Infância mediada por telas exige atenção à fala e ao movimento
- Rayssa Farinon

- 18 de mai.
- 6 min de leitura
Fonoaudiologia e terapia ocupacional ajudam a prevenir e tratar atrasos no desenvolvimento infantil em uma rotina cada vez mais digital

Por Rayssa Farinon | Agência Abre Aspas
O avanço do uso de telas na infância tem transformado a forma como as crianças interagem com o mundo e, principalmente, como desenvolvem a comunicação. Na primeira infância, fase que vai do nascimento aos seis anos, as trocas presenciais, o contato visual e as experiências concretas são fundamentais para a aquisição da linguagem. Quando essas vivências passam a ser substituídas por estímulos passivos, como vídeos e jogos digitais, há impactos diretos no desenvolvimento da fala. Nesse cenário, a fonoaudiologia e a terapia ocupacional assumem papel importante ao atuar na prevenção e na intervenção de atrasos comunicativos e motores cada vez mais frequentes.
A preocupação com esse fenômeno não é isolada. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda que o uso de telas seja evitado para crianças menores de dois anos e limitado, com supervisão, nas demais faixas etárias. Ainda assim, a rotina de muitas famílias, marcada pela falta de tempo, pela sobrecarga e pela busca por segurança dentro de casa, favorece o uso de dispositivos eletrônicos como forma de entretenimento. Como consequência, diminuem as oportunidades de interação, elemento essencial para o desenvolvimento da linguagem, da autonomia e das habilidades sociais.
Esse cenário já é percebido na prática clínica. A fonoaudióloga Hyorana Sberse, que atua em uma clínica multiprofissional em Medianeira (PR), observa um aumento na procura por atendimentos relacionados a atrasos de linguagem e dificuldades comunicativas. Segundo ela, a fonoaudiologia tem papel importante nesse processo justamente por atuar na base da interação humana. “A comunicação é essencial para o ser humano. É por meio dela que conseguimos interagir, solicitar, protestar e nos expressar no dia a dia”, afirma.
Para a profissional, o impacto das telas vai além da fala. A redução das interações presenciais compromete a construção da linguagem e afeta a participação social da criança, dificultando sua inserção em diferentes espaços. “Quando a criança tem menos oportunidades de troca, ela também tem menos oportunidades de desenvolver sua comunicação”, explica. Nesse sentido, a intervenção precoce se torna fundamental para tratar atrasos já instalados, minimizar os efeitos desse cenário e favorecer um desenvolvimento mais saudável.
ISOLAMENTO E TELAS
O desenvolvimento infantil não acontece de forma isolada. Por isso, Hyorana destaca a importância de um acompanhamento multiprofissional, envolvendo áreas como terapia ocupacional e psicologia. “Um único profissional não consegue, sozinho, atender todas as demandas da criança. É preciso um olhar integrado”, pontua. Mais do que estimular a fala, o objetivo do acompanhamento é promover autonomia, qualidade de vida e inserção social.
O processo terapêutico tem início com uma escuta cuidadosa da família, etapa fundamental para compreender a rotina da criança e identificar fatores que possam estar interferindo no desenvolvimento, como o uso excessivo de telas. A partir dessa análise, são definidos os objetivos terapêuticos e as estratégias de intervenção, que podem ser ajustados conforme a evolução do paciente. Uma avaliação detalhada permite mapear habilidades já desenvolvidas e aquelas que ainda precisam ser estimuladas.
As intervenções acontecem, em grande parte, por meio de atividades lúdicas, que favorecem o engajamento da criança e estimulam diferentes competências ao mesmo tempo. Brincadeiras que envolvem troca, imitação, atenção compartilhada e uso funcional da linguagem são essenciais nesse processo, pois aproximam a criança de situações reais de comunicação.
Entre os recursos utilizados está a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), ferramenta da tecnologia assistiva voltada à ampliação das possibilidades comunicativas. “A prancha é construída conforme a necessidade do paciente, levando em conta suas funções comunicativas, preferências e espaços de inserção. Em alguns casos, ela substitui a fala; em outros, auxilia no seu desenvolvimento”, explica Hyorana. O uso da CAA contribui para que a criança consiga se expressar, reduzindo frustrações e ampliando sua participação social.
A importância desse recurso também passou a ter respaldo normativo mais direto. A Lei nº 15.249, de 3 de novembro de 2025, publicada no Diário Oficial da União em 4 de novembro de 2025, alterou a Lei nº 10.098/2000, conhecida como Lei da Acessibilidade, e a Lei nº 13.146/2015, que institui o Estatuto da Pessoa com Deficiência. A nova legislação prevê a instalação de sistemas de Comunicação Aumentativa e Alternativa de baixa tecnologia em espaços públicos e abertos ao público, com o objetivo de ampliar a acessibilidade comunicacional de pessoas com necessidades complexas de comunicação. A medida reforça a importância de ampliar as formas de interação, especialmente para pessoas que enfrentam dificuldades para compreender ou expressar mensagens pela fala, pela escrita, por gestos ou por outros meios convencionais de comunicação.
