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Imaginação, valores e infância: o digital em troca do literário

Atualizado: 6 de jun. de 2025

Desafio de manter viva a imaginação, o senso crítico e o encantamento despertados pela literatura em uma geração construída em cima de telas e tecnologias digitais


Portais que se abrem para novos mundos com mais cor, criatividade e imaginação… | Foto: Luiza Sakurada
Portais que se abrem para novos mundos com mais cor, criatividade e imaginação… | Foto: Luiza Sakurada

Esta reportagem começou com o objetivo de explorar o poder da literatura infantil na formação da identidade e da humanidade das crianças - como as fábulas, contos e histórias vão muito além da alfabetização clássica que conhecemos, contribuindo com o imaginário e o criativo. Mas, na realidade, quando procurei fontes para compor a matéria, não foi esse o cenário que encontrei.

Era uma quarta-feira comum e ensolarada. Me arrumei rapidamente, empolgada com a possibilidade de conversar com os alunos do segundo e terceiro ano do Ensino Fundamental de uma escola municipal. Planejava ouvir deles o que a literatura infantil estava lhes ensinando. Sempre amei crianças, e parte da minha animação vinha da expectativa pelas respostas espontâneas e encantadoras que poderia colher.

Cheguei à escola às 14h e fui recebida pela diretora, que me encaminhou ao local onde seriam realizadas as entrevistas. Me levou até a biblioteca, onde a bibliotecária carimbava os empréstimos de alguns livros. Ela me pediu que aguardasse um momento.

A biblioteca tinha cheiro de massinha e livros novos. As paredes decoradas com painéis de EVA traziam mensagens de incentivo à leitura, mas pareciam esquecidas pelos alunos. Notei que uma letra em um dos murais estava fora do lugar e me perguntei se teria sido colada por uma criança distraída.

A bibliotecária Maria Vergutez terminou de atender os cinco alunos e me chamou. Expliquei que a reportagem era sobre literatura infantil e perguntei se poderia entrevistá-la. Assim que liguei o gravador, ela foi direta: “está muito difícil a introdução da literatura com as crianças por causa dos aparelhos digitais, que estão ocupando um espaço enorme na vida delas”.

Na hora, fiquei surpresa - não era essa a resposta que eu esperava.

Conversei um pouco com Maria antes da chegada das crianças. Por razões de privacidade, os nomes utilizados são fictícios. A primeira a ser entrevistada foi Alice, oito anos. Ela estava com um lindo sorriso no rosto. Perguntei se gostava de ler e ela prontamente respondeu que adorava, em especial livros sobre contos de fadas e unicórnios. A menina disse ter gostado muito do livro O Menino Azul, de Cecília Meireles, mas já não conseguia mais explicar sobre o que se tratava.

Depois veio Betina, sete anos. Avaliou seu gosto pela leitura como um 10, numa escala de um a 10.

Pedi que inventasse um mundo imaginário e ela respondeu que seria tudo igual. Quando insisti, disse que as casas poderiam ser maiores e mais coloridas. Para ir à escola, de carro mesmo, como sempre fez. Como se sua imaginação estivesse contida dentro da simples realidade.

Aos poucos, percebi: a imaginação está se esgotando.


…se fecham em uma dura realidade, sufocante e fatigante  | Foto: Luiza Sakurada
…se fecham em uma dura realidade, sufocante e fatigante  | Foto: Luiza Sakurada

Um estudo realizado pela Universidade Estadual de São Paulo (USP), com crianças de oito a 12 anos, investigou a forma como as tecnologias estavam moldando o brincar. A pesquisa revelou que houve uma diminuição no processo criativo para desenvolver brincadeiras individuais na vida real. Maria reforça essa percepção e conta que um dos maiores desafios é tentar relacionar o mundo digital com os livros: 

“O problema é que os celulares oferecem uma história muito limitada para as crianças. Então o pensamento delas está sujeito ao que é fornecido de informação”, explicou Maria.

Desde que chegou à escola, a bibliotecária iniciou o Projeto de Incentivo à Leitura, também chamado de Projeto Estrelinha. Cada aluno escolhe um livro, leva para casa e preenche uma ficha com o que aprendeu, um resumo e palavras novas. Ela verifica e adiciona estrelas ao lado dos nomes, a fim de que, ao final do ano, aquele que obtiver mais estrelas receba um prêmio. Nos oito anos de projeto, observou transformações notáveis - alguns despertam interesse através dele e acabam se destacando na escrita e na oralidade.

