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FOMO: quando a tela vira espelho e o espelho vira armadilha

O medo de ficar de fora cresceu com as redes sociais e virou alerta silencioso de uma geração que nunca se desconecta


Enquanto o mundo desliza pela tela em velocidade infinita, cresce também a inquietação de não acompanhar tudoCrédito da foto: Jamile Milzarek Pereira
Enquanto o mundo desliza pela tela em velocidade infinita, cresce também a inquietação de não acompanhar tudoCrédito da foto: Jamile Milzarek Pereira

 

Por Jamile Milzarek Pereira | Agência Abre Aspas


São três da tarde de uma quarta-feira. Matheus Correia, 25 anos, estudante universitário de Direito em Cascavel, está no sofá com o celular na mão. O feed do Instagram vai rolando: viagem para fora do país, festa luxuosa de alguém, uma formatura que parece saída de filme. Em algum ponto, algo aperta no peito. Não é inveja. É uma sensação mais difusa: a de que a vida acontece em outro lugar, para outras pessoas, e ele está assistindo de fora.

 

Esse sentimento tem nome, tem pesquisa e tem consequências. Chama-se FOMO, sigla em inglês para Fear of Missing Out, expressão traduzida como “medo de ficar de fora”. Se antes era jargão do vocabulário digital, hoje é objeto de estudo de psicólogos, psiquiatras e neurocientistas ao redor do mundo.

 

O QUE É O FOMO E POR QUE ELE FICOU MAIS PERIGOSO

 

O termo surgiu em 2004, ganhou força a partir de 2010 e entrou no Oxford Dictionaries em 2013. A definição acadêmica é objetiva: segundo Przybylski et al. (2013), trata-se de uma apreensão de que outras pessoas estão tendo experiências gratificantes das quais se está ausente. Na prática, é a sensação de estar sempre no lugar errado, na hora errada, fazendo a coisa errada.

 

O fenômeno se ancora na Teoria da Autodeterminação, desenvolvida pelos psicólogos americanos Edward Deci e Richard Ryan na década de 1980, que aponta três necessidades básicas do ser humano: pertencimento, competência e autonomia. Quando essas necessidades ficam insatisfeitas, e as redes sociais intensificam essa sensação, o FOMO pode surgir como resposta emocional negativa. "As redes sociais não criaram o medo da exclusão, ele é primitivo, está em nós desde que vivemos em grupos. O que elas fizeram foi industrializar esse medo. Nunca fomos expostos a tanto 'melhor que você' em tão pouco tempo", diz Bruna Santana, psicóloga especialista em saúde mental e comportamento.

 

A VITRINE E A VIDA

 

Instagram, TikTok e Facebook foram recebidos pelos usuários, em seus primeiros anos, como espaços de compartilhamento espontâneo: a vida como ela é, não como se quer que pareça. Com o tempo, viraram plataformas de curadoria da própria imagem: seleção de fotos, filtros, legendas ensaiadas, histórias editadas. O que sobrou de espontaneidade foi redesenhado pela lógica do engajamento. O que todas têm em comum é o mecanismo da vitrine: o usuário vê o que o outro decidiu mostrar. E o que as pessoas decidem mostrar, quase sempre, é o melhor.

 

Matheus Correia lembra com precisão quando percebeu que o que sentia tinha um padrão. Era sempre depois de muito tempo no celular, sempre ao ver pessoas da sua faixa etária em festas ou viagens. “Eu sabia que era uma ilusão, que ninguém posta quando está mal, mas saber disso racionalmente não fazia o aperto no peito ir embora. É como saber que cinema é ficção e ainda assim chorar no filme”, diz.

 

Esse descompasso entre razão e emoção é o que torna o FOMO resistente à simples conscientização. Bruna Santana explica que a comparação social sempre existiu, mas antes era limitada ao bairro, à escola, ao círculo próximo. Hoje, é global, ininterrupta e calibrada por algoritmos que, de acordo com a psicóloga, aprendem com cada segundo de atenção: o que faz você pausar, o que faz você rolar mais rápido, o que prende você na tela por mais dois minutos. "O algoritmo não te mostra o que é verdadeiro. Ele te mostra o que te mantém na tela. E o que mais prende a atenção humana é a comparação. É cruel e eficiente", afirma a psicóloga.

 

Pesquisas reforçam esse padrão. Um estudo publicado no Journal of Social and Clinical Psychology (Hunt et al., 2018) demonstrou que limitar o uso de redes sociais a 30 minutos diários reduziu a solidão e os sintomas depressivos entre universitários; ansiedade e FOMO também caíram em relação à linha de base, segundo os autores. Plataformas como Facebook, Instagram e Snapchat aparecem no levantamento como associadas a questões de bem-estar entre universitários.

