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Gestação, medo e silêncio: o cuidado emocional que ainda falta às mães no Brasil

Estudos apontam alta incidência de depressão pós-parto no país, enquanto gestantes relatam lacunas no acolhimento emocional durante o pré-natal e puerpério


Estudo da Fundação Perseu Abramo, de 2010, aponta que uma em cada quatro mulheres sofre algum tipo de violência na assistência ao parto no Brasil  | Crédito da foto: Acsa Cavalheiro
Estudo da Fundação Perseu Abramo, de 2010, aponta que uma em cada quatro mulheres sofre algum tipo de violência na assistência ao parto no Brasil  | Crédito da foto: Acsa Cavalheiro

Por Júlia Novello | Agência Abre Aspas


“Quando você se torna mãe, um milhão de pensamentos e preocupações passam pela sua cabeça, mas, normalmente, você é o último deles”, relata Larissa Fuhr, mãe de um bebê de 4 meses. A frase resume uma experiência comum a muitas mulheres: em meio ao pré-natal, aos exames e à expectativa pela chegada do filho, o cuidado com a saúde mental ainda costuma ficar em segundo plano. 


Larissa sempre soube que queria cuidar de pessoas e que essa era sua vocação. Junto com essa certeza, vieram outras duas, a enfermagem e a maternidade. Sua profissão trazia sentido para a sua existência e preenchia seus dias, mas o sonho de gerar uma vida ainda era latente. “Eu sempre soube que queria ser mãe. Agora, o momento é que a gente fica esperando e analisando. Já morava com o meu marido há alguns anos e nossas vidas estavam estabilizadas, então decidimos criar espaço para um bebê em nossas vidas”.


Entre a decisão de ter um filho e o resultado positivo do Beta HCG, um ano se passou. Durante o período de espera, a vida foi se moldando lentamente para a chegada de Luís Roberto. Foram longas horas de dedicação e estudos a fim de garantir que a chegada do bebê fosse a mais tranquila possível. Com isso, vieram as idealizações, os sonhos e um projeto de vida com este bebê que foi desejado por tantos anos. 


No segundo trimestre de gestação, o casal descobriu que o bebê tinha Pé Torto Congênito,  uma deformidade musculoesquelética, em que o pé do bebê nasce virado para dentro e para baixo, afetando ossos, músculos e tendões. O susto foi grande e o impacto maior ainda. “Quando a gente almeja tanto algo, acabam vindo as idealizações junto. Pensamos naquele ‘bebê perfeito’, zero defeitos, zero doença, zero problemas, porque ninguém quer ver um filho sofrendo, então foi bastante impactante, eu chorei várias horas consecutivas”, relembra Larissa.


O Pé Torto Congênito tem uma incidência estimada de um a cada mil bebês  | Crédito da foto: Núcleo de Ortopedia
O Pé Torto Congênito tem uma incidência estimada de um a cada mil bebês  | Crédito da foto: Núcleo de Ortopedia

A psicóloga Cristine Cogo, que atende gestantes e puérperas, mulheres que acabaram de dar à luz, na rede pública de saúde, explica que o diagnóstico de patologias ou malformações durante a gravidez gera grande impacto emocional e vulnerabilidade. “Nesse momento, ocorre o que chamamos de morte simbólica do 'bebê imaginário'. A gestante passa a viver um luto antecipado por aquele filho ainda no ventre, que foi idealizado como saudável e sem falhas. Se este momento não for tratado com atenção, há um grande risco de que essa tristeza se transforme em um quadro de depressão ou ansiedade crônica”. 


Segundo dados apresentados no Estudo Clínico Transversal com gestantes em atendimento pré-natal, de autoria da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC), em 2006, após receberem algum diagnóstico clínico de seus bebês, 100% das gestantes que participaram do estudo desenvolveram quadros de ansiedade e 78% apresentam depressão.


Após a identificação da patologia, a rotina da gestação passa a exigir novos cuidados, e por sorte, Larissa teve todo o apoio que precisou de sua médica, que a acolheu e explicou os próximos passos do tratamento do bebê, mas, infelizmente, essa não é a realidade da grande maioria das  gestantes brasileiras.


VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA 


Segundo dados da pesquisa “Nascer no Brasil”, da Fiocruz, que ouviu quase 24 mil mulheres entre 2011 e 2012, observou-se que 30% das mulheres atendidas em hospitais privados sofreram algum tipo violência obstétrica, sejam elas toques inapropriados, negligência médica ou abuso psicológico. Já no Sistema Único Saúde (SUS), a taxa foi de 45%.


Não apenas estatísticas, mas casos reais que Larissa atestou com os próprios olhos. Com oito semanas de gestação, ela teve um sangramento e se dirigiu ao pronto socorro. “Foi uma experiência terrível, porque, além do medo eu perder meu bebê, eu vi muitas mães sofrendo, sem atendimento e acolhimento algum. Tinham mulheres passando mal desde a madrugada anterior. Isso me dilacerou”.