“Os resumos, a empolgação que ele vinha conversar comigo sobre o que lia me deixava muito feliz”, reflete Maria sobre um de seus alunos mais notáveis. “Ele era uma criança muito fechada. No final do ano, você via o encanto que ele tinha com as descobertas através da leitura”, continuou.

Mesmo com o projeto em andamento e demonstrando, por vezes, um resultado positivo, ainda existem alunos que apreciam mais as conexões tecnológicas do que as poéticas ou literárias. Carmem e Elena, ambas com oito anos, preferem livros de youtubers e consomem mais histórias que acompanham esse universo. Uma das descobertas da pesquisa sobre tecnologias digitais é sobre como o processo de brincar se transformou em uma experiência híbrida dentro do imaginário infantil - ou seja, a maior parte da capacidade de criação está ligada aos conteúdos midiáticos absorvidos.

Quando eu fiz a pergunta sobre o mundo imaginário, Carmem não soube responder, e Elena disse que gostaria que não houvesse mais dinheiro, assim não precisaria pagar por nada que quisesse. João, 8 anos, disse que o mundo seria de “gente maus”. Eu não entendi o que isso significava e ele admitiu não saber exatamente o que queria dizer com aquilo.

As histórias têm um papel fundamental na construção de valores e senso crítico. Maria explica que, quando a criança compreende a importância da leitura e valoriza esse momento, passa a prestar mais atenção nas lições contidas nos livros. 

“Por mais que a história pareça ser bobinha, ainda tem uma lição de moral, uma intenção. Quando eles conseguem entender, acabam aplicando na vida deles”, aponta Maria.

As entrevistas duraram cerca de duas horas e meia. Na saída, agradeci à diretora e me despedi. Quando o portão se fechou atrás de mim, senti meu coração apertar e uma pequena lágrima se formou. Para onde está indo essa geração?

Maria concluiu observando que, a cada ano, fica mais difícil trabalhar o hábito de leitura com as crianças. “Às vezes, não é nem pela criança em si - é pela família mesmo. Não adianta a escola se esforçar se, em casa, eles não evoluem”.

Porém, ainda existem pais que se esforçam para ir contra o sistema e percebem a diferença que os livros fazem na vida dos filhos, se dispondo a fazer a sua parte como família. E os resultados podem ser surpreendentes.

Ana Tokoshima é a prova de que o hábito da leitura pode levar a lugares maravilhosos. Desde pequena, seus pais incentivam o contato com os livros. Aos sete anos, iniciou uma das sagas mais famosas do mundo infantojuvenil - Harry Potter - e hoje, aos 11, conclui o último livro, com 620 páginas.

Apesar do “menino bruxo” ser sua série favorita, Ana diz que um dos livros mais especiais para ela foi Emocionário, de Cristina Núñez - uma história que a ensinou sobre como controlar e entender as emoções.

“Ler me ajudou a focar mais nas aulas e a ter um vocabulário mais extenso”, conta Ana, que também ama andar de skate, fazer colagens, pintura e artesanato.

Diante deste cenário, onde as telas e os livros disputam por relevância, é inegável admitir que a tecnologia está ocupando cada vez mais o foco e a rotina dessa geração, enquanto os livros se acumulam nas prateleiras. Intocados. Empurrados para um canto silencioso de infância perdida.

Atualmente, o que está em jogo não é somente o hábito de ler, mas algo maior: o tesouro de poder criar, cultivar, refletir e se emocionar com histórias que serão guardadas por toda uma vida.

Atitudes como a da Maria, ainda que pareçam desafiadoras, mostram que esse futuro é possível. Basta começar com uma estrela ao lado de um nome, um livro emprestado, uma conversa animada e muito incentivo. Porque, no final, não é apenas sobre gerar leitores, mas dar às crianças a chance de enxergar o mundo de outra maneira.


6 comentários


Mikaella de Moura Franzão
Mikaella de Moura Franzão
08 de jun. de 2025

Ai, luh, me senti triste como você quando disse "senti meu coração apertar e uma pequena lágrima se formou. Para onde está indo essa geração?". O pior de tudo é saber que a culpa é nossa, da atual geração de adultos, pois nós estamos "fazendo" este mundo e nós estamos criando essas crianças.

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Thabata Lima François
Thabata Lima François
05 de jun. de 2025

muito importante refletir sobre!

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Kariny Camilo
Kariny Camilo
05 de jun. de 2025

Parabéns pelo texto!

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Ana Claudia Teodoroski
Ana Claudia Teodoroski
05 de jun. de 2025

Gostei muito do seu texto!

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Joysse Bevilaqua Rodrigues
Joysse Bevilaqua Rodrigues
05 de jun. de 2025

👏🏻👏🏻

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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