O que cabe em uma caixa de café da manhã
- Jamile Milzarek

- há 3 dias
- 6 min de leitura
Jovens empreendedoras transformam caixas de café da manhã em pequeno negócio de experiência, afeto e gestão em Cascavel (PR)

Por Jamile Milzarek | Agência Abre Aspas
O bilhete é sempre a última coisa a ser escrita. Não por falta de tempo, mas por princípio. Ele só tem sentido quando já se sabe quem vai receber a caixa, o que essa pessoa está passando, o que merece ser dito. Não existe bilhete genérico no Acalento. Existe uma caixa que aguarda um nome.
Antes do bilhete existe uma mesa. E antes da mesa, existe uma rotina dupla que poucas pessoas veem: Mariana de Lima passa o dia trabalhando com energia solar. Gabriela Maas, com desenvolvimento de sistemas. Quando o expediente termina, ou às vezes antes que ele comece, ainda antes do nascer do sol, as duas se encontram em casa para montar mais uma encomenda. Papel manteiga dobrado com cuidado. Biscoitos amanteigados contados e separados. Pãezinhos de queijo embalados individualmente. O cupcake com glacê em forma de rosa é posicionado por último, no canto da caixa, porque é o ponto de cor da composição e não pode ser amassado. E o celular vibra com novos pedidos chegando pelo direct do Instagram.
Assim funciona o Acalento, Café na Caixa. Um negócio novo, nascido em Cascavel há poucos meses, construído nas margens de duas jornadas de trabalho que ainda não foram abandonadas. Mariana e Gabriela não largaram o emprego formal para empreender. Elas estão empreendendo enquanto o emprego formal ainda paga as contas. Esse detalhe diz mais sobre como pequenos negócios realmente nascem do que qualquer post de LinkedIn sobre coragem.
ESTÉTICA DO CUIDADO
Mariana de Lima e Gabriela Maas têm 22 anos e são sócias dentro do negócio e noivas na vida. Com rotinas de trabalho formal que já exigem energia suficiente por si mesmas, as duas chegaram ao empreendedorismo não por necessidade imediata, mas por uma inquietação que o emprego não conseguia resolver: a vontade de construir algo que fosse delas.
A ideia surgiu de uma necessidade pessoal. No fim de 2025, Mariana queria presentear a irmã no aniversário, mas não com flores, nem com uma cesta genérica com celofane enrolado e etiqueta impressa. Ela pesquisou o que havia disponível em Cascavel e encontrou cestas prontas, de prateleira, sem personalização. Queria algo que dissesse, antes de qualquer palavra, que havia sido pensado para aquela pessoa naquele momento. A pergunta foi natural: por que não fazer?
"A gente queria algo nosso. Não necessariamente para largar tudo amanhã, mas para começar a construir", conta Mariana.
As duas bancaram o começo do próprio bolso. Compraram as primeiras caixas, os insumos, o papel manteiga e as fitas sem financiamento, sem linha de crédito, sem sócio-investidor. Só elas duas e o que tinham. O investimento inicial veio dos próprios salários. Foi aí que Gabriela entrou. As duas têm perfis complementares: Mariana tem olho para apresentação e composição visual. Gabriela pensa em processo: como organizar pedidos, controlar estoque, garantir que a montagem seja reproduzível mesmo quando o volume aumenta. Sozinhas, cada uma teria feito algo. Juntas, fundaram o Acalento.
O nome não foi escolhido por acidente. Acalentar é um verbo que carrega ao mesmo tempo o gesto de embalar, de consolar e de proteger algo delicado. É o que uma caixa bem montada pode fazer quando chega na porta de alguém no momento certo. Num aniversário, Dia das Mães, Dia dos Pais, ou numa terça-feira sem motivo específico além de querer que alguém saiba que é especial.
"A gente queria que o nome dissesse o que o produto faz antes de a pessoa abrir a caixa", explica Gabriela. A identidade visual reforça o mesmo argumento: a caixa de papelão kraft, a tipografia serifada, os tons terrosos e quentes são uma declaração estética sobre o tipo de experiência prometida. Para Angélica Fabiana Fonseca Weirich, consultora do Sebrae/PR na Regional Oeste, essa escolha não é detalhe: é estratégia. "A identidade visual é o primeiro contato, a primeira impressão que o consumidor vai ter da marca. Quando eu vejo essa identidade visual, já começo a entender se tenho essa conexão ou não, se é o tipo de negócio que eu quero frequentar, que eu quero ser cliente".
APRENDIZADO
Cada caixa do Acalento é personalizada conforme o pedido e montada em casa, na cozinha onde o negócio nasceu. As encomendas chegam pelo Instagram; os clientes indicam preferências, restrições alimentares e o perfil de quem vai receber. Mariana e Gabriela escolhem os itens, pensam na composição, montam, embalam e escrevem o bilhete. Quando o cliente tem intolerância à lactose, por exemplo, os itens mudam: o pão de queijo sai, entram opções compatíveis, sem que a caixa perca o cuidado estético. As caixas custam entre R$ 120 e R$ 220, conforme a composição e as solicitações de cada pedido. O que os clientes pagam não é o pão de queijo nem o biscoito, é a curadoria, o tempo e a atenção ao detalhe que elas próprias não teriam como dedicar.
