O pão e o sangue de Cristo
- Eduardo Tomé

- há 2 dias
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Na voz da catequista Elsa Salvador, Corpus Christi leva a fé para as ruas e transforma o caminho em celebração da presença de Cristo

Por Eduardo Tomé da Silveira | Agência Abre Aspas
A história começa no silêncio de um convento em terras belgas, no início do século XIII. Juliana de Cornillon, uma freira de olhar voltado para o invisível, mirava a lua e via algo que ninguém mais via. Havia uma mancha escura, uma lacuna na luz. Em suas orações, segundo a tradição católica, Jesus explicava o enigma: a lua representava a Igreja, e a mancha indicava a ausência de uma festa. Faltava um dia para celebrar, sem a tristeza profunda da Sexta-Feira Santa nem o recolhimento da Quinta-Feira Santa, a alegria do pão que se faz carne. Juliana tornou-se guardiã de um desejo divino que ainda esperaria décadas para florescer.
Mas a fé, às vezes, precisa se encontrar com a realidade. Esse abalo ocorreu por meio da dúvida do padre Pedro de Praga, em 1263. Enquanto peregrinava rumo a Roma, carregando o peso de seus questionamentos sobre a presença real de Cristo na hóstia, ele parou em Bolsena. Durante a consagração, o impossível aconteceu: a hóstia teria sangrado e tingido o linho do altar, o corporal. O sangue era real para os olhos da fé, e o susto era palpável. O fenômeno deixou de ser apenas uma visão particular de uma freira e passou a circular como um acontecimento que o Papa Urbano IV não conseguiu desconsiderar. O milagre de Bolsena foi o selo que faltava para que o mundo celebrasse Corpus Christi.
Para quem vive a fé no dia a dia, como a catequista e ministra Elsa Salvador, essa história ganha um sentido mais próximo. Para ela, celebrar Corpus Christi é como preparar um aniversário. Sabe quando cantamos os "parabéns" para alguém querido? É um momento de parar tudo para reviver a alegria de uma presença. "É uma forma de expressar nossa alegria, de saber que temos esse Deus que está no meio de nós", ensina Elsa. Embora todo dia seja dia de Deus, Corpus Christi é a data de "cantar os parabéns" para o Sacramento que sustenta os fiéis.
Essa divindade, que Santo Tomás de Aquino tentou explicar, é a mesma que Elsa descreve pela delicadeza do amor: um Deus que se fez humano para conhecer nossas necessidades de perto. O olhar dela, como catequista, volta-se sempre para a humanidade de Deus. Ela conta que Jesus não é um símbolo abstrato nem uma ideia distante. É o Deus Trino que se fez carne, sentiu fome, suou e decidiu ficar preso a um pedaço de pão para nunca mais nos deixar. Ao caminhar pelas ruas sobre os tapetes, Jesus não está apenas "desfilando".
Ele percorre o território de seus filhos, passa pela porta das casas onde há dor, desemprego e esperança. Veio em forma humana para entender o que dói em nós e, sabendo disso, agir por nós.
É por isso que, quando a festa atravessa o oceano e chega ao Brasil, ela ganha as cores da serragem e das flores. Se o "Aniversariante", centro de nossas vidas, vai passar pela rua, o chão não pode ser só asfalto e pedra. Movido pelo sentimento descrito por Elsa, de mostrar que Jesus vive e caminha entre nós, o povo enfeita o caminho.
Para a ministra e catequista, Corpus Christi é o dia em que o Sagrado rompe as paredes da igreja e ganha o asfalto. É o dia em que a fé deixa de ser sussurro individual para se tornar um grito coletivo de pertencimento. Quando os tapetes forem desfeitos, Elsa sabe que o objetivo foi cumprido. O "parabéns" foi cantado. O Deus que conhece nossas necessidades caminhou entre nós. E ela, com a alma lavada pela beleza do rito, volta para casa sabendo que o centro de sua vida, aquele Jesus humano e divino, continuará ali, batendo no peito de cada pessoa que Ele visitou naquela tarde. É como se a cidade inteira dissesse: "Nós cremos e Ele está aqui".
Corpus Christi, na visão de Elsa, é o lembrete anual de que o céu não é um destino distante, e sim uma realidade que desceu para a rua. Deus vestiu-se de pão, calçou as sandálias da nossa humanidade e resolveu morar na nossa vizinhança. O chão, antes comum e pisado pela pressa, torna-se santuário pela passagem de um Deus que, antes de tudo, é Pai e faz questão de estar presente na festa de seus filhos, caminhando lado a lado conosco, até o fim dos tempos.
Depois da procissão, quando os tapetes começam a desaparecer, fica a imagem que sustenta a festa: o pão foi partido, o caminho foi florido e a mancha na lua que Santa Juliana viu há oitocentos anos parece preenchida pela luz da celebração.

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