Quando a estética de The Handmaid’s Tale transforma violência em linguagem
- Giovanna Kava

- há 2 dias
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Ao construir a República de Gilead como um sistema organizado, a série mostra que a violência não precisa do caos para existir

Por Giovanna Kava Albuquerque | Agência Abre Aspas
Não se trata apenas das cenas explícitas ou do tema pesado. O que realmente atravessa o espectador é perceber que aquele mundo não parece desorganizado ou à beira do colapso. Pelo contrário. Ele funciona. Existe lógica, método, repetição. Tudo ali parece estruturado o suficiente para continuar existindo. E é justamente essa sensação de funcionamento que transforma a série em algo mais perturbador do que uma distopia comum.
A narrativa se passa na chamada República de Gilead, um regime autoritário que ocupa o território dos antigos Estados Unidos após um colapso político e social. Nesse sistema, as mulheres deixam de ser reconhecidas como indivíduos e passam a ser organizadas por categorias rígidas, determinadas por função. São denominadas como Aias, responsáveis pela reprodução forçada; Marthas, encarregadas do trabalho doméstico; e Esposas, que ocupam uma posição de prestígio dentro da hierarquia, ainda que também estejam submetidas às regras que sustentam o regime.
Essa divisão vai além da organização funcional. Ela atua como estratégia de controle. Em Gilead, tudo precisa ser nomeado, classificado e limitado. O corpo deixa de ser espaço de autonomia e passa a ser instrumento do Estado. A linguagem deixa de circular livremente e passa a reforçar hierarquias. Até os gestos cotidianos são moldados por rituais, regras de conduta e formas constantes de vigilância. Na superfície de Gilead, quase não há espaço para o acaso, porque cada comportamento parece previamente enquadrado por uma função.
Baseada no romance de Margaret Atwood, de 1985, a série constrói uma distopia que não depende de exageros para impactar. O que assusta não é a distância da realidade, mas a coerência interna daquele mundo. Gilead não parece absurda dentro da lógica que apresenta. Ela parece organizada demais.
Um dos maiores acertos da série está na forma como constrói esse sistema como algo funcional. Não há desordem visível. Não há improviso. Existe uma engrenagem que gira continuamente, sustentada pela repetição e pelo controle. E, dentro dessa engrenagem, a violência não aparece apenas como um ato isolado. Ela está na rotina, nos rituais, nos silêncios e na forma como as relações são estruturadas.

A protagonista June, interpretada por Elisabeth Moss, deixa de ser chamada pelo próprio nome e passa a ser Offred, denominação que indica sua submissão ao comandante Fred. O nome deixa de funcionar como identidade e passa a operar como marca de posse. Em Gilead, o indivíduo não importa pelo que é, mas pela função que ocupa dentro do regime. No caso das Aias, até a forma de nomeá-las reforça que seus corpos foram apropriados por uma estrutura que as transforma em instrumento de reprodução e controle.
Em uma das falas de June, em tradução livre, a personagem reconhece: “Agora, eu estou acordada para o mundo. Antes, eu estava dormindo. Foi assim que deixamos isso acontecer”. A frase funciona como uma síntese da lógica de Gilead. O regime não surge de forma precipitada, ele se constrói aos poucos, aproveitando silêncios, acomodações e a incapacidade de perceber o que está se formando.
Essa percepção desloca a narrativa de um lugar puramente ficcional para algo mais incômodo. A série sugere que Gilead se sustenta também pela adaptação gradual de diferentes sujeitos à ordem autoritária: vítimas que aprendem a sobreviver dentro das regras, cúmplices que se beneficiam da estrutura, autoridades que administram a violência como procedimento e pessoas comuns que passam a aceitar pequenas perdas como se fossem inevitáveis. O regime se fortalece quando aquilo que antes causaria choque começa a ser tratado como norma.
O perigo, portanto, está nessa naturalização. Gilead não se impõe somente pela força explícita, mas pela repetição de práticas que reorganizam o cotidiano até fazer com que a violência pareça parte do funcionamento normal da vida.
Se a lógica de Gilead é construída pela organização, ela é reforçada visualmente pela estética. E é aqui que a série atinge um nível de elaboração muito consistente.
O vermelho das Aias é, talvez, o elemento mais marcante dessa construção. A cor ultrapassa a função de figurino e opera como estratégia narrativa. Ela remete à fertilidade, ao sangue e à função biológica que essas mulheres são obrigadas a cumprir. Mas também cumpre um papel central dentro da ordem de Gilead: em uma estrutura baseada na vigilância, ser visível o tempo todo é uma forma de controle.
O vermelho não veste as personagens, ele as torna localizáveis. Ele marca, expõe e padroniza. Ao mesmo tempo em que destaca os corpos das Aias, também apaga seus traços individuais. Todas passam a ser lidas pela mesma função, como se a cor dissesse antes delas quem são, onde devem estar e o que o regime espera de seus corpos.
O azul das Esposas cria uma aparência de estabilidade e pureza. É uma cor associada ao controle, à disciplina e à ideia de ordem. Mas essa imagem não se sustenta completamente. Serena Joy, interpretada por Yvonne Strahovski, carrega essa contradição. Mesmo ocupando uma posição privilegiada, continua limitada pelas regras da própria organização autoritária que ajudou a sustentar. O azul, nesse caso, não representa liberdade, mas outro modo de aprisionamento.
As Marthas aparecem em tons mais apagados, quase invisíveis dentro da composição visual. Essa escolha também comunica. Elas sustentam o funcionamento cotidiano de Gilead, mas sem ocupar espaço simbólico. Sua presença é necessária à engrenagem, embora permaneça visualmente reduzida, como se o trabalho que realizam precisasse existir sem chamar atenção.

