O sustento que vem das mãos e da forma de gestão
- Karoline Martins

- há 3 dias
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Aline Reis aprendeu a fazer unhas pela internet e hoje sustenta uma casa com agenda construída cliente por cliente

Por Karoline Martins | Agência Abre Aspas
Às 8h, os atendimentos começam. A luz é ligada naquele local que antigamente era a sala de casa; hoje é um espaço de onde sai o sustento da família. O uniforme é colocado. A vassoura desliza pelo chão e tudo é organizado para a chegada da primeira cliente do dia. A gaveta se abre: o top coat é retirado, as lixas são separadas, a cabine é ligada. E ali que Aline Reis, nails designer em Cascavel, começa mais um dia de trabalho.
A primeira cliente chega e as conversas começam a fluir. A correria do trabalho, os compromissos da semana, a manutenção que precisava ser feita e a indecisão diante das dezenas de cores de esmalte. A bancada, que antes estava impecavelmente organizada, já passa a mostrar os sinais do primeiro atendimento: esmaltes abertos sobre a mesa, algodões usados, instrumentos espalhados pela pressa da rotina.
Por trás de cada atendimento existe uma história: a renúncia de não aproveitar as férias do filho, os finais de ano em família perdidos por causa da agenda lotada, o cansaço físico e o desgaste mental. Não é apenas o trabalho das mãos que sustenta o pequeno negócio, mas também a gestão financeira e as preocupações silenciosas que acompanham a rotina.
É desse trabalho, feito entre a poeira da lixa, o esmalte que borrou e precisou ser refeito e um atendimento que parece simples, que vem o sustento dela e do filho, a comida colocada todos os dias sobre a mesa.
MEDO QUE NÃO ESPERA
O início da trajetória de Aline não foi marcado por grandes investimentos ou cursos especializados, mas da necessidade. Desempregada, com um filho pequeno e sem conseguir uma vaga no CMEI da cidade, ela se viu diante das contas acumulando e da urgência de encontrar uma forma de sustento. Foi nesse contexto que nasceu a ideia de trabalhar como nail designer, incentivada por uma conversa com a cunhada.
“Eu lembro que, naquele momento, eu precisava de dinheiro. Meu filho estava na fila de espera da creche e eu não tinha com quem deixá-lo para procurar um trabalho CLT. Em uma conversa com a minha cunhada, ela me incentivou a começar a fazer unhas. E foi assim que tudo começou. Eu tinha muito pouco e medo, mas tinha uma motivação que me fazia começar com o que tinha”, relembra.
Sem dinheiro e sem um espaço próprio para investir, Aline começou com o que tinha à disposição: R$ 70. Com esse valor, comprou pelo Facebook uma cabine de unhas e uma lixadeira usadas. Os primeiros atendimentos aconteceram em um espaço improvisado na garagem de casa, em uma simples mesa de plástico. A primeira cliente foi justamente a cunhada que a incentivou a dar os primeiros passos na profissão. No início, os atendimentos eram realizados sem cobrança, como uma forma de ganhar prática e confiança. Quando começou a cobrar pelo serviço, o valor era de R$ 40.
Durante cerca de um ano, o aprendizado de Aline aconteceu por meio de uma ferramenta acessível a milhares de brasileiros: o YouTube. Ela passava horas assistindo a vídeos, observando técnicas e reproduzindo os movimentos em si mesma, aperfeiçoando o trabalho na prática. O primeiro curso profissionalizante só veio em 2020, após mais de um ano de atendimentos. O investimento foi possível graças ao dinheiro conquistado com o próprio trabalho. A formação foi ministrada pela profissional Jéssica Vicente. “O meu primeiro curso veio só em 2020. Eu já atendia desde 2019 e consegui pagar por ele com o dinheiro que ganhei fazendo unhas”, relembra.
BELEZA: ENTRADA PARA EMPREENDER
No Brasil, o empreendedorismo feminino encontra no setor da beleza um dos seus maiores espaços de atuação. Seja na estética corporal, no design de unhas, cílios e maquiagem, milhares de mulheres passaram a enxergar na área uma possibilidade de renda. Segundo os dados da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil, publicado em 3 de fevereiro de 2026, o setor da beleza ultrapassou a marca de 236 mil pequenos negócios formalizados em 2025, sendo uma das principais portas de entrada para o empreendedorismo no país.
