Família refém do TOC: quando o transtorno ultrapassa o indivíduo
- Lucas Carvalho

- 11 de mai.
- 6 min de leitura
Uma trajetória de obsessões, compulsões e convivência familiar sob o peso de um transtorno pouco compreendido

Por Lucas Carvalho | Agência Abre Aspas
Por muito tempo, a vida de Maria Isabel dos Santos, hoje com 55 anos, foi atravessada por um medo invisível, mas concreto para quem o sente. Era mais que receio ou insegurança: era uma certeza angustiante de que algo terrível poderia acontecer a qualquer momento.
Dentro de casa, esse medo se espalhava em gestos repetidos e silenciosos: o tempo que ela levava parada antes de se sentar, os objetos que evitava tocar, os caminhos que refazia mais de uma vez para se certificar de que nada havia ficado para trás. As refeições deixavam de ser momentos simples e passavam a exigir vigilância; o descanso, que deveria ser automático, era interrompido por verificações constantes. Aos poucos, sem que ninguém nomeasse o que acontecia, a casa deixou de ser apenas um espaço de convivência e passou a funcionar sob as regras de um medo invisível.
Muito antes de receber o diagnóstico de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), Maria já vivia sob o domínio de pensamentos intrusivos e rituais que, na época, ninguém sabia nomear.
Os primeiros sinais apareceram ainda na adolescência, entre os 13 e 14 anos, quando Maria vivia com a família em um sítio. “Começou com medo de agulha”, relembra. Mas o que parecia um medo específico rapidamente se transformou em algo muito maior.
Maria acreditava que uma agulha poderia entrar em seu corpo sem que ela percebesse e, a partir disso, percorrer suas veias até atingir o coração. O desfecho, em sua mente, era inevitável: a morte em 24 horas.
Essa ideia não surgiu do nada. Era uma história contada por seu pai, Manuel Carvalho, já falecido. Para ele, aquilo não passava de “bobagem”. Em vez de acolhimento, Maria encontrou repressão. Em diversos momentos, relata que apanhava por não conseguir controlar seus comportamentos, vistos como “manha”.
Quando acreditava que uma agulha havia “entrado” em seu corpo, Maria, tomada por uma certeza sem prova, iniciava uma contagem silenciosa. Esperava 24 horas, intervalo preciso, quase ritual, em que o tempo deixava de correr e passava a pesar.
Observava cada sinal do próprio corpo, a pele, a respiração, qualquer fisgada mínima, como se estivesse à espera de uma sentença. Quando as horas terminavam e nada acontecia, vinha um alívio breve, frágil, logo interrompido pelo retorno do pensamento. E, então, o ciclo recomeçava, com a mesma cena mental, a mesma espera e o mesmo corpo colocado sob vigilância.
TUDO VIRA RISCO
Com o avanço do transtorno, atividades básicas se tornaram desafios complexos. Comer, por exemplo, deixou de ser um ato simples.
Maria passou a evitar utensílios domésticos, como pratos e talheres, por acreditar que poderiam estar contaminados com agulhas. Em determinado momento, decidiu que só se alimentaria de frutas.
Mas nem isso eliminava o medo. Para garantir que não havia risco, ela subia em árvores e colhia as frutas diretamente do galho. Se caíssem no chão, eram descartadas imediatamente. “Eu achava que podia ter entrado uma agulha”, conta.
A rotina exigia vigilância constante. Sentar-se em uma cadeira também se tornou impossível. “Parecia que uma agulha me furava”, diz. Maria passou longos períodos apenas em pé, no trabalho, em casa, durante as refeições, suportando dores físicas para evitar um perigo que, para ela, era concreto.
Esses comportamentos refletem um dos mecanismos centrais do TOC: a tentativa de neutralizar pensamentos intrusivos por meio de rituais ou evitação. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o transtorno é marcado por obsessões recorrentes e compulsões que a pessoa sente necessidade de executar para aliviar a ansiedade, mesmo reconhecendo, em muitos casos, que esses pensamentos não fazem sentido.
Com o passar do tempo, os sintomas se transformaram. O medo de agulhas deu espaço a outras obsessões, como o medo de cobras e, mais tarde, de contaminação. Ainda no sítio, Maria passou a evitar áreas com mato, alterando trajetos que antes eram comuns no dia a dia. Caminhos simples deixaram de ser diretos. Ela andava com cautela, os olhos fixos no chão, testando cada passo antes de apoiar o peso do corpo. Às vezes, parava no meio do percurso, tentando identificar se havia sentido algo, um toque, uma picada, qualquer sinal que confirmasse o risco que só ela percebia. “Parecia que a cobra tinha me mordido”, lembra.
A mudança para Foz do Iguaçu marcou uma nova fase, com outros cenários e rotinas, mas não trouxe alívio. O transtorno se reorganizou. O que antes estava no chão e no mato passou a habitar objetos e superfícies. Sacolas que vinham da rua eram deixadas de lado, malas permaneciam fechadas por longos períodos, e qualquer item externo exigia um tipo de avaliação silenciosa antes de ser tocado. Até o contato com outras pessoas podia carregar, para ela, a sensação de risco.
