Nutrição acolhe histórias antes de prescrever cardápios
- Eduardo Tomé

- há 1 dia
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Acompanhamento nutricional uns técnica, escuta e cuidado para construir estratégias na rotina de cada paciente

Por Eduardo Tomé | Agência Abre Aspas
Nos dias atuais, a busca pela estética e pelo corpo “perfeito” está em alta, principalmente por influência das redes sociais. Mas o que muitos não procuram saber são os processos árduos enfrentados para atingir esse ideal de corpo. Um deles é a boa alimentação.
Hoje, o consultório de nutrição também se apresenta como um espaço de acolhimento e cuidado com a saúde mental. A prática profissional ultrapassa a prescrição alimentar e passa a considerar as vivências individuais de cada paciente. “É uma carreira que exige escuta. Trabalhamos com o progresso sinérgico entre o conhecimento técnico e a realidade de cada paciente”, detalha a nutricionista Bruna Deitos.
No entanto, a harmonia entre técnica e vivência só se efetiva quando se entende a raiz da busca pela ajuda profissional. Na realidade do dia a dia, os motivos que levam um paciente a abrir a porta do consultório são inúmeros e mostram que a mudança física é, quase sempre, atravessada por uma necessidade interna.
De acordo com Bruna, os motivos que levam à busca por uma nutricionista podem ser muito individuais e dependem, principalmente, do estado fisiológico e do momento pessoal, financeiro e psicológico. “Recebo a maioria dos pacientes quando eles se encontram pendulando entre limbos fisiológicos, pessoais e estéticos. Mas o ideal seria a busca anterior a esses extremos”, explica Bruna.
Para Luana Lopes, paciente da nutricionista, a decisão de iniciar o acompanhamento esteve diretamente ligada a um período delicado vivido durante a pandemia: o diagnóstico de depressão. Diante desse cenário, buscou um cuidado multidisciplinar, com acompanhamento de endocrinologista, nutricionista, personal trainer e psicoterapia.
Outro fator determinante foi o diagnóstico da SOP, síndrome dos ovários policísticos, em 2022. Em 2023, após um ano seguindo um método considerado por ela difícil e pouco eficaz com outra profissional, Luana encontrou, com Bruna, um tratamento alinhado às suas necessidades, o que o tornou mais adequado à sua rotina. “Quando eu busquei por ela, estava em sobrepeso, com 12 kg a mais do que o saudável para o meu biotipo, então, majoritariamente, a estética naquele momento contava muito. Ela foi se mostrando empática com meu momento. Fez algo dentro das minhas limitações e que ficasse um pouco mais fácil e leve de seguir, para assim iniciar o acompanhamento”, relatou Luana.
ACOLHIMENTO
Uma das principais adversidades enfrentadas pela nutricionista está na realidade idealizada pelo paciente, influenciada pela glamourização das redes sociais. Muitos chegam em busca de um ideal, por vezes, intangível, como corpos irreais vistos nos perfis de atores e influenciadores.
O processo para iniciar um planejamento alimentar não é fácil. Tanto a consulta quanto a estratégia usada dependem das queixas, dos exames laboratoriais e da rotina do paciente. A partir disso, em conjunto com ele, a alimentação e uma nova rotina são elaboradas, respeitando suas condições e realidade, em busca de uma melhora com atendimento personalizado.
Para Lara Salvador, paciente de Bruna, o início do tratamento ocorreu de forma calma, sem grandes dificuldades. “Para mim foi tranquilo, tudo que estava no cardápio eram coisas que eu já comia. O que passou a acontecer foi cuidar mais da quantidade, pesar tudo certinho, bater as metas diárias. Acho que a adesão à dieta é muito mais fácil quando a nutricionista te ouve e entende os seus problemas, adaptando ela para o seu dia a dia. Mas também devemos adaptar a mente e entender que, em alguns momentos, você vai precisar se privar de certas coisas”, detalha Lara.
No entanto, mesmo com planos bem elaborados, as dificuldades aparecem e são naturais. Acostumar o corpo, organizar uma nova rotina e ter controle para fugir do estereótipo de “dieta” não precisam ser sinônimos de rigidez e desprazer. Como destaca Bruna, a organização pode variar de acordo com cada pessoa: há quem prefira cozinhar para três dias, reservar um momento da semana para preparar refeições para períodos mais longos, como 7, 10 ou até 30 dias, ou ainda quem opte por preparar a comida diariamente.
Luana explica que seu início foi desafiador em razão da depressão, que exigiu força de vontade e consistência. “O que mais encaixou na minha rotina foi contar com auxílio de marmitas congeladas. Procurei uma rede fit da cidade que fazia esse serviço com base na minha dieta proposta e pedia para duas semanas, para sempre ter pronta e não conseguir arrumar alguma desculpa. Então, ficava responsável somente pelo café da manhã e café da tarde, sendo assim um pouco mais difícil de errar”, conta.
EQUILÍBRIO
Hoje, Luana tem um novo foco. Após atingir o peso almejado para estar saudável, o objetivo é ganhar massa magra, perder gordura e manter o equilíbrio de vitaminas e hormônios, impactados pela SOP. Para isso, realiza consultas periódicas, entre 60 e 90 dias, ajustando a rotina às necessidades de seu corpo. Atualmente, mantém uma alimentação estruturada em quatro refeições diárias, distribuídas para garantir saciedade e alcançar seu objetivo.
Os benefícios trazidos pela boa alimentação são inúmeros. Uma estrutura alimentar adequada prepara o corpo para passar por tratamentos invasivos, como os oncológicos, por processos cirúrgicos e pela progressão de limitações. Além disso, proporciona maior clareza mental, produtividade, disposição, confiança e força, aspectos que também envolvem o bem-estar estético.
A nutrição não é limitada e nos atinge diariamente, de forma positiva ou negativa. Para Luana, os maiores benefícios apareceram na saúde mental e na estética, com a retomada da autoestima, da alimentação saudável e da prática de exercícios. “De início, foi como um divisor de águas na minha vida. Eu me sentia mais disposta, voltei a ter ânimo para pequenas coisas, rendia mais no trabalho e, consequentemente, voltei a ter uma vida social. Voltei a pesar o que tanto sonhava e parecia impossível”.
Os benefícios de médio e longo prazo, segundo Bruna, como o equilíbrio de nutrientes e o alívio de sintomas, exigem ao menos três meses de constância nos hábitos e na suplementação. Os resultados estéticos variam para cada pessoa. Eles dependem de quão firme o paciente se mantém na rotina, considerando treino, dieta, sono e hidratação, e também do histórico de saúde e do metabolismo.
Embora, em um cenário ideal, um planejamento alimentar não apresente efeitos negativos, na prática existem desafios, sobretudo relacionados ao acesso, como vulnerabilidade financeira e alimentar, cuidados básicos e até a possibilidade de manter um atendimento multidisciplinar e especializado.
Ainda assim, a nutrição vai muito além de corpos estéticos e dietas restritivas. É um processo que promove melhorias físicas e mentais, pautado na individualidade de cada paciente. “A vida de consultório é muito gratificante. Ver o seu conhecimento trazendo resultados, melhorias de queixas crônicas, e o progresso acontecendo de forma sinérgica. A nutrição é apaixonante e essencial”, conclui a nutricionista Bruna.
Por fim, a jornada pela saúde integral não é uma linha reta, mas um caminho feito de retornos e aprendizados. É entender o tempo do próprio corpo e acolher a mente, o que torna a mudança duradoura. Afinal, alimentar-se com consciência é, acima de tudo, um ato de liberdade e respeito à própria vida.

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