Mil árvores depois: o que ainda falta explicar sobre a arborização de Cascavel
- Juan Karlo Pagno

- 30 de abr.
- 4 min de leitura
Plano prevê o plantio de mil árvores em vias centrais, mas ainda faltam dados públicos sobre reposição, sobrevivência das mudas e expansão para outras regiões

Por Juan Karlo Pagno | Agência Abre Aspas
A Prefeitura de Cascavel lançou em 2026 o programa “Cascavel Mais Verde” com a meta inicial de plantar mil árvores. Metade delas deve ficar em vias centrais, como as ruas Paraná e Rio Grande do Sul.
A proposta responde a um problema antigo, mas ainda deixa uma pergunta em aberto: qual será o efeito dessa ação em uma cidade que convive com um plano de arborização de 2015 e sem um diagnóstico público atualizado sobre retirada, reposição e sobrevivência das mudas.
Para o fotógrafo e observador da arborização urbana Júlio Szymanski, a questão não está só na quantidade de árvores previstas, mas na continuidade do cuidado depois do plantio. Segundo ele, a arborização urbana depende de acompanhamento constante, algo que nem sempre se mantém entre diferentes gestões. “Não é só plantar. Falta cuidado a longo prazo”.
Apresentado como uma das principais ações ambientais da atual gestão, o programa concentra a primeira etapa na região central. Em materiais divulgados pela prefeitura, cerca de metade das mudas deve ser destinada a vias como as ruas Paraná e Rio Grande do Sul. A secretária de Meio Ambiente, Beatriz Bertoglio, afirma que a escolha se baseia na falta de arborização nessa área. “O nosso maior problema está no centro. Não tem árvore”.
Até a conclusão desta apuração, a prefeitura havia detalhado a etapa inicial no centro, mas não havia apresentado, com a mesma precisão, a distribuição das mudas em outras regiões da cidade. Sem esse cronograma, ainda não é possível dimensionar como o programa deve alcançar o conjunto do município.
A dificuldade de avaliar a ação também passa pela forma como os dados são apresentados. O Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PMGIRS) registra serviços de retirada e poda de árvores entre 2021 e 2025, mas esses números não aparecem cruzados com dados de reposição, localização das intervenções e sobrevivência das mudas. Com isso, a cidade ainda não tem um balanço público que permita acompanhar, ano a ano, se as árvores removidas são repostas e se as novas mudas permanecem vivas após o plantio.

PLANEJAMENTO NÃO ACOMPANHA A CIDADE
A defasagem do plano de arborização não aparece só na ausência de atualização formal, mas também na execução ao longo dos anos. A própria gestão municipal reconhece que as metas previstas não foram cumpridas. Segundo a secretária de Meio Ambiente, Beatriz Bertoglio, o plano não foi implementado como deveria. “Se as metas tivessem sido cumpridas, hoje teríamos uma cidade totalmente diferente”.
Para além do reconhecimento institucional, a continuidade das políticas de arborização esbarra em entraves da administração pública. Mudanças de gestão, limitações de equipe, orçamento e falta de integração entre setores dificultam a manutenção de ações de longo prazo. Na prática, isso faz com que o plantio dependa menos de uma política permanente e mais de programas lançados em determinados períodos.
Segundo a Secretaria de Meio Ambiente, cerca de 2.500 árvores foram plantadas em substituição às suprimidas no último ano. O número, porém, ainda fica distante do déficit de arborização apontado nos próprios materiais do programa. Sem um balanço público entre árvores retiradas, repostas e preservadas, a reposição não permite medir, sozinha, o avanço da cobertura arbórea no município.
Como resposta a essa lacuna, a prefeitura aposta na atualização do diagnóstico arbóreo, com a reformulação do geoportal e a contratação de estudos para mapear a quantidade e as condições das árvores existentes. A proposta é orientar decisões de plantio, poda e remoção com base em informações mais precisas. Ainda assim, até a conclusão desta reportagem, esses dados não estavam reunidos em uma plataforma pública que permitisse acompanhar o saldo da arborização urbana.
Outro obstáculo está no próprio desenho da cidade. Em diferentes regiões, projetos aprovados ao longo dos anos não reservaram espaço adequado para o plantio, o que resultou em calçadas impermeabilizadas e conflitos entre infraestrutura e vegetação. A Secretaria de Meio Ambiente reconhece que, em muitos casos, não há área disponível para replantio e que também existe resistência de moradores à manutenção de árvores em frente aos imóveis.
RETIRADA E TRANSPARÊNCIA
A falta de dados integrados limita o acompanhamento de indicadores básicos da arborização urbana. Ainda não há, de forma pública e sistematizada, informações que mostrem quantas árvores são retiradas por ano, quantas são repostas, quantas mudas sobrevivem depois do plantio e quanto tempo levam para atingir porte suficiente para gerar sombra e reduzir a temperatura no espaço urbano.
Esse ponto é central porque o tempo da arborização não acompanha o tempo político. O plantio pode ser anunciado e executado em curto prazo, mas os efeitos sobre sombra, conforto térmico e qualidade ambiental dependem de anos de crescimento e manutenção. Sem monitoramento contínuo, a relação entre retirada, reposição e desenvolvimento das árvores permanece indefinida.
Assim, o “Cascavel Mais Verde” nasce como uma resposta a uma demanda antiga, mas ainda depende de dados, cronograma e acompanhamento para que seu resultado possa ser medido. Mais do que plantar mil árvores, o desafio da cidade é mostrar onde elas estarão, quantas irão sobreviver e como essa política será mantida quando as mudas deixarem de ser anúncio e passarem a fazer parte da paisagem urbana.


Juan, a sua reportagem me chamou atenção pela forma como trata a arborização para além do anúncio das mil árvores. O texto faz pensar sobre o que vem depois do plantio: cuidado, transparência, sobrevivência das mudas e continuidade da política pública. Parabéns pela condução crítica, porque o texto valoriza a iniciativa, mas cobra respostas que a cidade precisa conhecer.