Apesar dos avanços proporcionados pelas intervenções terapêuticas, o desenvolvimento da criança não depende apenas do que acontece no consultório. Em uma realidade na qual as telas ocupam grande parte do tempo infantil, o ambiente familiar exerce papel decisivo. A incorporação das estratégias no cotidiano amplia as oportunidades de interação real e potencializa os resultados do acompanhamento.
FAMÍLIA ROTINA
Para Hyorana, embora os impactos do uso excessivo de telas sejam evidentes, eles podem ser revertidos com acompanhamento adequado e mudanças na rotina. “Muitas vezes, somos os primeiros a presenciar conquistas importantes, como as primeiras palavras. E o momento mais marcante é quando a família também reconhece essa evolução”, relata.
A participação da família é um dos fatores mais determinantes no processo terapêutico. Promover momentos de interação, estimular a comunicação nas atividades diárias e reduzir o tempo de exposição às telas são atitudes que fazem diferença no desenvolvimento infantil. Pequenas mudanças, como conversar durante as refeições, incentivar brincadeiras simbólicas e responder às tentativas de comunicação da criança, contribuem diretamente para o avanço da linguagem.
Os sinais de alerta para atrasos no desenvolvimento podem surgir ainda nos primeiros meses de vida. De acordo com a médica Gisele Vieira, em estudo publicado em 2025 na plataforma que disponibiliza estudos sobre a área da saúde ArtMed, comportamentos como não sustentar a cabeça por volta dos três meses, não balbuciar aos nove meses, ausência de contato visual ou presença de movimentos repetitivos podem indicar alterações no desenvolvimento neuropsicomotor. Nesses casos, a busca por avaliação profissional deve ser imediata, já que a intervenção precoce amplia as chances de evolução.
Hyorana também ressalta que o trabalho fonoaudiológico vai além da linguagem, envolvendo o desenvolvimento da interação social, da organização do pensamento e da autonomia. Nesse processo, é fundamental respeitar o ritmo da criança, sem ignorar sinais que indiquem a necessidade de intervenção.
Em um mundo cada vez mais mediado por telas, garantir que as crianças tenham acesso a experiências reais, com interação, movimento e comunicação, é essencial para o desenvolvimento. Mais do que tratar atrasos, a intervenção precoce se consolida como uma estratégia para prevenir e reduzir os impactos de uma infância cada vez mais digital, colocando a comunicação no centro do cuidado com o desenvolvimento infantil.
TRABALHO MULTIPROFISSIONAL
Outra profissional que lida diariamente com os impactos gerados pelas telas é a terapeuta ocupacional Nathalia Pinheiro, que também atende em Medianeira (PR). Segundo ela, seu papel profissional é trabalhar tarefas complexas, como amarrar o cadarço, usar talheres e segurar o lápis, em etapas alcançáveis, utilizando adaptações, treino de habilidades motoras finas e integração sensorial para proporcionar autonomia à criança.
Na visão de Nathalia, a intervenção precoce é importante devido à plasticidade cerebral da criança. Esse cuidado ajuda a consolidar os pré-requisitos da coordenação global e previne um “efeito cascata” de atrasos no desenvolvimento.
De acordo com a profissional, o desafio atual, em meio ao excesso de telas, é resgatar o corpo em movimento e a exploração tátil. “Precisamos oferecer experiências que a tela não proporciona: a resistência da massinha, o equilíbrio em diferentes texturas, o ritmo de uma música e o contato visual real. O estímulo deve ser multissensorial, incentivando a criança a ser protagonista da ação, e não apenas uma espectadora passiva de luzes e sons”, afirma.
Nathalia ainda explica que os recursos utilizados nas sessões são escolhidos de acordo com as habilidades que serão trabalhadas e que essa definição nunca é aleatória. A escolha é guiada pelo raciocínio clínico e pelo plano de tratamento.
A terapeuta comenta também sobre sua reação quando ouve que a sessão terapêutica é apenas “brincar” com a criança. “Para a criança, brincar é a sua principal ocupação. O brincar é a ferramenta terapêutica mais potente que existe, pois é nele que o aprendizado acontece.
Para ela, o coração da terapia ocupacional é transformar a limitação em ocupação com sentido e ver os pacientes, que no início dependiam de terceiros para o autocuidado, conseguirem, no momento da alta, ser protagonistas de suas rotinas. É a realização de seu propósito como terapeuta.

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