No início, a série consegue transformar todos esses elementos em uma experiência extremamente imersiva. Os enquadramentos fechados criam uma sensação constante de aprisionamento. O silêncio reforça o desconforto. O ritmo mais lento impede qualquer alívio. O espectador não apenas entende Gilead, ele sente o peso daquele sistema em cada cena.
No entanto, conforme a narrativa avança, essa construção começa a apresentar sinais de desgaste. A violência continua presente, mas nem sempre ganha novas camadas. A série passa a repetir movimentos semelhantes: June se aproxima de uma possibilidade de fuga, volta a ser colocada em risco, Gilead parece ameaçada por alguma fissura e, pouco depois, recompõe seus mecanismos de controle. Personagens avançam, recuam, rompem parcialmente com a ordem estabelecida e depois são novamente puxadas para dentro da mesma engrenagem.
Existe movimento, mas nem sempre existe transformação real.
É nesse ponto que a série começa a perder parte da sua força crítica. A repetição, que inicialmente ajudava a mostrar como a violência se naturaliza pela rotina, passa a enfraquecer a denúncia quando retorna sem deslocar a narrativa. O impacto diminui porque o espectador reconhece a estrutura antes mesmo de ela se completar: uma nova ameaça, uma nova tentativa de ruptura, uma nova punição, uma nova reorganização de Gilead.
O problema, portanto, não está na permanência da violência como tema. A violência continua sendo primária para compreender aquele mundo. O desgaste aparece quando ela passa a ser apresentada em variações muito próximas, sem produzir novas leituras sobre as personagens, sobre o regime ou sobre os modos de resistência. O que antes causava choque começa a operar como fórmula.
Mais adiante, outra fala da série, também em tradução livre, ajuda a sintetizar a lógica de Gilead: “Melhor nunca significa melhor para todos. Sempre significa pior para alguém”. A frase concentra uma das ideias centrais da obra, a de que qualquer promessa de ordem, pureza ou estabilidade dentro daquele regime depende da manutenção da desigualdade. Não existe progresso coletivo em Gilead, existe reorganização de privilégios.

Esse é um ponto importante porque amplia a crítica da série para além da violência explícita. Em Gilead, a opressão funciona como uma estrutura de redistribuição estratégica do poder, organizada para manter privilégios concentrados e afastar determinadas pessoas de qualquer possibilidade real de autonomia.
Quando comparada ao livro de Margaret Atwood, essa diferença se torna ainda mais evidente. No romance, a narrativa é mais interna, mais subjetiva. O medo aparece nos pensamentos, nas memórias e nas lacunas. Existe espaço para o silêncio e para a interpretação.
A série, por outro lado, opta por mostrar. Expõe, detalha, constrói visualmente cada aspecto de Gilead. Isso fortalece a estética, mas também exige uma constante renovação narrativa que nem sempre acontece ao longo das temporadas.
Ainda assim, The Handmaid’s Tale continua sendo uma obra extremamente relevante. Principalmente pela forma como constrói a República de Gilead como um sistema coerente, organizado e visualmente impactante.
Mas é impossível ignorar que a série enfrenta um desafio estrutural importante. Sustentar uma crítica exige movimento. Exige evolução. Exige a capacidade de romper com a própria fórmula quando necessário. E, em alguns momentos, a série parece justamente se aproximar daquilo que critica.
Gilead só funciona porque repete, controla e não permite ruptura. Em certos pontos, a narrativa parece seguir esse mesmo caminho, girando em torno de estruturas que já foram apresentadas anteriormente.
Talvez o maior incômodo não esteja apenas no mundo que a série apresenta, mas na sensação de que esse mundo se sustenta bem demais. E de que, aos poucos, até a forma de contar essa história começa a se prender à mesma lógica que tenta denunciar.
No fim, o desconforto permanece, mas muda de lugar. Deixa de estar apenas na história e passa a estar também na narrativa. E é justamente essa contradição que mantém The Handmaid’s Tale tão potente quanto inquietante, mesmo quando começa a revelar os limites da própria construção.

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