 

OS IMPACTOS REAIS

 

O FOMO vai além do desconforto passageiro. A psicóloga Bruna lista seus efeitos: privação de sono, queda no desempenho acadêmico e profissional, tensão emocional persistente e deterioração do bem-estar físico. Em casos mais graves, entrelaça-se com quadros de ansiedade generalizada e depressão. A Organização Mundial da Saúde reconhece que os transtornos de saúde mental, incluindo ansiedade, representam uma das maiores cargas de doença globalmente. Pesquisas sobre comportamento digital apontam o ambiente on-line como possível fator agravante, especialmente entre jovens.

 

Para Matheus Correia, os sinais foram físicos antes de terem um nome. Dificuldade para dormir aos domingos, quando o feed explodia com fotos do fim de semana alheio. Irritabilidade nos dias em que ficava de fora de algum evento. A compulsão de abrir o aplicativo mesmo sem querer, o dedo indo ao ícone por memória muscular, não por escolha.

 

"Quando meu paciente me diz que sabe que as redes são falsas, mas continua sofrendo com elas, eu não digo que ele é irracional. Digo que ele é humano. O problema não é a falta de consciência, é que o sistema foi desenhado para ser mais rápido", diz Bruna Santana.

 

DIAGNÓSTICO E CAMINHOS

 

O FOMO pode responder a intervenções terapêuticas. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) aparece em estudos como uma abordagem possível para trabalhar comparação, ansiedade e uso problemático de redes, mas essa afirmação precisa estar vinculada a uma referência específica, e não a uma busca no PubMed. O trabalho envolve identificar os gatilhos da comparação, estruturar narrativas construídas a partir do que se vê nas redes e desenvolver o que pesquisadores chamam de “tolerância à incompletude”, a capacidade de estar bem sem precisar de validação constante.

 

Bruna Santana trabalha com seus pacientes a diferença entre presença real e presença digital. "Você pode estar conectado e completamente ausente de si mesmo. O trabalho terapêutico é ajudar a pessoa a escolher onde quer estar, não a banir o celular, mas a criar intencionalidade no uso".

 

Para Matheus Correia, o processo foi gradual. Tirar as notificações do Instagram, estabelecer horários para checar as redes, aprender a tolerar não saber o que estava acontecendo por algumas horas. "Parece ridículo dizer que foi difícil. Mas foi. Era ansiedade real, não metafórica, de não estar conectado. Com o tempo, fui percebendo que eu não estava perdendo nada. Estava ganhando silêncio”.

 

UMA GERAÇÃO QUE APRENDEU A COMPARAR ANTES DE APRENDER A SER

 

Há algo de estrutural no FOMO que vai além do indivíduo. Estamos diante, sobretudo, de jovens que chegaram à adolescência já dentro das redes sociais, o que pesquisadores como Jean Twenge, em obras como iGen (2017), chamam de Geração Z: pessoas nascidas entre meados dos anos 1990 e o início dos anos 2010. Mas o fenômeno não é exclusivo desse recorte geracional: atinge também millennials que cresceram vendo as plataformas se transformarem, e adultos que migraram para o digital sem nenhuma preparação emocional para ele. O que os une não é a data de nascimento, mas a experiência comum de ter aprendido a se comparar antes de aprender a se conhecer.

 

O desafio atravessa dimensões que o consultório não alcança sozinho. “O que precisamos rever não se restringe ao uso individual das redes. Envolve também os valores que essa cultura foi associando à ideia de que o que não é visto não aconteceu, de que a presença real precisa de prova digital para existir”, diz Bruna Santana. Trata-se de repensar os padrões de valor que uma cultura orientada pela visibilidade foi construindo silenciosamente: a ideia de que o que não é visto não aconteceu, que o que não é curtido não importa, que a presença real precisa de prova digital para existir.

 

Matheus ainda usa as redes. Mas diz que a relação mudou. “Antes eu abria o Instagram para ver o que eu estava perdendo. Agora eu abro, às vezes, para compartilhar o que estou vivendo. É uma diferença pequena na ação e enorme na experiência".

 

Em um mundo projetado para alimentar a insatisfação permanente, questionar essa lógica não significa abandonar o digital. Significa habitá-lo de outra forma. As redes são também onde comunidades minoritárias se encontram, onde afetos reais se constroem, onde vozes que não caberiam em nenhuma vitrine física finalmente encontram espaço.


O problema não é a tela. É o que fazemos quando ela começa a ditar o valor do que acontece fora dela.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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