Pai que abandona também precisa ser notícia
- Prof. Dr. Alcemar Araújo

- 18 de jun.
- 7 min de leitura
No 18 de junho, o orgulho autista também precisa expor a ausência de homens que fogem da paternidade quando a infância mais precisa de presença

Por Alcemar Araújo | Agência Abre Aspas
O Dia do Orgulho Autista, celebrado em 18 de junho, não comporta homenagens vazias. A data exige que a sociedade olhe para crianças autistas com respeito, dignidade e compromisso. Requer também que reconheça suas formas de existir, comunicar, aprender, brincar, sentir e ocupar o mundo. Essa luta, no entanto, passa pela rotina, pela escola, pela família, pelos serviços de saúde, pelas políticas públicas e pelos espaços em que uma criança autista ainda precisa provar que tem direito de estar.
Nesse debate, é preciso falar de inclusão, acesso à escola, terapias, políticas públicas, diagnóstico, acolhimento e direitos. Mas existem questões que o discurso sobre família quase nunca tem coragem de enfrentar. Quando a infância pede presença, quem se retira? Onde estão os homens que também deveriam exercer a paternidade?
A pergunta causa desconforto ao tocar em uma ferida social que o Brasil insiste em tratar como assunto privado. Quando uma criança nasce, recebe diagnóstico ou passa a demandar uma rotina mais intensa de terapias, consultas, adaptações escolares e apoio familiar, milhares de mães permanecem sozinhas. Não escolheram essa solidão. Não nasceram naturalmente mais fortes. Não vieram ao mundo preparadas para suportar tudo. Permanecem sozinhas diante da ausência de quem também deveria estar ali.
Segundo dados de 2012 divulgados pelo Instituto Baresi e citados pela Câmara dos Deputados, cerca de 78% dos pais abandonaram mães de crianças com deficiência e doenças raras antes de os filhos completarem cinco anos. O número, ainda que antigo, ajuda a dimensionar uma realidade que segue presente. A assistência diária continua recaindo, em grande parte, sobre as mães.
É importante dizer que esse levantamento não trata exclusivamente de famílias de crianças autistas. Ele envolve crianças com deficiência e doenças raras. Ainda assim, dialoga diretamente com uma experiência conhecida por diversas famílias de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Depois do diagnóstico, a presença paterna, quando já era frágil, desaparece de vez.
O abandono nem sempre acontece com mala na porta e despedida formal. Em muitos casos, ele se instala de forma gradual, quando o pai deixa de acompanhar consultas, se ausenta das reuniões escolares, não responde mensagens, atrasa a pensão, questiona o laudo, minimiza as crises e diz que a mãe exagera. Em outros momentos, aparece em datas escolhidas, posa para fotos e cobra afeto da criança, embora continue distante da rotina que sustenta aquela vida.
Por trás de cada mãe chamada de "guerreira" existe uma mulher que talvez quisesse ser menos guerreira e mais amparada por uma sociedade que ainda nomeia como "força" aquilo que é omissão. Existe uma mulher que aprendeu a lidar com plano terapêutico, laudo médico, adaptação pedagógica, fila de atendimento, medicação, seletividade alimentar, crise sensorial, preconceito na escola, julgamento da família e culpa. Muita culpa. Culpa quando trabalha demais. Culpa quando falta ao trabalho. Culpa quando grita. Culpa quando chora. Culpa quando deseja descanso. Culpa até quando pede ajuda.
O Brasil aprendeu a romantizar mães exaustas. Chama de amor aquilo que é abandono institucional, negligência paterna e falta de rede de apoio. A mulher que carrega tudo sozinha é transformada em exemplo, enquanto o pai ausente segue protegido por desculpas antigas. “Ele não soube lidar”. “Ele ficou assustado”. “Ele não tem estrutura”. “Ele ajuda como consegue”. Quem decidiu que a mãe deveria ter estrutura para sustentar sozinha uma responsabilidade que nunca foi somente dela?
Ser pai quando tudo parece fácil não é mérito. Paternidade não se mede por sobrenome no registro, mensagem em aniversário ou fala pronta sobre família. Paternidade se mede na terça-feira comum, quando há terapia. Na quinta-feira de consulta. Na madrugada sem sono. Na escola que chama para conversar. Na criança em crise no mercado. Na conta que chega. No corpo cansado de quem passou o dia sustentando uma rotina que quase ninguém vê.
Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) ajudam a ampliar essa discussão. Entre janeiro de 2016 e julho de 2024, mais de 1,2 milhão de crianças foram registradas no Brasil sem o nome do pai. Esse dado fala de reconhecimento, vínculo, responsabilidade e ausência. Fala de uma estrutura social em que a maternidade é cobrada como destino e a paternidade ainda é tratada como possibilidade.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Censo Demográfico 2022, também aponta uma diferença que não cabe mais ser ignorada. O país tinha 7,8 milhões de unidades domésticas formadas por mulheres sem cônjuge e com filhos. No mesmo levantamento, os homens sem cônjuge e com filhos somavam 1,2 milhão. A distância entre esses números permite compreender tantas casas brasileiras organizadas pelo tempo da mãe, pelo salário da mãe, pela agenda da mãe, pela culpa da mãe e pela solidão da mãe.
O relógio também sabe quem carrega a desigualdade. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2022 mostrou que mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e assistência a pessoas, enquanto os homens dedicavam 11,7 horas. Em famílias nas quais uma criança precisa de acompanhamento mais frequente, essa diferença marca a rotina de modo ainda mais severo, com menos horas de sono, redução das possibilidades de trabalho, limitação da vida social, desgaste da saúde mental e manutenção de muitas mães em estado permanente de alerta.