Um levantamento feito pela Agência do Sebrae/PR, com base na Receita Federal e no IPC Maps, apontam que em maio de 2026 no Paraná, mais de 909 mil empresas ativas são lideradas por mulheres, sendo que cerca de 90% desses empreendimentos fazem parte da categoria de pequenos negócios.
Uma pesquisa do Impulsiona Sebrae também evidencia a força da área da beleza como fonte de sustento. Segundo o levantamento, cerca de 44% dos entrevistados apontaram os serviços como principal fonte de renda.
Para a consultora Thaís Costa, o crescimento do setor está diretamente ligado à busca das mulheres por independência financeira, flexibilidade e autonomia profissional. “Hoje, muitas mulheres enxergam no setor da beleza uma possibilidade real de renda. Além da autonomia financeira, existe também a flexibilidade de horário, que acaba permitindo uma presença maior dentro da rotina familiar e na criação dos filhos”, explica.
GESTÃO E RESPONSABILIDADE
O setor da beleza é uma atividade que gera renda e sustenta milhares de famílias, mas vai muito além do domínio das técnicas. Empreender na área exige organização, planejamento e responsabilidade financeira para manter o negócio em funcionamento. Além do atendimento ao cliente, profissionais do segmento precisam administrar receitas e despesas, controlar investimentos e se preparar para períodos de menor movimento, equilibrando a rotina de trabalho com a gestão do próprio empreendimento.
Para a consultora Thaís Costa, um dos maiores desafios enfrentados por pequenos empreendedores está justamente na gestão financeira do negócio. “Os erros mais comuns são misturar o dinheiro pessoal com o dinheiro da empresa, não criar uma reserva financeira e fazer uma precificação errada do serviço. Muitas vezes, a profissional trabalha bastante, mas não consegue enxergar o lucro real justamente pela falta de gestão”, explica.
Segundo Thaís, a precificação correta vai muito além do valor gasto com os materiais utilizados durante os atendimentos. Custos como energia elétrica, internet, manutenção do espaço, cursos de capacitação e margem de lucro também precisam entrar na conta para que o negócio seja sustentável a longo prazo.
A consultora ainda destaca que uma das maiores dificuldades de quem começa é justamente identificar o lucro verdadeiro do próprio trabalho.
Na prática, essa responsabilidade financeira também passou a fazer parte da rotina de Aline Reis. Sustentando a casa e o filho através do próprio trabalho, ela conta que precisou aprender, com o tempo, a organizar melhor o dinheiro e entender os períodos de maior e menor movimento.
“Hoje sou eu e meu filho dentro de casa, então aprendi na marra a ter responsabilidade financeira. Tem meses que são mais fracos e outros em que o movimento aumenta bastante. Como já faz sete anos que trabalho nisso, eu consigo entender melhor os períodos do ano e me organizar para os meses mais difíceis”, relata.
A organização da agenda também se tornou parte importante da rotina profissional. Durante muito tempo, Aline utilizou apenas uma agenda comum para controlar os horários das clientes. Hoje, investe em uma plataforma digital paga anualmente, que facilita o gerenciamento dos atendimentos e a disponibilidade dos horários repassados às clientes, o que facilita para ela marcar e enviar lembretes para as clientes.
INSTAGRAM COMO VITRINE
Para Aline, as ferramentas digitais se tornaram uma das principais aliadas do negócio. Sem investir em anúncios pagos, ela utiliza as redes sociais como uma vitrine gratuita para divulgar o próprio trabalho, principalmente o Instagram. Diariamente, publica fotos e vídeos dos atendimentos realizados, mostrando os resultados das unhas produzidas por meio de reels e publicações. A estratégia tem ajudado a atrair novas clientes, que, ao encontrarem o perfil na rede social, são direcionadas para o WhatsApp. Segundo Aline, a plataforma facilita a comunicação, o agendamento e o atendimento ao público.
“Hoje, grande parte das minhas clientes chegam pelas redes sociais. Eu publico diariamente os trabalhos que faço e começam a surgir mensagens. As pessoas acompanham o resultado e acabam criando confiança no meu trabalho antes mesmo do vir fazer a uha”, explica.
