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Mídia molda o esporte e transforma em produto

A busca por audiência e engajamento está mudando a cultura dos esportes


Presença da mídia transforma a maneira como o público consome o esporte | Crédito da foto: Leticia Patricia
Presença da mídia transforma a maneira como o público consome o esporte | Crédito da foto: Leticia Patricia

Por Leticia Patricia | Agência Abre Aspas


“As redes sociais não estão mudando só a forma como as pessoas veem o esporte. Estão mudando o próprio esporte”. A frase é do influenciador esportivo Noa Danucalov, que produz conteúdo, principalmente, sobre surf, e ajuda a apontar uma mudança que já dá para perceber no dia a dia: o esporte continua sendo cultura, mas está virando, cada vez mais, produto. E o problema é claro quando o interesse comercial começa a falar mais alto do que o valor cultural.

Hoje, o esporte está em todos os lugares: na televisão, nos celulares, nos vídeos curtos que viralizam em segundos. Essa presença não é neutra. Ela muda a forma como o esporte é visto, produzido, narrado e consumido.


Durante muito tempo, o esporte foi mais do que competição. Cada modalidade carregava uma linguagem própria, valores, comportamentos e formas de pertencimento. Em práticas como skate e surf, por exemplo, não se trata só de desempenho; envolve cultura, estética, música, identidade e conexão entre pessoas.


QUANDO O ESPORTE VIRA VITRINE


Com o avanço das redes sociais, essa lógica passa por uma transformação acelerada. O que ganha visibilidade nem sempre é o que tem mais sentido dentro do esporte, mas o que chama mais atenção, o que engaja, o que funciona melhor nas telas. O esporte começa a ser pensado como conteúdo, e isso muda sua lógica.


E essa mudança vai além da aparência. Ela interfere na própria visibilidade das modalidades. Pesquisas do Intercom, apresentadas no XIV Congresso de Ciências da Comunicação na Região Norte, em Manaus, por André Campos, Paulo Ramos e Amanda Santos, da Universidade Federal do Amapá, mostram que, ao longo do tempo, os esportes são moldados conforme os interesses da mídia, seja no formato, na transmissão ou na forma como são apresentados ao público. O objetivo é gerar audiência e retorno financeiro.


Nesse processo, atletas deixam de ser apenas esportistas e passam a ocupar outro papel. Viram personagens, heróis. Suas histórias são narradas como trajetórias de superação, e suas imagens muitas vezes são ajustadas para se encaixar melhor no espetáculo. Tudo precisa ser interessante. E isso muda também a forma como o público se envolve. “A gente está vendo mais esporte do que nunca, mas será que está entendendo mais?”, questiona o professor doutor Lissandro Dorst, de Educação Física, do Centro Universitário FAG.


A consequência é um consumo muitas vezes superficial. Quando o público não conhece a história e a cultura de uma modalidade, cria menos vínculo e fica mais fácil aceitar apenas o que a mídia destaca.


Esse processo também influencia quais esportes ganham visibilidade e destaque. No Brasil, modalidades como o futebol dominam a cobertura, enquanto outras aparecem bem menos, e isso não acontece por acaso. Pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a visibilidade está diretamente ligada ao espaço que cada modalidade recebe na mídia, o que influencia o interesse do público e até as práticas esportivas ao longo do tempo.


Essa mudança não começou agora. A televisão já tinha iniciado esse movimento ao transformar o esporte em espetáculo, criando ídolos e narrativas para atrair o público. A internet só ampliou isso, o conteúdo circula o tempo todo e passa a interferir diretamente na forma como o esporte acontece.


Hoje, o esporte não precisa apenas acontecer, ele precisa render. Precisa gerar cortes, repercussão, engajamento. Muitas vezes, já chega ao público recortado, editado e pensado para causar impacto, nem sempre para representar sua essência.


Ao mesmo tempo, a mídia também amplia o acesso e ajuda a popularizar modalidades. Como destaca Dorst, ela cria oportunidades para atletas que antes não teriam visibilidade. O problema não é propriamente a mídia, mas a forma como ela molda o esporte, muitas vezes sem que isso seja percebido de forma crítica.


Estamos vendo mais esporte do que nunca, mas isso não significa que estamos entendendo mais.


No fim, não é uma escolha entre cultura ou produto. O esporte continua sendo cultura, carrega identidade e história. Ao entrar na lógica da mídia e do mercado, também passa a assumir características de produto, é adaptado, recortado e organizado para prender atenção e gerar retorno.


5 comentários


Concordo com a conclusão 🗣

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Letícia, o seu texto me fez pensar sobre a forma como consumimos esporte hoje. Gostei da maneira como você mostra que a mídia amplia a visibilidade, mas também transforma modalidades, atletas e histórias em conteúdo para gerar audiência. A reflexão é bem conduzida e deixa uma pergunta importante: estamos vendo mais esporte, mas será que estamos compreendendo melhor sua cultura?

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Baaaaita escrita! Arrasou lê❤️

Editado
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maitebravocosta
17 de abr.

👏👏👏

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Que legal, Leticia! Mandou bem!


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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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