Quem acompanha essas famílias sabe que a mãe ocupa todos os lugares ao mesmo tempo. É ela quem percebe os primeiros sinais, insiste na busca por diagnóstico, reorganiza a casa, ajusta o trabalho, conversa com a escola, procura atendimento, enfrenta filas, aprende sobre direitos e tenta proteger o filho de um mundo que ainda o recebe mal. Ela se torna agenda, transporte, intérprete, pesquisadora, defensora, enfermeira, professora, advogada e abrigo. Enquanto tenta dar conta de tudo, a ausência paterna segue sendo tratada como detalhe.
A desresponsabilização paterna de crianças autistas e de crianças com deficiência não é acidente doméstico. É escolha, é omissão e é falha coletiva. Quando um pai se afasta, ele não sai somente da vida da mãe. Ele se retira da vida de uma criança. Deixa um lugar vazio no dia a dia, na proteção, na memória afetiva e na divisão das responsabilidades. Também ensina algo: há adultos autorizados a fugir quando a vida demanda presença.
Nenhuma criança deveria ser formada pela ausência de um adulto que escolheu se retirar. Há uma conivência social que precisa acabar. O homem que abandona segue circulando como se nada tivesse sido rompido, enquanto a mãe fica com a rotina, a cobrança, a culpa e a conta. A ausência paterna precisa perder o conforto da invisibilidade. Ela tem nome, tem efeito, tem endereço e precisa ser cobrada no campo moral, jurídico, familiar e social. Exigir presença, responsabilidade e participação diária não é pedir heroísmo masculino. É cobrar o mínimo que ainda parece ousado em tantas casas brasileiras. Quem coloca uma criança no mundo também responde pelo mundo que essa criança terá de enfrentar.
O Dia do Orgulho Autista não pode caber em frases de celebração. O 18 de junho precisa confrontar a sociedade, romper o conforto dos discursos sobre inclusão e expor aquilo que muitos preferem deixar escondido. Não há orgulho possível quando uma criança autista precisa lutar pelo direito de existir, quando uma mãe chega ao limite e quando a ausência paterna continua sendo tratada como detalhe. A luta é diária e urgente. Está na escola que recusa, no serviço de saúde que demora, na terapia que depende de decisão judicial, na família que julga, no pai que se afasta e no Estado que chega tarde. Celebrar sem enfrentar tudo isso é transformar uma pauta de direitos em encenação.
Essa luta passa pela denúncia. Impõe olhar para o adoecimento de mães que tentam garantir direitos básicos aos filhos. Convoca o enfrentamento da realidade de terapias que dependem de batalhas judiciais. Cobra escolas preparadas para receber crianças autistas com dignidade. Obriga a tratar a ausência paterna como aquilo que ela é: uma ruptura que reorganiza a vida inteira de uma família.
Também é preciso falar das mães que não têm tempo para militar, postar, estudar leis ou explicar o próprio cansaço. Mães que vivem entre trabalho, ônibus, escola, laudo, consulta, supermercado e medo do futuro. Mães que ouvem que precisam aceitar, agradecer, ter paciência, ter fé e seguir. Mães que amam profundamente seus filhos, mas estão cansadas de serem deixadas sozinhas com tudo.
Amor materno não substitui política pública. Amor materno não isenta pai de responsabilidade. Amor materno não deveria ser usado como desculpa para manter mulheres no limite.
É preciso reconhecer os homens que permanecem, porque eles enfraquecem a desculpa de que a paternidade diante do autismo seria impossível, pesada demais ou reservada às mães. Há pais que acompanham terapias, participam da escola, estudam, perguntam, erram, voltam, aprendem e dividem decisões sem transformar presença em favor. Esses homens mostram que a paternidade possível não precisa ser perfeita, precisa ser responsável. Ao mesmo tempo, a presença deles também denuncia a escolha dos que partiram, porque cuidar, permanecer e aprender não dependem de heroísmo, dependem de compromisso.
Uma sociedade que diz defender a família precisa parar de proteger somente uma imagem de família. Família se defende com renda, tempo, escola acessível, atendimento digno, políticas públicas, responsabilização legal e divisão das tarefas. Família se defende quando a criança autista tem direito de existir sem que sua mãe precise se destruir para garantir o mínimo.
Neste Dia do Orgulho Autista, a pergunta não deve recair sobre a capacidade das mães de suportar a rotina. Elas já sustentam, há tempo demais, aquilo que deveria ser dividido. A pergunta que precisa ocupar a casa, a escola, a Justiça e o debate público é outra: por que tantos homens ainda se sentem autorizados a abandonar os próprios filhos?
Há uma conta sendo empurrada para as mães, e o país aprendeu a chamar isso de amor. Não é. É sobrecarga naturalizada, paternidade tratada como escolha e infância atravessada por ausências que quase ninguém cobra. A mãe vira monumento porque falta rede de apoio, falta política pública, falta divisão do cuidado, falta pai. E quando uma sociedade transforma exaustão em homenagem, ela não está celebrando a maternidade. Está lavando as mãos.
Criança autista não precisa de pena. Precisa de direito. Mãe atípica não precisa de glorificação. Precisa de rede de apoio, descanso, renda, escuta e respeito. Pai não precisa ser herói. Precisa ser pai.
E pai que abandona também precisa ser notícia.


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