O SUS oferece gratuitamente consultas, exames e acompanhamento pré-natal nas unidades básicas de saúde. Ainda assim, o acesso não se traduz automaticamente em cuidado completo. Desde 2024, o Ministério da Saúde recomenda no mínimo sete consultas ao longo da gestação. Mesmo assim, levantamento do Centro Internacional de Equidade em Saúde, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), em parceria com a  associação civil sem fins lucrativos Umane, indica que uma em cada cinco gestantes no país não recebe esse cuidado mínimo.


“O abuso psicológico no ambiente hospitalar, como frases desencorajadoras ou a falta de informação clara, retira da mulher o seu protagonismo e a sua segurança. Sem esse amparo emocional básico, a gestação deixa de ser um processo de descoberta para se tornar um percurso de medo e insegurança, o que impacta diretamente o vínculo inicial entre mãe e bebê e a saúde mental de toda a família”, elucida a psicóloga Cristine Cogo. 


INVISIBILIDADE MATERNA


Além das falhas no atendimento clínico, a saúde mental materna também é afetada pela vigilância constante sobre o corpo e o comportamento da mulher, que, somado ao físico e o psicológico fragilizado durante a gravidez, geram grande impacto emocional. Larissa relata ter passado por situações desagradáveis e ouvido comentários indelicados. “Escutei de outras mulheres que eu só estava me achando linda, porque era a minha gestação, porque eu nem estava tão bonita assim, ou que eu tinha ganhado peso demais e nunca conseguiria perder. A gente tenta ignorar, mas a gravidez é um momento que mexe com os hormônios, os sentimentos e nossa autopercepção, então, foi bem difícil ouvir comentários assim”.


Para a psicóloga Cristine Cogo, essa 'fiscalização' do corpo alheio é uma extensão do mito da maternidade romântica, que desumaniza a mulher e a transforma em um objeto de crítica pública. Esse acúmulo de pressões da sociedade, a autocrítica e o sistema de saúde são fatores determinantes para transtornos como o burnout parental. Segundo uma pesquisa da B2Mamy (plataforma que conecta mães do Brasil em comunidade por meio de educação, networking, saúde e bem-estar) em parceria com a Kiddle Pass (aplicativo educacional) este transtorno atinge 9 entre 10 mães que trabalham. Por se tratar de levantamento com recorte específico, o dado não pode ser generalizado para todas as mães brasileiras, mas ajuda a chamar atenção para a sobrecarga emocional ligada à maternidade. 


O burnout parental é resultado de um desequilíbrio crônico entre as demandas (altas) e os recursos (baixos) disponíveis para os pais, já a depressão pós parto, outro transtorno associado ao puerpério, é uma condição clínica com causas multifatoriais, que vai além do "baby blues", tristeza passageira nos primeiros dias do puerpério. Por mais que as causas sejam distintas, a alta porcentagem de transtornos emocionais identificados em mães é um ponto crítico na saúde pública, que com acompanhamento especializado pode ser controlado.


A escassez de dados sobre a integridade física e saúde mental materna é outro ponto alarmante, sendo um reflexo da pouca atenção que este público recebe. Com dados majoritariamente dos anos 2000 a 2010, carece-se de informações e estatísticas atualizadas sobre o atendimento e cuidado que as mulheres brasileiras recebem nas maternidades do país.


MAIO FURTA-COR


Uma das medidas que vem repercutindo recentemente voltada ao público materno é o movimento Maio Furta-Cor. A campanha foi criada em 2020 para tratar sobre a saúde mental materna, com o objetivo de sensibilizar a população sobre a importância de cuidar emocionalmente das mulheres durante a gestação, o pós-parto e toda a maternidade, lutando contra estigmas e promovendo políticas públicas. A campanha tem sido instituída gradativamente em diversos calendários oficiais municipais e estaduais, no entanto, ainda não integra o calendário nacional de ações promovidas pelo Governo Federal brasileiro.


“A gravidez foi a fase mais linda e desafiadora da minha vida, mas, no fim das contas, a gente descobre que a maternidade não é sobre ser perfeita, mas sobre ser presente, aprender, se entregar e amar com constância. É todos os clichês juntos e deliciosamente reais”, reflete Larissa. 

A história de Larissa é o retrato de um Brasil que ainda precisa aprender a cuidar de quem gera. Enquanto a saúde mental materna não for prioridade nas políticas de saúde públicas, milhares de mulheres continuarão sendo, como ela mesma disse, “o último pensamento” de uma lista que deveria começar por elas. 



1 comentário


Júlia, como leitor, seu texto me afetou pela forma como trata a maternidade para além da idealização. A história de Larissa dá rosto ao medo, ao silêncio e à falta de acolhimento que muitas mulheres enfrentam. A reportagem conduz bem dados e relato pessoal, e faz pensar no quanto o cuidado com as mães ainda precisa ser levado a sério no Brasil. Parabéns.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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