria retornar porque tinha que dar certo. Mas não foi fácil, sofri’’ complementa.
Empreender em nosso país sem um aporte financeiro ou histórico familiar torna-se uma combinação de estratégia, perseverança e esforço. O boletim da Sondagem Econômica MEI, de maio de 2025, destaca que o acesso ao crédito bancário, citado por 27% dos MEIs, os desafios de divulgar e vender produtos ou serviços (21%) e a burocracia e exigências governamentais (16%) evidenciam a complexidade de ser MEI no Brasil.
Além disso, ser um migrante também envolve toda a complexidade de uma mudança cultural e de vida. No entanto, quando se “pelea”, como vimos com Nicolás, é possível alcançar resultados. Resultados esses que vão além do lucro ou da simples adaptabilidade em outro país: incluem também a troca cultural e o serviço prestado à sociedade. No fim das contas, todos se beneficiam.

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