"A gente percebeu que quem compra não está comprando só café da manhã", diz Gabriela. "Está comprando a possibilidade de dar um presente que parece ter sido feito com as próprias mãos, mesmo que a pessoa não soubesse fazer isso se tentasse, algo personalizado". Angélica reconhece esse modelo como uma das formas mais eficazes de diferenciação para pequenos negócios: "Todo mundo vende café. Um café com experiência, poucas empresas vendem. O consumidor não está interessado no café, está interessado no momento que ele vive tomando esse café".
FORA DO FEED
O feed das redes sociais do Acalento é coerente e cuidadoso. O que não aparece: o pedido que chegou sem tempo para repor um ingrediente que havia acabado, a semana em que um fornecedor falhou na véspera de uma data comemorativa, a noite em que as duas sentaram para calcular se o preço cobrado cobria o que havia sido gasto, e descobriram que não.
O Dia dos Namorados está próximo. É a data que elas mais esperam desde que o Acalento começou e também a que mais exige: mais pedidos, mais montagens, mais variáveis para controlar. Para as duas, é o primeiro teste real de escala.
"A gente sabia que ia ser difícil, mas não de que jeito", admite Gabriela. O primeiro aprendizado foi sobre tempo: cada caixa leva entre 40 e 50 minutos para ser montada quando tudo está no lugar. Na prática, alguma variável quase sempre escapa. "Otimismo é ótimo para começar. É o planejamento que garante a entrega", resume Mariana.
A precificação foi o segundo e mais caro aprendizado. No início, se os ingredientes custavam R$ 20, cobrava-se R$ 40. A margem parecia existir. Até que as contas mostraram que não. "A gente foi entendendo que o produto não custa só o que tem dentro da caixa", conta Mariana. "Custa a embalagem, o papel manteiga, a fita, o bilhete, o tempo de montar, o combustível da entrega, o tempo de responder no direct".
Angélica nomeia o erro com precisão: "É a lógica de: custou cinco, vendo por dez, ganhei. Mas quando a gente calcula o custo real, precisa embutir todos os custos fixos e variáveis: o aluguel, o imposto, a água, a luz, até o detergente que lava a louça na cozinha". E completa: "Se eu entrego uma embalagem personalizada, preciso embutir esse valor no custo do produto. Senão, amargo prejuízo fazendo algo que as pessoas adoram". Ela também aponta o traço geracional: "A ansiedade é característica do jovem, ter a ideia e já querer colocar em prática, esquecendo a importância do planejamento, da pesquisa de mercado, de conhecer o concorrente e discutir o público".
AFETO E GESTÃO
O Acalento é parte de um fenômeno que dados do Núcleo de Inteligência e Conhecimento do Sebrae/PR, com base na Receita Federal e no IPCMAPS, referentes a maio de 2026, ajudam a dimensionar. Em Cascavel, 32.455 empresas ativas são lideradas por mulheres, o que representa 45,7% do total de negócios da cidade, sendo 90% deles pequenos negócios. A idade média das empreendedoras MEI na cidade é de 39 anos. Mariana e Gabriela, com 22, estão quase duas décadas abaixo dessa curva: pertencem a uma geração que está entrando no empreendedorismo mais cedo, com menos capital acumulado e maior necessidade de diferenciação para sobreviver.
A avaliação da consultora desloca a história do campo do afeto para a lógica de mercado: a caixa precisa emocionar, mas também precisa pagar cada etapa da operação.
Mariana e Gabriela não abandonaram seus empregos. O Acalento cresce nas margens da rotina, antes do expediente, depois do expediente e nos fins de semana. O ponto de virada, dizem as duas, será quando o faturamento permitir que cada uma viva só do negócio. Não existe número fechado ainda, mas existe direção.
"A gente aprendeu que o afeto não é o oposto do lucro", diz Mariana. "O afeto é o nosso diferencial, mas ele precisa ser sustentado por organização, por precificação correta, por saber o que custa de verdade e cobrar por isso". Gabriela completa: "O produto mais difícil de precificar é o carinho. Mas se você não aprende a cobrar por ele, você quebra fazendo algo que ama. E aí o cuidado acaba junto com o dinheiro".
O bilhete ainda está em branco. Vai ser a última coisa a ser escrita depois que o nome chegar, depois que o pedido for confirmado, depois que a caixa estiver pronta. Essa é a ordem do Acalento: primeiro o processo, depois a poesia. As duas precisaram aprender isso. E o negócio, ao que tudo indica, está aprendendo rápido.

Comentários