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O espetáculo e a omissão do filme “Michael” dividem crítica e público

Longa impressiona nas performances e recriações, mas trata de forma rasa as contradições do Rei do Pop


Jaafar Jackson interpreta seu tio Michael na cinebiografia | Crédito da foto: Glen Wilson/Lionsgate
Jaafar Jackson interpreta seu tio Michael na cinebiografia | Crédito da foto: Glen Wilson/Lionsgate

Por Mateus Dias | Agência Abre Aspas


Um dos assuntos que movimentou as timelines, as conversas e o mundo do cinema nas últimas semanas foi a nova cinebiografia “Michael”, filme biográfico que propõe apresentar a vida e os bastidores da trajetória do cantor Michael Jackson.


Segundo o portal Deadline, a produção contou com orçamento de cerca de US$ 200 milhões, elementos associados ao próprio artista, como figurinos, e a presença de membros da família Jackson na produção do longa-metragem.

Porém, com a estreia nos cinemas, um debate clássico entrou em cena: a relação entre as avaliações positivas do público e as negativas da crítica. Nas primeiras semanas de circulação do filme, a média de notas dos especialistas seguia abaixo dos 40% no Rotten Tomatoes, um dos principais sites do meio. Enquanto isso, a média das notas do público permanecia acima dos 95%.


E, para tirar o elefante da sala: qual dos dois lados está certo?


Na verdade, ambos fazem parte da mesma moeda. Críticos de portais como The Atlantic enxergam o filme como uma obra que promove a “santificação total” de Michael. A The New Yorker, ao tratar o longa como uma cinebiografia higienizada, também não deixa de ter razão. Ainda assim, isso não invalida a reação dos fãs. Pelo contrário. O fascínio coletivo diante da grandiosidade dos shows, das coreografias e da recriação quase ritualística de sua presença mostra como Michael permanece operando como produto cultural permanente, protegido e reproduzido pela devoção popular.


AS VÁRIAS FACES DE MICHAEL


Mais de um ator foi responsável por interpretar Michael ao longo do filme. O primeiro deles é o brasileiro Juliano Valdi, de 12 anos, encarregado de retratar a infância do cantor, desde os primeiros passos com os Jackson Five até o início dos traumas relacionados à figura paterna.


O ator mirim chama atenção desde sua primeira aparição, com precisão nos gestos, no canto e no brilho do olhar nas cenas de interação com figuras como Quincy Jones, futuro produtor de Michael, e com os próprios irmãos Jackson.


Já para a versão adulta do Rei do Pop foi escalado Jaafar Jackson, sobrinho de Michael e filho de Jermaine Jackson, integrante dos Jackson Five. Sua caracterização mostra um trabalho preciso da equipe de produção, com maquiagem, figurinos e penteados funcionando de maneira bastante convincente em cena.


AS MÚSICAS


O fato de o ator também ser cantor facilitou o processo. Foram utilizadas gravações da voz de Michael com Jaafar cantando por cima, o que deixa o resultado mais natural. Nas telonas, realmente parece que vemos o tio cantar, mesmo com a cobertura do sobrinho.


O filme tem uma setlist com 13 músicas do cantor: três da época de Jackson Five, duas da fase em que o grupo se chamava “The Jacksons” e oito da carreira solo. As cenas em que elas são utilizadas têm um encaixe interessante. Algumas são mostradas em formato de clipe, como em “Thriller”; outras aparecem em shows do cantor, como é o caso de “Bad”, por exemplo. São boas transições e entradas das faixas. Uma nota chega, e o espectador mais atento já percebe o que está vindo por aí.


Um desses momentos acontece em “Don’t Stop ’Til You Get Enough”, música que marca um pontapé inicial na carreira solo do cantor. A cena passa da gravação em estúdio para o clipe em um piscar de olhos, acompanhando o ritmo da música. Lindo.


Entre as músicas mais populares do artista, a ausência mais marcante é “They Don’t Care About Us”, um clássico tanto pela música quanto pelo clipe, gravado em Salvador com os batuques do Olodum. A faixa poderia render cenas interessantes dentro do filme, mas não é mencionada.


Vale destacar que é nos momentos musicais que Juliano e Jaafar brilham. No caso do ator mirim brasileiro, existe a sensação de estar diante daquele menino prodígio em cena, enquanto as reações dos coadjuvantes ajudam a compartilhar essa impressão com o público. Nas cenas de Jaafar, a experiência se aproxima de estar dentro de uma gravação de clipe ou de um show lotado de Michael: vibrante, quente, com o público quase dançando nas cadeiras do cinema.


Na cena que recria o clipe “Thriller”, o figurino remete a uma das imagens mais conhecidas da carreira de Michael | Crédito da foto: Reprodução/YouTube e Lionsgate
Na cena que recria o clipe “Thriller”, o figurino remete a uma das imagens mais conhecidas da carreira de Michael | Crédito da foto: Reprodução/YouTube e Lionsgate

UM BOM SHOW É UM BOM FILME?


Aqui entra o ponto central da crítica e do debate em torno do filme. A caracterização e os números musicais são elementos que impressionam os fãs, mas, ao longo da narrativa, percebe-se uma sensação de vazio. Michael não foi apenas um cantor. Havia uma pessoa por trás do Rei do Pop, marcada por traumas psicológicos e físicos, manipulações e polêmicas. No entanto, o filme trata esses aspectos de forma rasa.


Nota-se que as cinebiografias passam por alguns dilemas: apresentar a vida inteira de uma personalidade em pouco mais de duas horas ou explorar um acontecimento específico e se aprofundar em seus detalhes? Santificar a figura ou apresentar um lado mais real, mais humano? Em ambos os casos, o filme optou pelas primeiras alternativas.


Existe somente uma trama realmente explorada e utilizada como gancho dramático pelo roteiro: a relação entre Michael e seu pai, Joe. O momento não se trata de uma abordagem ruim. Pelo contrário, é interessante. Os três atores envolvidos, Juliano e Jaafar, já mencionados como Michael, e Colman Domingo, interpretando Joe, encaixam-se muito bem nas cenas e nos personagens. Em especial, a presença do pai altera o tom sempre que surge, deixando o clima visivelmente mais pesado.


O filme constrói um tom vilanesco e deixa uma impressão dúbia sobre Joe para o espectador. Ao mesmo tempo em que o público pode enxergá-lo como um pai horrível para Michael, alguém que só pensa em explorá-lo para lucrar, mantém-se aberta a possibilidade de pensamentos como: por mais rígido que o pai tenha sido, existiria Michael sem Joe?


Infelizmente, não há outros ganchos tão complexos quanto esse. Alguns tinham potencial, como a questão da pele de Michael. Homem negro, o cantor teve, ao longo da vida, alteração na pigmentação da pele devido ao vitiligo, o que fez com que sua negritude fosse questionada pela mídia, inclusive em programas de grande audiência, como o de Oprah Winfrey, em 1993, quando a apresentadora perguntou se ele estava clareando a pele propositalmente.


No fim, “Michael” parece confirmar que crítica e público não assistiram exatamente ao mesmo filme, ou pelo menos não sob a mesma ótica. Para alguns, faltou coragem ao longa para encarar as zonas mais incômodas da vida do artista. Para outros, bastou a emoção de rever sua potência nos palcos e em suas músicas. O encanto das apresentações convive com as lacunas do roteiro, e a cinebiografia funciona melhor como uma homenagem ao legado do cantor do que como um retrato definitivo de sua vida.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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