A experiência de Aline reflete uma realidade observada em todo o setor. Uma avaliação do Mercado da Beleza no Paraná, realizada em 2024, mostra que o Instagram se tornou a principal vitrine digital para profissionais da área. Segundo a pesquisa, cerca de 80% dos consumidores costumam conhecer ou procurar serviços de beleza primeiro pela plataforma.
O QUE NINGUÉM VÊ
O ramo da beleza não é feito apenas de glamour, estética e redes sociais organizadas. Existe uma parte silenciosa que quase ninguém vê: as agendas lotadas no fim do ano, os sábados longe da família, as dores nas costas após horas seguidas de atendimento e o trabalho que continua mesmo nos dias mais difíceis.
Por trás das fotos publicadas no Instagram, existem atendimentos realizados enquanto a mente está ocupada por problemas que acontecem fora dali. Para Aline, empreender no setor da beleza também significou aprender a seguir trabalhando mesmo diante do cansaço físico e emocional.
“As pessoas veem o resultado pronto, as unhas bonitas, a minha agenda cheia, mas não imaginam por trás disso. Já trabalhei doente, cansada e em momentos muito difíceis da minha vida pessoal, porque eu sabia que não podia simplesmente parar. Quando você depende do próprio trabalho para sustentar a casa e o filho, não existe essa opção `parar’ ”, relata.
Hoje, a realidade já não é a mesma da mesa de plástico na garagem. A cadeira improvisada deu lugar a uma com apoio adequado para as costas, capaz de suportar horas seguidas de atendimento. A agenda de papel, que antes exigia conferências constantes, foi substituída por uma versão digital que ajuda a organizar a rotina. São mudanças que podem parecer simples, mas que fizeram diferença no dia a dia de Aline.
CONSTRUÇÃO E FIDELIDADE
No início, uma das maiores dificuldades costuma ser conquistar clientes. É natural que exista insegurança em confiar em um trabalho ainda pouco conhecido, especialmente quando a profissional está começando sem um espaço próprio ou uma estrutura consolidada. Nesse cenário, as redes sociais acabam se tornando uma ferramenta importante para quem busca crescer no setor da beleza.
Para Aline, a construção da clientela aconteceu aos poucos, entre divulgações no Instagram, indicações e a constância do trabalho. Mesmo atuando em um ambiente improvisado e com poucos recursos, ela buscava oferecer o melhor atendimento possível dentro das condições que tinha.
Hoje, a realidade já é diferente. Aline atende de segunda a sexta-feira, com folgas alternadas aos finais de semana, e recebe, em média, cinco clientes por dia. A rotina intensa é resultado de uma clientela construída gradualmente e marcada pela fidelização. Atualmente, ela vive exclusivamente da renda obtida com os atendimentos e encontrou na profissão uma fonte de estabilidade financeira. Apesar de ainda não possuir formalização como MEI e de não separar completamente as contas do negócio das despesas pessoais, já administra a atividade com cuidado e organização.
“Acho que o que mais me fascina é poder construir os meus próprios horários e ver as clientes voltando pelo meu trabalho. A minha agenda fixa mostra a fidelização das minhas clientes. Não é só fazer unha, é a forma como eu atendo, converso, recebo a cliente e transmito confiança. Minha postura profissional faz toda diferença para que ela queira voltar”, conta.
Mais do que ter a técnica, a fidelização no setor da beleza também passa pela relação construída durante os atendimentos. Em um mercado cada vez mais competitivo, conquistar espaço exige profissionalismo, transmissão de confiança e cuidado no atendimento.
Acompanhando a trajetória de Aline desde 2020, Lindinalva Oliveira, vendedora, viu de perto o crescimento profissional. A relação construída desde os primeiros atendimentos foi essencial para que a cliente permanecesse ao longo dos anos. “Estou com a Aline há quase seis anos. O trabalho dela é impecável, as unhas duram bastante e ela sempre manteve muito profissionalismo no atendimento”, relata.
O momento do atendimento também representa cuidado pessoal e autoestima. “Fazer as unhas, para mim, é dedicar um tempo para minha autoestima. Isso reduz o meu estresse, aumenta minha confiança e me deixa mais preparada para o dia a dia”, conclui.
Quando a última cliente sai, a bancada ainda guarda sinais do dia. No pó da lixa e nas mensagens que ficam para responder, Aline vai organizando o trabalho que sustenta a casa.

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