Foi nesse período que surgiram os rituais mais intensos de limpeza. Maria chegava a passar entre três e quatro horas no banho, utilizando vários sabonetes em uma única sessão. “Eu demorava demais, atrapalhava todo mundo”, conta.
A FAMILÍA DENTRO DO TRANSTORNO
Enquanto Maria lutava contra seus pensamentos, a família tentava lidar com uma realidade que não compreendia. Sem diagnóstico, os comportamentos eram vistos como exagero, teimosia ou “mania”.
A mãe, Maria Piedade dos Santos, lembra da dificuldade. “Era muito terrível… a gente não sabia que era doença”, diz.
A irmã, Marta Carvalho dos Santos, descreve o impacto direto na rotina. “Ela ficava horas mexendo nas cobertas antes de dormir, olhando embaixo da cama várias vezes. Ninguém conseguia descansar”, relata.
O banheiro da casa se tornou um espaço de conflito. Com apenas um disponível para todos, os longos banhos de Maria impediam o uso pelos demais. “A gente não sabia que hora ela ia sair”, conta Marta. Sem perceber, a família passou a reorganizar sua rotina em função do transtorno, esperando, evitando conflitos, se adaptando.
Esse comportamento é conhecido como acomodação familiar. Na literatura sobre TOC, o termo descreve situações em que familiares participam dos rituais, facilitam comportamentos de evitação ou modificam a rotina da casa na tentativa de reduzir o sofrimento imediato. No entanto, essa adaptação tende a reforçar o ciclo do TOC a longo prazo.
A ausência de diagnóstico prolongou o sofrimento de todos. Antes de chegar ao psiquiatra, Maria passou por atendimentos que não identificaram o problema. Em um dos casos, recebeu apenas vitaminas.
A falta de informação sobre saúde mental, especialmente em décadas passadas e em áreas rurais, contribuiu para interpretações equivocadas. O comportamento era visto como escolha, não como sintoma.
Estudos epidemiológicos estimam que o TOC atinja entre 1% e 3% da população mundial. O National Institute of Mental Health (NIMH), dos Estados Unidos, informa que os sintomas podem começar em qualquer momento da vida, mas costumam ter início entre o fim da infância e o começo da vida adulta. Sem tratamento adequado, o transtorno pode se tornar crônico e comprometer a qualidade de vida do indivíduo e de sua família.
DIAGNÓSTICO
A virada aconteceu anos depois, já em Foz do Iguaçu, quando Maria foi encaminhada a um psiquiatra. Foi ali que recebeu o diagnóstico de TOC.
Pela primeira vez, aquilo que parecia inexplicável ganhou nome e possibilidade de tratamento. “Ali começou tudo”, lembra a mãe. Maria iniciou o uso de medicação e, gradualmente, passou a compreender seus próprios sintomas.
O tratamento do TOC geralmente envolve a combinação de medicamentos e psicoterapia. A terapia cognitivo-comportamental, especialmente a técnica de exposição e prevenção de resposta, é considerada uma das abordagens mais usadas para ajudar o paciente a controlar os sintomas, segundo a Mayo Clinic.
A melhora não foi imediata, mas veio. Após a mudança para Medianeira, Maria percebeu uma redução importante dos sintomas.
Hoje, ela avalia sua condição como “70% melhor”. Ainda existem limitações, como evitar certos contatos ou situações específicas, mas o transtorno já não domina sua rotina como antes.
Mais do que a redução dos sintomas, houve também uma mudança na forma como a história é compreendida. O que antes era visto como fraqueza ou desobediência hoje é reconhecido como uma condição de saúde.
A trajetória de Maria Isabel mostra que o TOC não atinge apenas o indivíduo. Ele se infiltra nas relações, altera rotinas e desafia vínculos familiares. Mostra também o impacto da desinformação e como o desconhecimento pode transformar sofrimento em conflito.
Ao mesmo tempo, aponta a importância do diagnóstico, do tratamento e do apoio adequado. Porque, quando compreendido, o transtorno deixa de ser um enigma solitário e passa a ser um desafio compartilhado, com caminhos possíveis de enfrentamento.
Durante anos, Maria viveu esperando 24 horas para descobrir se iria morrer. Hoje, vive com a possibilidade de planejar o futuro, algo que, por muito tempo, pareceu inalcançável.
Se antes o tempo era contado com medo, agora ele passa a ser medido em conquistas silenciosas: um banho mais curto, uma refeição sem rituais, uma noite de sono tranquila. Pequenos gestos que, para a maioria, passam despercebidos, mas que, para Maria, representam liberdade.
É nessa reconstrução cotidiana que sua história ganha outro sentido: o testemunho de resistência diante de um transtorno que, por muito tempo, tentou definir quem ela era, sem conseguir.

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importantíssimo!!!