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O glamour de Tremembé e o filtro que suaviza a prisão

Série do Prime Video desloca o olhar das vítimas para condenados conhecidos e transforma a "penitenciária dos famosos" em produto de entretenimento


Produção acompanha a rotina de presos conhecidos na penitenciária de Tremembé, no interior de São Paulo | Crédito da foto: Prime Video/Divulgação
Produção acompanha a rotina de presos conhecidos na penitenciária de Tremembé, no interior de São Paulo | Crédito da foto: Prime Video/Divulgação

Por Kamilly Felipe | Agência Abre Aspas


Nos últimos anos, o true crime deixou de ser um nicho para se tornar uma das engrenagens mais lucrativas do entretenimento. Documentários, podcasts, livros e séries passaram a revisitar crimes que já haviam ocupado manchetes, transformando casos policiais em produtos culturais consumidos por milhões de espectadores. Nesse movimento, a fronteira entre informação e espetáculo ficou cada vez mais difusa, enquanto pessoas antes conhecidas pelos processos judiciais passaram a receber novas camadas narrativas diante das câmeras.


É nesse cenário que aparece Tremembé, série do Prime Video inspirada na penitenciária localizada no interior paulista que ficou conhecida por abrigar alguns dos presos mais famosos do país. A produção se propõe a retratar o cotidiano da chamada "penitenciária dos famosos", acompanhando personagens associados a casos que marcaram o noticiário brasileiro. Em vez de reconstituir os crimes, a narrativa concentra o olhar na convivência dentro dos muros da prisão e nas relações estabelecidas entre os detentos.


A escolha narrativa não é casual. Produções contemporâneas de true crime têm demonstrado interesse crescente pela vida posterior dos autores de crimes. A pergunta deixa de ser apenas "o que aconteceu?" e passa a incluir "quem são essas pessoas depois do crime?". Essa mudança de perspectiva desloca, muitas vezes, o foco das vítimas para os condenados, convertendo figuras conhecidas do noticiário em protagonistas de histórias de sofrimento, superação ou redenção.


É justamente nesse ponto que Tremembé mostra suas maiores contradições. Ao privilegiar a intimidade de personagens célebres e reconstruir suas trajetórias sob uma estética cuidadosamente elaborada, a série corre o risco de transformar privilégio em humanidade e violência em detalhe narrativo. O resultado é uma obra que fala menos sobre o sistema prisional brasileiro e mais sobre a forma como a indústria do entretenimento escolhe lembrar seus criminosos mais midiáticos.


A PRISÃO COMO CENÁRIO DE ENTRERENIMENTO


Nas lentes da produção, as grades da penitenciária de Tremembé ganham uma aparência distante da dureza do cárcere. Para quem assiste, o presídio pode parecer um espaço quase controlado, onde o tempo é ocupado por conversas, costuras, disputas internas e diálogos de efeito. Mas o chão dessa história é mais áspero do que a fotografia sugere. Existe distância entre a convivência organizada para a tela e o rastro de destruição que levou aquelas figuras até a prisão.


A série faz uma escolha de enquadramento: decide quem recebe close, tempo de tela e escuta. Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga ocupam o centro da narrativa, enquanto outras histórias aparecem como apoio para esse percurso. O problema não está apenas em retratar essas mulheres, mas em construir ao redor delas uma atmosfera que pode suavizar o peso dos crimes e aproximar o espectador de uma intimidade cuidadosamente editada.


Essa lógica não nasceu com Tremembé. Um exemplo anterior apareceu no caso Eloá Pimentel, em 2008, quando a cobertura ao vivo do sequestro colocou o agressor no centro da cena pública. Naquelas horas de transmissão, a mídia não apenas narrava o crime, ela também organizava a atenção do público em torno de quem mantinha uma adolescente sob ameaça. O espetáculo televisivo ajudou a construir uma forma de consumo da violência que o true crime atual herdou e sofisticou.


Tremembé se alimenta dessa tradição de espetacularização. Se a televisão já havia oferecido palco para agressores em tempo real, o streaming transforma a memória de crimes em narrativa seriada, com ritmo, fotografia, trilha e personagens desenhados para prender o público. Ao focar a rotina do pavilhão, a produção pode levar o espectador a olhar para os condenados como personagens de uma trama quase familiar, enquanto a violência que os levou até ali fica em segundo plano.


PERSONAGENS DE APOIO E HIERARQUIA DE ATENÇÃO


Uma análise crítica precisa confrontar a ficção com os fatos e perguntar quais histórias ficam à margem. Na série, figuras de apoio parecem funcionar como escada para protagonistas mais midiáticas. Quando coadjuvantes aparecem apenas para sustentar a jornada emocional de condenadas famosas, o roteiro reduz outras trajetórias a recurso dramático.


O resultado é uma hierarquia de atenção. Personagens com maior reconhecimento público recebem densidade, conflito e possibilidade de escuta. Outras aparecem como extensão da narrativa central, sem que o público compreenda a gravidade de seus próprios crimes, suas histórias e o lugar que ocupam naquele ambiente.


Também pesa o que a série escolhe deixar fora de quadro. Nomes ligados ao presídio e já conhecidos pelo noticiário, como Acir Filló e Gil Rugai, poderiam ampliar a discussão sobre poder, classe, mídia e circulação de influência dentro da prisão. Quando essas ausências não são trabalhadas, a narrativa fica menos disposta a encarar as camadas incômodas do próprio universo que escolheu representar.

A INTELIGÊNCIA COMO FILTRO DE EMPATIA


A figura de Mariano, tratado pela trama a partir do desempenho acadêmico, expõe outro risco da narrativa: transformar estudo e repertório em atalho para empatia. Quando a inteligência de um condenado vira principal elemento de humanização, o crime pode ser deslocado para segundo plano. O espectador passa a olhar para a capacidade intelectual como se ela diminuísse o peso da violência.


AS AUSÊNCIAS TAMBÉM CONTAM A HISTÓRIA


A maior fragilidade da série está nas escolhas de foco. Toda produção precisa fazer recortes, mas esses recortes dizem muito. Tremembé prefere acompanhar relações internas, disputas afetivas e conflitos de convivência a enfrentar, com a mesma força, o trauma deixado pelos crimes. O problema não está em mostrar a vida no cárcere, e sim em permitir que a rotina dos condenados se torne mais interessante do que a memória das vítimas.


Ao transformar condenados conhecidos em personagens de uma narrativa visualmente atraente, Tremembé levanta uma pergunta que ultrapassa a própria série: até que ponto o entretenimento pode revisitar crimes reais sem reorganizar a dor das vítimas em favor de quem matou? A resposta não aparece nos figurinos, nos diálogos ou nos conflitos de cela. Está no silêncio de quem ficou fora da tela. Quando a indústria escolhe embelezar o cárcere e suavizar seus protagonistas, ela não conta apenas uma história. Ela também decide quem será lembrado e quem continuará sem voz.

 

 


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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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