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Nos bastidores, Veruska sustenta corpos, decisões e retornos distantes do placar

Longe dos gols, a fisioterapeuta do Stein Cascavel conduz decisões que atravessam dor, espera e volta à quadra


Em quadra, a fisioterapeuta Veruska intervém no ponto em que o jogo cede lugar ao cuidado | Crédito da foto: Stein Cascavel Futsal
Em quadra, a fisioterapeuta Veruska intervém no ponto em que o jogo cede lugar ao cuidado | Crédito da foto: Stein Cascavel Futsal

Por Karoline Martins | Agência Abre Aspas


O barulho das chuteiras batendo na quadra estremece as arquibancadas. Uma torcida, momentaneamente um único povo, compartilha o suor das atletas com gotas de angústia e desespero. De repente, na gritaria, um som diferente corta o jogo. O impacto contra o chão vem seco, seguido por um grito, que contagiava aquela massa com sua extasiante dor. 


Na arquibancada, ninguém consegue decifrar o que aconteceu. O susto se espalha e o silêncio toma o ginásio. No banco de reservas, porém, há quem já tenha percebido a gravidade da cena. A torcida mal conhece seu nome, mas Veruska, fisioterapeuta da equipe, identifica no corpo caído aquilo que ainda escapa aos outros: uma possível lesão, a força do impacto, o movimento que antecedeu a queda, os sinais de que pode ser mais do que um susto.

A torcida quase não a nota. Não sabe seu nome, não acompanha sua rotina, raramente percebe seu trabalho. Ainda assim, Veruska está em cada jogo e em parte de cada retorno à quadra. Desde 2022, é ela quem acompanha a saúde das atletas do Stein Cascavel Futsal com leitura técnica, atenção contínua e preparo para agir no instante em que o jogo para e o cuidado assume o centro da cena.


A responsabilidade é grande. O método é o mesmo, mas a dimensão da decisão muda tudo. No clube grande, cada escolha carrega uma consequência imediata: segurar uma atleta pode custar o jogo; liberar antes da hora pode comprometer a temporada. No meio disso, não existe decisão confortável: ou ela protege agora ou cobra seu preço depois.


As dores no dedo de Evelyn, goleira da equipe, pareciam simples. Optou por jogar independentemente do risco. Mas, o que parecia leve, piorou: o inchaço aumentou, a dor se intensificou e, o que antes parecia suportável, se revelou uma fratura. Foi ali que entrou a intervenção de Veruska. Já não havia como manter a atleta em quadra nos jogos seguintes, era preciso barrar e fazer um tratamento. Mas não bastava apenas dizer não. Foi necessário justificar, mostrar o risco, argumentar e sustentar uma decisão que ninguém quer assumir.


É nesse momento que as decisões se chocam: de um lado, a pressa; do outro, a recuperação. Voltar antes pode custar caro. A confiança entre as atletas e a comissão é essencial. Às vezes, é preciso segurar e dizer não, mesmo quando tudo ao redor pede o contrário. A pressão vem de todos os lados: da atleta, que quer estar em quadra, do clube, que precisa dela, e do jogo, que não espera.


O que parece ser leve para quem vê de fora, no olhar de um especialista já é sinal de alerta e exige afastamento. O organismo avisa: ignorar pode custar caro. Às vezes, o próprio sonho de uma jovem atleta de seguir uma carreira no futsal.


No fim, o mais difícil não é tratar, é sustentar: a frustração, o medo. A insegurança de quem quer voltar, mas precisa esperar enquanto a temporada segue sem pausa. Pois a mente também sente. E, quando ela não é cuidada, o físico responde. Por conta disso, recuperar vai além do músculo. Envolve o que a lesão deixa como marca, a reconstrução da confiança e o alinhamento entre o físico e o emocional. Isso aparece nos detalhes: no gesto travado, na corrida mais contida, no medo de apoiar o pé, na hesitação antes de uma dividida. No dia a dia, Veruska observa, conversa, orienta, entende o tempo de cada atleta. 


O tempo e o trabalho de Veruska fazem parte disso. 


Há lances que ficam na história. Não pelo gol, mas pelo impacto. Amandinha, do Stein Cascavel, e Jennifer, do Leoas da Serra, chocam suas cabeças em dividida na área. 6º rodada da Liga Feminina Futsal Sicredi 2025. O barulho do impacto atravessa a quadra e silencia o ginásio. O jogo para, e é nesse espaço que o cuidado assume o controle, antes de qualquer pressa, antes de qualquer resultado. Nesse momento, Veruska entra em quadra. Avalia as atletas, realiza os primeiros atendimentos e identifica a necessidade de acionar a equipe médica. Permanece ao lado das jogadoras durante todo o procedimento, auxiliando na imobilização e na retirada da quadra, enquanto orienta e transmite segurança às atletas.


O jogo fica paralisado por 20 minutos. Dentro da quadra, no entanto, não há pausa: há cuidado, presença e atuação técnica.

Felizmente, não foi grave, mas o lance expõe o que não aparece no placar: o olhar cuidadoso de Veruska, a leitura minuciosa e a escolha de intervir antes que a situação se agrave. 


Nem sempre o retorno acontece por inteiro. Há quem esteja liberado, mas ainda jogue com freio. O corpo volta, mas o gesto denuncia: falta confiança, o movimento é receoso e preso. Nesse desequilíbrio, o risco reaparece. Às vezes, silencioso. Existe um processo que vai além do músculo; é a confiança, o tempo. É reconstruir o que a lesão abalou.


No fim, para Veruska, a maior vitória não é o gol, mas no retorno, no corpo que volta a responder sem medo, na atleta que sustenta o jogo. Pois, depois do apito final, a torcida vai embora, mas o trabalho continua. Ainda existem corpos para cuidar, processos para respeitar, decisões para tomar.


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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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